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Arquitectura.pt


4 paes e a proposta indecente.


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Do meu diário há cerca de um ano atrás: Sou recém licenciado. Estagiei durante um ano num dos melhores ateliers, se não mesmo o melhor da cidade onde moro. Infelizmente, não fui convidado a ficar. Infelizmente não tinha percebido o quão importante isso poderia ser. Infelizmente não me tinha rendido até então, à evidência que no fim de contas, no início de carreira pouco mais poderia aspirar do que ser macaco de CAD; um desenhador que pouco questiona e apenas produz desenhos que hoje facilmente são produzidos mais depressa por softwares paramétricos. Quando terminei o estágio, tinha uma carteira de 4 potenciais clientes. Estava francamente animado. Comecei rapidamente a trabalhar em dois projectos, um para um familiar e outro para um amigo de um familiar. Sim, é preciso ter muitos amigos para começar nesta profissão. E claro em high places, melhor ainda. Simultaneamente fiz o primeiro ataque de envio de cartas, currículos, link para webfolio. O projecto para os familiares, está até hoje em banho Maria. Talvez um dia saia do papel para a realidade palpável. O segundo projecto era uma pequena moradia unifamilar. Foi sendo desenvolvido calmamente, como todos os projectos deveriam ser desenvolvidos, pois o cliente não tinha grande pressa. Há demasiado dinheiro a ser gasto em edifícios, cujos projectos são desenvolvidos em poucas semanas… Por fim, o projecto estava preparado para dar entrada na câmara local e aguardava apenas o termo de membro efectivo da Ordem. Quando finalmente contacto o cliente, já com o referido documento em posse, percebo que me está a tentar evitar, adiando sucessivamente reuniões. Por fim, foi aquele que seria o construtor dessa obra que me diz que o cliente havia vendido o terreno. Obviamente que os papeis, os “rabiscos” que um arquitecto qualquer lhe havia feito, não lhe interessavam mais. Segundo ataque de cartas, cartas, currículos, link para webfolio. Consegui uma entrevista. Um arquitecto havia gostado do meu webfolio e propôs-me que lhe desenvolvesse um site. Pouco tempo depois, contactou-me novamente. Estava interessado em contratar-me. Salário base para tempo completo, pelo menos nos primeiros 6 meses seria de 400 euros mensais. Fiquei chocado com a proposta. Acreditando, tal como ainda acredito que se pode aprender muito num atelier, mesmo que sejamos na maioria do tempo apenas macacos de CAD, aceitei. Durante o tempo que estive nesse segundo atelier um amigo dos meus pais, pediu-me um projecto de alteração para uma moradia unifamiliar. Fiquei particularmente feliz pois sabia que quem havia projectado a casa na década de 40, tinha sido o meu avó paterno. Comecei a pedir alguns dias em part-time para dedicar-me a esse projecto. Parece-me que isso não foi visto com bons olhos. Somando a isso, o meu temperamento um pouco complicado e uma ausência grave de humildade para quem está apenas a começar na profissão, fui despedido. Aparentemente não interessava à empresa. A empresa pode sempre dispensar um qualquer que trabalha por 400 euros e poucos dias depois tem outros quaisquer na fila para entrevistar, até com mais experiência que eu… Contudo, antes de sair definitivamente do atelier, o arquitecto sénior fez-me aquilo que ele mesmo chamou de “proposta indecente”; propôs-me utilizar o espaço do atelier, os meios, os computadores, os livros para trabalhar nos meus projectos. Sim, era uma proposta estranha. Contudo e estranhamente também me fez pensar que afinal o meu desempenho não teria sido assim tão fraco. Eu respondi que essa “proposta indecente” não necessitava de aceitar pois tinha espaço e meios para trabalhar e que já me havia bastado aceitar a “proposta indecente” de ganhar um salário tão baixo. O projecto de alteração está em apreciação camarária. O trabalho não abunda. Para já não cumpri o terceiro ataque de procura de emprego. Estará para breve. Há dias em que penso que errei, que devia ter sido mais paciente, mais forte no meu posto de macaco de CAD. Devia ter apreciado mais as poucas oportunidades que temos de pensar, de questionar. Não houve muito tempo para isso nas experiências que tive. Há dias em que me sinto um pouco perdido. Há muitos dias que tenho tempo livre suficiente para ir tomar café com amigos… Posso ir tomar café com o Pedro, um colega que estava a estagiar no mesmo atelier que eu estagiei. Ele não é arquitecto, tem um curso de CAD e o pai é um pequeno empreiteiro local. É sempre uma boa oportunidade para ouvir qualquer coisa do género: “pois, se ao menos assinasses projectos, podias estar a encaixar algum…”. Eu prefiro que outros o façam. Senhora Helena Roseta, mesmo que a lei seja implementada….isto não terá fim… Há dias em que se desanima. Em que se tentam racionalizar as potenciais desculpas para desistir deste caminho. Há dias em que penso: “ainda bem que não construo; ainda bem que não contribuo mais para o caos que é o ordenamento deste país; ainda bem que não vou provocar mais um estrago ambiental qualquer porque o cliente acha piada a uma madeira exótica cujo nome ninguém sabe soletrar, proveniente de um país esquecido”. Há dias em que recordo das palavras da arquitecta Lívia Tirone, que me fez uma das primeiras entrevistas: “nunca desista!”. Não creio que tivesse naquela altura percebido a razão de ser de tais palavras. Há dias em que sinto a paixão a desaparecer, em que ela não parece ter espaço. Espaço…. Espaço… E todos os dias levanto-me teimosamente cedo para ir trabalhar, mesmo que saiba sempre que tenho apenas em mãos um projecto e que sobrevivo em grande parte devido aos meus pais. Saio de casa e desloco-me até ao apartamento que será a minha futura casa e onde tenho o meu escritório, antigo local de estudo, os livros, o computador. No caminho e ao contrário do que é habitual, paro numa pastelaria. Sei que não tenho ovos no apartamento para fazer a habitual omelete de claras, por isso decido comprar 4 pães para juntar ao queijo que ainda sobra: duas baguetes pequenas e dois bicos de pato. Total: um euro e vinte cêntimos. Da última vez que estive a trabalhar num atelier, estava a ganhar sensivelmente dois euros e 50 cêntimos à hora. E não foi há dez anos atrás. De repente percebo que com aquele dinheiro poderia comprar cerca de 8 pães. Há dias em que penso que qualquer coisa é melhor do que estar quase oito horas por dia em frente a um computador a ganhar por hora aquilo que não chega para um Mcmenu. Espera-se que no meio disto tudo a verdade não se perca e a beleza seja algum dia atingida.

