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Arquitectura.pt


Rui Resende

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Everything posted by Rui Resende

  1. “Phone Booth” (2002) IMDb cinema centrípeto Isto podia ter sido memorável. Tinha um conceito interessante detrás, mas quem executou arruinou-o. Suponho que em grande parte a responsabilidade devia ser atribuída a Schumacher. Ele é incompetente, ele vai com a maré, ele faz o que quer que as audiências consumam facilmente, e não se interessa por cinema ou como pode construi-lo numa base visual. Os seus filmes funcionam para mim como poluição visual, a estratégia dele é encher o olho com todo o tipo de imagens para substituir a falta das suas próprias ideias. Assim, algumas coisas boas perderam-se aqui: Este filme é, num certo sentido, o oposto do que Hitchcock fez em Janela Indiscreta. Esse foi uma obra prima, porque nos colocava dentro do olho de um observador, e o mundo do filme é tudo aquilo que ele é capaz de ver. Nem mais, nem menos. Tirando alguns poucos planos especiais, recebemos um mundo com as mesmas medidas do de Stewart. Isso foi especialmente bem feito, e a história desenvolve-se visualmente. Aqui tínhamos o oposto. O mundo está centrado num personagem, como em Janela indiscreta, mas a forma como vemos esse mundo é completamente oposta, [...] 7Olhares - Phone Booth
  2. “The Apartment” (1960) IMDb tempos modernos Vale a pena ver o que Billy Wilder fez, independentemente do que seja, ou sob que circunstâncias ele as fez. Isso porque ele sempre tentou contornar adversidades, mesmo se no final isso aparece com a forma da ironia e da crítica aos seus patrões, usando as possibilidades que eles dão. É o que ele faz aqui. Os resultados não são muito impressionantes, talvez porque ele mistura mundos diferentes. Ele tem um romance para contar, foi para isso que foi contratado, para produzir a comédia romântica que se esperava dele, início dos anos 60, mas feita como se fosse nos anos 50. Mas na verdade, ele está angustiado porque ele sente-se agarrado e dependente do sistema de produção cinematográfica que não lhe permite exprimir livremente as suas preocupações, os seus temas, da sua própria forma. Ele teria a sua última recusa tarde na sua vida, quando Spielberg não o deixou realizar a sua Lista de Schindler. Por isso imagino que Stalag 17 deve provavelmente ter sido um projecto muito pessoal para Wilder, um que procurarei verbrevemente. Neste processo de luta pela sua própria expressão, ele criou uma obra prima, Sunset Boulevard, e o menos interessante Ace in the Hole. O noir servia perfeitamente as suas intenções de integrar os seus sentimentos sem os gritar, e ainda assim produzir o filme que lhe tinham pedido. [...] o apartamento - 7Olhares
  3. “Helvetica” (2007) IMDb Catálogo Como um futuro arquitecto, eu senti-me próximo do que estava em discussão aqui. A evolução de muitas das concepções, concepções vulgares, do que arquitectura deveria ser ou, como o design gráfico deveria ser encarado, é bastante similar. Assim, temos design, aqui representado pelas diversas fontes de escrita, que surgem como resposta a uma necessidade, uma representação de um certo momento no tempo, ou o ícone de determinada postura política ou de vida. O título do filme é uma criação do modernismo, e isso significa que funciona, tenta ser universal, e é durável, em termos visuais. Isso não impede que seja um potencial alvo de críticas. O que se passa é, a natureza humana não permite que os humanos permaneçam iguais sempre. Isso porque a mente humana é criativa. Ao mesmo tempo, os homens gostam de fórmulas. [...] Helvetica - 7olhares
  4. “Die Fälscher” (2007) IMDb uma nova abordagem Tendo em conta todos os filmes que já foram feitos sobre a opressão nazi aos judeus, este é inteligente na forma como constrói os seus personagens e a sua abordagem ao tema. O que se passa é, os criadores aqui são suficientemente competentes, especialmente na cinematografia, que segue Rembrandt, uma tradição belíssima no que toca ao uso da luz, e a construção de um ambiente. Com isto falo de imagens onde a luz é uma massa com a forma do objecto iluminado no meio de um ambiente escuro, mas nunca, ou quase nunca, percebemos a fonte da luz, é como se ela irradiasse do próprio objecto. Isto faz-nos focar no centro da composição com especial concentração. Coisas