Retirar a coordenação de projectos aos arquitectos e passar a tratar a arquitectura como uma especialidade sujeita a aceitação por engenheiros não é uma solução de compromisso, é uma idiotice, sobretudo quando as directivas europeias e o Estatuto da Ordem dos Arquitectos claramente atribuem a coordenação de projectos aos arquitectos.
Até já houve um grupo de engenheiros que fizeram um abaixo-assinado contra esta proposta (e por conseguinte contra o seu próprio bastonário) por acharem que nessa tal "clarificação de competências" é absurdo um engenheiro supervisionar um projecto de arquitectura por não terem preparação para isso. Essa "clarificação de competências" é tão má que até o candidato da Lista A, João Rodeia no debate que houve na Sexta-Feira admitiu que a situação era muito complicada.
Quanto aos arranjos exteriores, não estamos a falar de desenhos de parques, jardins ou coisas do género, estamos a falar de casas com logradouros mínimos onde os arquitectos deixam de poder escolher os pavimentos ou se querem ter caldeiras de árvores.
Já fui a blog, as minhas dúvidas nasceram precisamente disso, do programa ser vago em alguns pontos, e volto a transcrever as dúvidas:
1. "Promover a discussão pública, o acompanhamento técnico e, sempre que necessário, emitir juízo de valor sobre todos os grandes Projectos Públicos e/ou Privados, com forte impacto territorial e/ou ambiental."
A Ordem a dar juízos de valor não solicitados sobre um projecto de um seu associado quando tal não está previsto na sua estrutura orgânica? Isto não é pouco ético? Quem dará os juízos de valor? É que no Estatuto da Ordem dos Arquitectos não há nenhum organismo que tenha como função pronunciar-se sobre os projectos de outros. O dever da Ordem é suposto ser regular a profissão, para emitir pareceres sobre os projectos já existem as CCDR, as Câmaras, o IPPAR, o ICN e sei lá eu mais quantos e isso juízos não são de valor, são baseados na estrutura legal dos diversos planos. Um juízo de valor pressupõe uma avaliação também a nível estético de um projecto, que é coisa que a Ordem dos Arquitectos não tem, segundo sei dos estatutos, capacidade para fazer.
2. Ajudar a promover a Trienal: Mas a Trienal não é um projecto da Ordem? Se sim, não devia ser "organizar a Trienal"? Se não, de quem é a organização da Trienal?
3. "Acompanhar a conclusão da substituição do Decreto 73/73, procurando inverter as disposições no articulado que penalizam o âmbito do exercício profissional do arquitecto." Segundo veio sendo público, na última proposta de substituição do 73/73, os arquitectos perdiam o papel de coordenadores de projecto passando a ser uma especialidade como águas e esgotos ou estruturas (os coordenadores, não tenho a certeza disto, seriam engenheiros), perdiam a possibilidade de desenhar arranjos exteriores e tudo o que fosse obra com menos de x m2 continuaria a poder ser desenhado por outros que não arquitectos, ou seja, estava-se a trocar um decreto mau por um ainda pior. O que se propõem fazer sobre isto?
4. "Ampliar o Inquérito À Arquitectura do séc. XX em Portugal, iniciando o levantamento dos bens imóveis construídos fora do território nacional". Aquilo foi um inquérito? Quando muito chamar-lhe-ia um Inventário: folhas com uma fotografia, nome de autor e ano e nada mais. O guia de arquitectura na Região de Lisboa e Sul de Portugal desde 1975 editado pela Blau e feito por alemães tem mais obras e mais informação que uma coisa feita pela nossa Ordem e restringe-se a apenas parte do país num espaço de tempo também limitado. O que deviam era contratar estes tipos para fazerem um levantamento a sério, já que o da Ordem é uma vergonha.
5. E apoio aos estagiários? E a responsabilização dos patronos ou entidades acolhedoras quando um estágio é mal feito, passado a tirar fotocópias e cafés?
Quanto a não estar mandatado para responder a perguntas, é pena, pensava que fazer parte de uma lista pressuponha conhecer a fundo as opções estratégicas da Lista e tirar dúvidas a quem as tem...além de que seria útil em vésperas de eleições as pessoas que vão votar ter resposta a este tipo de coisas, porque mais do que quem apoia quem, o importante é saber com que propostas se concordam mais e qual a lista que melhor corresponde aos desejos de cada eleitor.
Se houver aí alguém da lista B que queira comentar sobre estas dúvidas também está à vontade, era bom ver as coisas pelos dois lados.
Bem, che sera, sera.