Sei que proponho um tema que poderia ser facilmente a base para uma tese de mestrado ou doutoramento, contudo esta questão é motivo de discussão desde os meus tempos académicos (que não foram assim à tanto tempo).
Fazendo uma pequena passagem pelas tipologias arquitectónicas de coberturas tradicionais portuguesas, rapidamente ganhamos noção da variedade de formas de resolver um dos principais problemas técnicos da arquitectura, garantir a impermeabilidade de uma cobertura. Podemos retirar outras ilações observando simplesmente estas imagens. Existe uma relação estreita entre a materialidade das coberturas, utilizando os mais diversos materiais e o modo eficiente como estas resolvem não só, o problema da impermeabilidade mas também os altos comportamentos a nível térmico/acústico, economia, durabilidade, versatilidade na manutenção etc.
A relação intrínseca com a envolvente e o que esta tem para oferecer, entra em conflito com os novos conceitos que influenciam os modos de actuação (na sua generalidade), as comunicações generalizadas, o efeito globalização, preocupações sobre a reciclagem, a sustentabilidade etc. As crescentes necessidades fazem-nos esquecer um passado recente que é constantemente adulterado e mesmo destruído em prólogo de uma actualidade cenográfica.
Tal como na arquitectura popular portuguesa, o modo de resolver as coberturas assume variadas formas. Na arquitectura contemporânea essas formas tornam-se ainda mais evidentes e extravagantes. Tal como qualquer outro material, a telha tem os seus limites e comportamentos não aceitáveis, não podendo comparar ambientes mediterrânicos com situações nórdicas ou outras. É neste sentido que o recurso a materiais recentes que garantem maior longevidade, atitude térmica e possibilidades de aplicação em quase qualquer ponto do planeta, colocam os sistemas vernáculos à margem.
Quer dizer, nem todos. Ora vejamos:
- Uma das obras mais reconhecidas do Fernando Távora recorre ao uso da telha lusa (mistela entre marselha e canudo) sem que esta descaracterize a essência motriz do conjunto caracterizada pela dicotomia entre a vanguarda modernista e a tradicionalidade revelada pelo inquérito à arquitectura popular portuguesa.
- O mais conceituado arquitecto português da actualidade, Siza Vieira, numa das suas primeiras obras, utiliza também a telha lusa como revestimento da cobertura sem qualquer pudor.
- O Adalberto Dias, não nos fez a desfeita e também no meio do seu espólio, recorre à mal afamada telha, numa obra no Porto.
- O vencedor do prémio secil, Pedro Borges, na Casa Unifamiliar João Pacheco de Melo em S. Miguel nos Açores, utiliza cobertura plana em paralelo com a cobertura inclinada em telha.
Acreditamos que o recorrer à telha cerâmica é tão válido como recorrer a qualquer outro material. Tenha ela origens mais ou menos credíveis, interpretações e reinterpretações que nos levam ao descrédito desta (o pato usa e abusa), que se veja na revista Casa Cláudia todas as semanas nas chamadas “casas rústicas” ou seja, pelo facto de a telha ter vindo a alimentar os delírios formais da rusticidade generalizada do nosso edificado, não implica que seja usada, de modo erudito, por aqueles que procuram algo mais que um revivalismo doentio.