comuns, aspectos miseráveis, tornados especiais por estarem num local escuro. Isto tem tudo que ver com a segunda guerra, e as profundas da miséria humana. Mas apesar desta fotografia, o resto é apenas competente, a câmara foi carinhosa em alguns momentos, mas apenas (falso) documental em praticamente todo o resto. As actuações são boas, e Markovics e os escritores merecem crédito, porque fizeram algo que eu nunca tinha visto num filme de Holocausto. Assim, não temos bem e mal, isso ganhou o meu coração imediatamente. Verificamos as falhas, e o mau carácter do falsificador logo do início. Ele tem tantas falhas como qualquer outro homem, talvez ainda mais. [...] os falsificadores - 7olhares
  5. “The Transporter” (2002) pólvora seca Isto está baseado em nada. Tudo explode, mas nada rebenta. Os elementos usados neste filme serão vistos, suponho, como as características principais nos filmes de acção desta primeira década do século. Temos uma cinematografia específica, baseada em tons azuis que funcionam como um tipo de imagem sóbria, dura, mesmo violenta. Isto supostamente marca o tom da acção, que por sua vez é coreografada, mas também dura, pesada. A edição tem um papel fundamental nisto tudo, [...] 7Olhares - The transporter
  6. “Billy Madison” (1995) Sandler com uma ajuda este é um filme vulgar com dois momentos que o valorizam parcialmente. O Adam Sandler acostumou-nos a projectos em que tudo gira em torno do seu personagem, todos os elementos existem para realçar as suas qualidades como intérprete de comédia. Ele é um daqueles humoristas que construíu uma carreira em redor de um personagem específico. Neste caso, alguém que é anormal, aparentemente aparte de tudo que, no entanto, acaba por ser capaz de completar feitos puramente honestos e difíceis. Assim é o caso aqui. Mesmo o título dá-nos o que veremos: billy e não muito mais. [...] 7Olhares - Billy Madison
  7. “No Country for Old Men” (2007) (Este país não é para velhos) as crianças que saíram da caixa de areia Este filme é uma grande experiência em muitos níveis, e um dos melhores usos do widescreen que tenho visto em produções recentes. A fotografia é invejável, e chamo a atenção para todas as cenas que têm lugar no sítio do massacre. Dia, noite, de cima para baixo e ao contrário, todas as situações e ângulos são tentados, todos eles significam coisas diferentes em pontos diferentes da narração. É realmente grande trabalho. Mas há questões aqui para ser analisadas, creio. Estou convencido que grande parte do gozo pessoal que podemos tirar de um filme (e de outros trabalhos criativos) é uma questão de decisão pessoal. Basicamente temos duas opções: ficar na superfície, ou pensar/sentir. A vasta maioria das audiências médias de cinema funcionam na primeira situação que basicamente se traduz em “gostei da história?”, “gostei das actuações?” (no nível básico de serem convincentes ou artificiais), e eventualmente a beleza das imagens. Para esse tipo de audiências este filme funcionará perfeitamente, porque está construído de situações/enredos/personagens já vistos. Nada do que temos aqui é pouco usual, traficantes de droga, dinheiro, xerife, e a fronteira dos EUA com o México. Ah, e o psicopata. Com estas afirmações, não me estou a retirar da audiência média. Mas procuro os meus caminhos para tentar compreender o que poderá estar por trás do que vi. Neste caso, não acredito que os Coens simplesmente fossem com a corrente, e fizessem tudo o que seria esperado de outros realizadores apenas competentes. Mas de facto, aparentemente eles fazem isso… suponho que foi propositado. [...] 7Olhares - no country for old men (2007)
  8. Vi este anúncio outro dia e achei uma coisa fantástica. Talvez já o conheçam, de qualquer forma cá vai: [ame="http://www.youtube.com/watch?v=xmbM8XGMZxI&feature=related"]YouTube - Comercial Hitler da Folha de Sao Paulo[/ame]
  9. “Breaking and Entering” (2006) visual, mas pouco vigoroso Interessa-me muito o trabalho de Minghella. Há uma poesia visual transversal a todos os seus filmes, bons ou maus que, apesar claramente enraizados em referências específicas, são bastante pessoais e honestos. Muitas vezes tenho a impressão que ao longo de todo o filme ele está apenas a mostrar uma única imagem, que é distorcida, desvanecida, ligeiramente mudada. Assim ele é coerente no seu próprio mundo. Ele é abstracto na forma como cria sensações e sentimentos que podem não estar directamente relacionados com a história ou os personagens do filme. E tem um elemento que sempre joga em concordância com o que ele pretende: a música de Gabriel Yared. Quando (se) eu comentar no Paciente Inglês, todas estas observações serão mais significativas e farão mais sentido (apesar de eu sentir aí a necessidade de explorar estas ligações com mais intensidade). Mas, em geral, estas são as características que prepassam os filmes de Minghella. Este não é excepção. Ele escolhe uma localização, facilmente identificável (Londres), e coloca aí a sua narrativa visual poética. Ele constrói a sua própria cidade dentro da localização real. Não admira que o protagonista seja um arquitecto. Apesar de tudo, o filme tem pouco que ver com arquitectura. O que se passa aqui é que há cineastas que operam (independentemente do que façam) sobretudo num mundo espacial (Welles, Antonioni, Tarkovsky, dePalma…) e outros enraizados em imagem [...] 7Olhares - Breaking and Entering
  10. “Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street” (2007) (demasiado) clássico Este filme está feito a partir de uma linha clara, que é pervertida e torcida de acordo com a visão própria de Burton montar as coisas. Temos a música como “números” no tipo de construção que os musicais americanos clássicos usavam, e que era já usada na ópera italiana (sobretudo bel canto). Esta estrutura usa canções onde a ópera usava as árias (momentos de reflexão), e os diálogos onde a ópera colocava o recitativo (desenvolvimento de acção). Burton não tenta nem por um momento mudar isto. Tudo bem para mim. Apesar do género musical ter ganho algum interesse renovado nos últimos anos (Moulin Rouge destaca-se aqui), creio que é aceitável recuperar a forma clássica. Sobre essa estrutura bastante dsenvolvida (e reconhecível), Burton coloca a sua visão pessoal. As suas preocupações têm muito que ver com imagem, o poder de uma visão, um ambiente, e também têm algo que ver com espaço. Quando ele é capaz de concretizar essa visão com força (Batman, Ed Wood, Edward…) ele permite-nos uma experiência profunda, visual, e duradoura. Batman foi especialmente bem feito, porque é profundo espacialmente, para além de visualmente. Este filme é trabalho menor, no grande quadro dos filmes de Burton [...] 7Olhares - Sweeney Todd
  11. “D-Tox” (2002) Como evitar ser um bom filme Quando chego a coisas como isto, tento não me fixar nas coisas óbvias que são más, ou que simplesmente não estão e deviam estar. Tento antes compreender as coisas que podiam ter sido boas, mas simplesmente falharam, por incompetência, pressões comerciais (seja isso o que for) ou pura inabilidade para ver as possibilidades. Aqui, esse potencial não usado é bastante claro para mim. Temos um personagem principal que é, até um certo ponto, louco. Ele é colocado junto com outros personagens, num espaço fechado, algures no meio de um clima frio adverso. Esses personagens são todos tão loucos como o principal, e todos parecem esconder algo. É isso. Isto podia ter sido explorado de forma visual. Temos uma pista fantástica que indica pensamento visual: [...] 7Olhares - D-Tox
  12. “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón” (1980) no princípio… Suspeitava que iria ver algo assim antes de o ver. Estava interessado em compreender as raízes de Almodóvar como realizador, como ele começou a desenvolver o seu tipo de narração visual, que é tão único hoje. Ao mesmo tempo, queria compreender e sentir a pulsação do espírito underground de Madrid naqueles dias. Estas questões são pessoais para mim. Quero compreender como se pode utilizar uma força jovem (e inexperiente) disponível e talentosa e dar uma expressão fiel de um certo momento no espaço e no tempo. Também queria (e ainda quero) chegar aos “primeiros trabalhos” de realizadores que admiro, para assim compreender como eles usaram as suas limitações técnicas e orçamentais para perseguir as suas ideias. Este não é o primeiro filme de Almodóvar, mas é o mais antigo a que podemos ter acesso no mercado legal (e suponho que também no ilegal…). Creio que o filme falha. Não por ser tecnicamente e formalmente (muito) imperfeito. Na verdade até gostei de ver todas as falhas a passar em frente dos meus olhos, creio que por vezes um projecto pode funcionar melhor se o amadorismo/inexperiência por trás se mostrar. Este é o caso. De qualquer forma, para mim o filme falha porque aqui Almodóvar ainda não é capaz de transformar as suas vulgares histórias de novelas em algo inteligente de um ponto de vista da narrativa visual. A história aqui não é mais ou menos pobre que em muitos dos sucessos de Almodóvar. [...] 7Olhares
  13. “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón” (1980) no princípio… Suspeitava que iria ver algo assim antes de o ver. Estava interessado em compreender as raízes de Almodóvar como realizador, como ele começou a desenvolver o seu tipo de narração visual, que é tão único hoje. Ao mesmo tempo, queria compreender e sentir a pulsação do espírito underground de Madrid naqueles dias. Estas questões são pessoais para mim. Quero compreender como se pode utilizar uma força jovem (e inexperiente) disponível e talentosa e dar uma expressão fiel de um certo momento no espaço e no tempo. Também queria (e ainda quero) chegar aos “primeiros trabalhos” de realizadores que admiro, para assim compreender como eles usaram as suas limitações técnicas e orçamentais para perseguir as suas ideias. Este não é o primeiro filme de Almodóvar, mas é o mais antigo a que podemos ter acesso no mercado legal (e suponho que também no ilegal…). Creio que o filme falha. Não por ser tecnicamente e formalmente (muito) imperfeito. Na verdade até gostei de ver todas as falhas a passar em frente dos meus olhos, creio que por vezes um projecto pode funcionar melhor se o amadorismo/inexperiência por trás se mostrar. Este é o caso. De qualquer forma, para mim o filme falha porque aqui Almodóvar ainda não é capaz de transformar as suas vulgares histórias de novelas em algo inteligente de um ponto de vista da narrativa visual. A história aqui não é mais ou menos pobre que em muitos dos sucessos de Almodóvar. [...] 7Olhares
  14. “Byt” (1968) Cinema codificado Este foi o meu primeiro contacto com Svankmajer. E que impressão forte tive! Ele está ‘rotulado’ com o movimento surrealista, e é frequentemente colado aos outros nomes do surrealismo em cinema. Por este filme sozinho, não verifico nada que possa ser chamado surrealismo, excepto por algumas escolhas estéticas, e alguma física do mundo do filme. Isto porque o surrealismo sempre teve que ver com a procura de transmitir através da arte estados de (in)consciência que estão para além da auto-consciência. Exemplo maior, os sonhos. Coisas que não podemos controlar, que não são materiais, não podemos tocar, que acontecem em tempo indeterminado (em forma e duração). Nada disso está aqui. Isto tem, claro, um discurso político velado nas entrelinhas. [...] 7Olhares - Byt (1968)
  15. “Byt” (1968) Cinema codificado Este foi o meu primeiro contacto com Svankmajer. E que impressão forte tive! Ele está ‘rotulado’ com o movimento surrealista, e é frequentemente colado aos outros nomes do surrealismo em cinema. Por este filme sozinho, não verifico nada que possa ser chamado surrealismo, excepto por algumas escolhas estéticas, e alguma física do mundo do filme. Isto porque o surrealismo sempre teve que ver com a procura de transmitir através da arte estados de (in)consciência que estão para além da auto-consciência. Exemplo maior, os sonhos. Coisas que não podemos controlar, que não são materiais, não podemos tocar, que acontecem em tempo indeterminado (em forma e duração). Nada disso está aqui. Isto tem, claro, um discurso político velado nas entrelinhas. [...] 7Olhares - Byt (1968)
  16. n é exactamente assim, mas é engraçada essa história. Há aí um documentário sobre o Souto Moura que costuma passar na 2 de vez em quando, já tem uns anitos, quando o fizeram tavam a desbastar a pedreira do estádio do Braga, para se ter a noção. O que aconteceu é que segundo o Souto, quando ele entrou na faculdade era preciso fazer um exame de desenho. Ele foi uns 15 dias ou 3 semanas antes desse exame fazer um "teste" ou ter uma aula com um professor reconhecido de desenho. Desenhou uma Vénus de Milo, que ficou segundo ele toda mal proporcionada, "com os olhos tortos..." então o tal professor "receitou-lhe" uma "dieta" de desenho para os dias que lhe faltavam para o exame. Tipo "levantas-te desenhas a colher do pequeno almoço, lavas os dentes desenhas a escova, ..." e ele então passou essas 3 semanas a desenhar toneladas por dia, e pelos vistos lá passou no exame.
  17. n é exactamente assim, mas é engraçada essa história. Há aí um documentário sobre o Souto Moura que costuma passar na 2 de vez em quando, já tem uns anitos, quando o fizeram tavam a desbastar a pedreira do estádio do Braga, para se ter a noção. O que aconteceu é que segundo o Souto, quando ele entrou na faculdade era preciso fazer um exame de desenho. Ele foi uns 15 dias ou 3 semanas antes desse exame fazer um "teste" ou ter uma aula com um professor reconhecido de desenho. Desenhou uma Vénus de Milo, que ficou segundo ele toda mal proporcionada, "com os olhos tortos..." então o tal professor "receitou-lhe" uma "dieta" de desenho para os dias que lhe faltavam para o exame. Tipo "levantas-te desenhas a colher do pequeno almoço, lavas os dentes desenhas a escova, ..." e ele então passou essas 3 semanas a desenhar toneladas por dia, e pelos vistos lá passou no exame.
  18. “Ace in the Hole” (1951) Abutres “i don’t make things happen, i just write about them” *** Este comentário pode conter spoilers *** Este é o filme que Wilder realizou depois de Sunset Boulevard. Este é um facto importante. Ele estava nesse momento, sinto, imerso em vários assuntos, alguns que dizem respeito à sua postura perante a vida e a indústria do cinema na América, e outros temas dizendo respeito a sua exploração pessoal do noir e das suas possibilidades narrativas. A minha opinião é que Wilder levou a concepção original do noir aos seus limites com Sunset Boulevard. Assim, num certo sentido, ele esgotou o noir na sua primeira fase com esse filme. Este foi uma espécie de bónus, um último fôlego dessa concepção primitiva do género. O cerne narrativo aqui está na escrita, tal como em Sunset… . Temos várias entidades que são responsáveis por “escrever” visualmente o que vemos, e que lutam ao longo da história para estar em controlo dos factos: . os ’sete abutres’, as crenças dos nativos. eles são responsáveis, pelo menos suspeitamos, pelo aprisionamento de um homem, que motivará todo o ‘circo’ (ou foi pura coincidência? destino?) [...] Ace in the Hole (1951) - 7Olhares
  19. “Tekon kinkurîto” (2006) IMDb Vi dois filmes aqui. Um interessou-me, o outro aborreceu-me. a cidade: Há sempre ideias visuais fortes por trás das boas animações japonesas. Na minha interpretação, este filme tem duas fontes principais: uma é a própria noção de imagen na arte e cultura japonesa. A arte japonesa produz agora e desde há muitos séculos imagens que são tão complexas como agradáveis, têm ideias abstractas na sua concepção, mas são viscerais na forma como tocam o espectador. Assim, a arte no Japão (quando realmente boa, e realmente japonesa) tem esta componente dupla, de ser altamente intelectual e altamente ligada ao público que atinge, independentemente de onde esse público é. Por isso é que tem sido relativamente fácil o processo de universalização da cultura japonesa (pelo menos a ‘imagem’ da cultura japonesa). O que me fascina é como criadores japoneses tão diferentes e de diferentes áreas e formas de expressão tendem a ser tão coerente entre eles, mesmo que não directamente relacionados. A outra fonte que encontrei aqui vem de uma certa forma de expressão que, em tempos, o cinema explorou. falo do expressionismo, e ainfluência directa que os filmes alemães dos anos 20 tiveram em tantas criações posteriores. Este filme é basicamente um produto destas duas (principais) influências. Temos uma cidade, que é magnífica, colorida mas escura (e, tal como os dois personagens principais, ‘preta’ e ‘branca’). Esta cidade merece ser explorada. É poderosa, e visual. É visual numa perspectiva falsamente bidimensional. Isso porque as imagens são mais baseadas em textura, cor, e enquadramento, do que em distâncias tridimensionais, ponto de vista ou perspectiva. Assim, tem mais de Metropolis que de Blade Runner. Mas é falso por os japoneses são muito bons a reduzir os meios sem perder conteúdo. É como dizer, a profundidade está toda lá, apesar de a imagem ser aparentemente plana. Assim, esta cidade merece uma visita e é, sem dúvida, o ponto mais forte neste filme. [...] 7olhares
  20. não, isso não é verdade. Simplesmente não foi o Niemeyer que desenvolveu o projecto de execução, não pormenorizou nada, na verdade ele nunca esteve no local da obra. Quem desenvolveu o projecto para além da escala 1/500 (sensivelmente) foi o arq. Viana de Lima, que aliás era amigo pessoal de Niemeyer, que usava o seu escritório no Porto sempre que precisava de ficar por algum tempo na Europa, e trabalhava aí. Mas nunca adulteraram projecto de execução do Niemeyer porque ele nunca fez nenhum, e a implantação e volumetrias que lá estão, essas são mesmo Niemeyer.
  21. “Get Carter” (2000) IMDb não é acção Eu gostei deste filme. Tem uma construção visual interessante que tem que ver, creio, com uma coerência fotográfica e especialmente edição. É narrativa visual no sentido em que o enredo, apesar de fino e relativamente desinteressante é totalmente contado de uma forma visual. Sem dispositivos como os diálogos em excesso normalmente utilizados para substituir a falta de ideias visuais. Como algo positivo aqui, realço a coerência artística global, com quadros construídos quase como um mosaico. No entanto este é um projecto detestado. Porquê? Tenho uma teoria. O grande público gosta de Stallone porque ele representa 9 em cada 10 vezes o herói americano típico, tal como os seus colegas Seagall, Van Damme, Schwarzenegger (estes dois são importações americanas). Mais recentemente, este papel tem vindo a ser representado por Vin Diesel. Assim Stallone ganhou a sua reputação entre os fãs de heróis difundidos como Rambo ou Balboa. Esses personagens não existem muito aqui. Ainda é um filme típico de “matar toda a gente” e ter a vingança, mas muito suavizado pela forma como a coisa foi montada visualmente. Assim o problema (para o sucesso do filme) foi, na minha opinião: colocando Stallone, [...] Get Carter - 7Olhares
  22. “Macao” (1952) Cinzento, não “noir” Desta vez a minha intuição falhou. Normalmente prevejo algumas coisas sobre os filmes que estou prestes a ver baseadas em puro preconceito, algumas coisas que retiro de outros filmes dos mesmos produtores/actores/realizadores que estou prestes a ver, o título do filme (normalmente sugere-me muito simplesmente saber o título) ou pura intuição. Este foi o caso. O que temos aqui é um noir feito no início de uma década de aspectos interessantes no cinema americano: não foi uma década experimental como os anos 30 (que exploraram as possibilidades de um meio renovado pela possibilidades de sincronização entre som e imagem) nem tão apoiado num género e num sentido de estilo com os anos 40. Assim, num certo sentido, esta era uma década de indefinição. Mas filmes como este dizem-me que já não se vivia o período do noir tal como os anos 40 (e em grande medida John Huston) o definiram. The Maltese Falcon mudou (ou eventualmente resumiu) algumas convenções e introduziu novas possibilidades para dispositivos narrativos em cinema, e esse legado seria desenvolvido continuamente e ainda tem novos passos a serem dados nos dias que correm. Mas esse estilo, os muito apreciados chapéus, detectives, luz/sombra que eram a face mais visível (e para muitos espectadores incorrectamente tidos como a essência do noir) não funcionam já aqui. Ainda estou a tentar encontrar um filme noir posterior a Sunset Boulevard que realmente funcione. Este não funciona. Comecemos com Macau. [...] 7Olhares - Macao (1952)
  23. “Tout va bien” (1972) esquisso estrutural Godard faz-me sempre pensar. Raras vezes sou indiferente ao que ele faz, com algumas excepções. Mas muitas vezes, a excitação em relação a um filme dele vem nos dias depois de o ver. Este é um desses casos. O esquema aqui é simples, ele está a trabalhar a (re)invenção estrutural dos seus próprios filmes. Provavelmente nesta altura ele seria suficientemente arrogante para acreditar que estava a trabalhar na reinvenção de todo o cinema (lembram-se do “jean luc cinema godard” de Bande a part?). Bem, há conclusões aqui que viriam a afectaro trabalho de outros autores, mas nem sempre. Creio que este filme é importante como um marco na própria obra de Godard, no quadro maior dos seus trabalhos e também é importante ver no contexto histórico do cinema de então. Muitas coisas aconteciam no princípio dos anos 70, e a principal questão seria clarificar o significado do cinema e as suas ligações à vida real, a questão essencial que a nouvelle vague tinha levantado mas nunca respondido satisfatoriamente. Assim, há um conjunto de trabalhos deste período que creio deverão ser analisados porque demonstram diferentes abordagens de diferentes contextos a uma questão similar. Pensem em “F for Fake” de Welles, “The conversation” de Coppola, “La nuit américaine” de Truffaut ou, uns anos antes, no Blow Up de Antonioni. Em comum entre estes projectos (e alguns outros) há, a meu ver, esta preocupação cinematográfica de compreender se o cinema representa vida, encena vida, ou é pura ficção que poderá influenciar a vida. Este filme é provavelmente a resposta menos interessante dos projectos que mencionei, mas mesmo assim vale a pena verificar. A razão porque creio que este é menos recompensador do que os filmes que referi acima é porque Godard, nesta altura, tendia a arruinar parcialmente os seus filmes aborrecendo o espectador com as suas concepções infantis e cruas de ideologias políticas. Assim, ele não se foca tanto no cinema como se foca na política. Gosto de acreditar que mesmo então ele tinha a noção da falta de profundidade das ideias que ostentava, mas escolhia adoptar essa postura panfletária como motivadora de determinadas opções estéticas. Assim, no que toca ao cinema: O filme é, em si mesmo, uma estrutura crua e denunciada, que contém várias estruturas cruas e denunciadas. [...] Tout va bien - 7olhares
  24. “El embrujo de Shanghai” (2002) IMDb Lolita, Quixote . um filme dentro de uma tendência *** Este comentário pode conter spoilers *** Este filme está em linha com o que o cinema espanhol tem explorado nos últimos anos. Isto significa que estou a falar de um filme com uma construção muito pensada, em termos narraticos, referências internas e simbolismo. De Trueba, eu apenas tinha visto, há alguns anos, Belle Époque, e não conheço o arco que a sua carreira desenhou nos 10 anos entre esse filme e este, mas questiono-me, mesmo devido a outros projectos espanhóis recentes, quão profunda está a ser a influência das criações de Medem nos filmes espanhóis. A sua primeira longa é Vacas, de 1992, precisamente o ano de Belle Epoque, que não tinha nenhuma das preocupações que verifiquei neste filme, assim sinto-me inclinado a considerar que Medem está a tomar o seu caminho (merecido) em influenciar os criadores espanhóis (e não só espanhóis). Assim, aqui temos uma base narrativa baseada no já visto filme dentro de um filme. Neste caso é quase literalmente um filme já que uma história é contada paralelamente à acção principal, e vimos a descobrir que essa história não é verdadeira ou, pelo menos, poderá estar distorcida e deslocada. Esta estrutura canónica existe exactamente assim no “Kiss from the spider woman” de Babenco, pelo que esse filme apareceu-me como uma referência directa para este. Mas é interessante compreender como a realidade paralela inventada influencia (talvez) a linha principal. Verificando: a mulher de Shanghai chega-nos a nós, espectadores, representada pela actriz da mãe da rapariga; a história fictícia termina com essa mulher oriental a ser levada pelo pai da rapariga. Forcat veste um traje oriental que vemos o pai da rapariga usar na história inventada. Poderá o filme que Forcat conta falar sobre o passado da relação dos pais da rapariga? não sei, mas gosto da ambiguidade de indagar quando deveremos colocar a história [...] El embrujo de Shanghai (2002) - 7Olhares
  25. “The American President” (1995) IMDb lavagem cerebral Peguem no homem normal que só quer encontrar o amor verdadeiro. Por agora isto é uma fórmula mais que usada, e suponho que já o era há 13 anos atrás. Desta vez temos Michael Douglas a representar esse papel. Não creio que cole bem com ele, mas isto é uma queixa paralela. Adicionem a essa camada uma outra, de orgulho americano, que sempre leva o cinema americano (o mau) a representar o presidente, colocá-lo como deus, maior que a vida tornando-o “apenas” um homem. Assim, o homem vulgar é o presidente dos Estados Unidos, o “homem mais poderoso do mundo” é um simples homem. Estão a ver o paradoxo? Terão este filme, como mais uma variação do tema “vamos mostrar aos americanos porque os americanos devem estar orgulhosos de si mesmos” (eu não sou americano). Não há nada aqui para ver, obviamente, é ridículo todo o tempo, ainda mais quando verificamos o pouco à vontade com que Douglas representa praticamente todo o tempo. [...] The American President (1995) - 7Olhares
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