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As palavras serão sempre poucas para demonstrar o quão profundo é este teu tópico. Certamente que não precisas de palavras de apoio, porque essas já as tens em ti mesmo, certamente que nada que te digam vai alterar a tua angústia, porque mais baixo será pouco provável descer... Vejo pelo teu diário que é difícil... certamente que o é, mesmo sem nunca ter passado por algo semelhante, com as tuas linhas percebo o que queres dizer... Talvez hoje compreendas o porquê daquele "não desista", ou talvez apenas o compreendas no dia em que conseguires levar a melhor sobre as dificuldades da vida. Aquilo que precisas é de trabalho, porque para empregos está difícil... se for particular, tanto melhor.... Boa Sorte Alphaone, simplesmente boa sorte...

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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bem Alphaone, que mais te posso dizer depois de ler as tuas palavras! realmente é difícil ter motivação para fazer aquilo que sempre sonhamos... de facto não esta fácil para quem agora começa uma carreira profissional! confesso que neste momento arrisquei não trabalhar com ninguém, tenho alguns trabalhos e é com eles que vou sobrevivendo. se resultar assim continuarei, senão, terei que me render ás evidências e trabalhar por conta de outrem! enfim... um abraço e boa sorte

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Pelo menos fizeste aqueles 2 projectos nas calmas... nao sejas tao pessimista ... ha quem nao tenha feito nenhum e ... por causa disso tem duas profissoes...:*... a de arquitecto conta-d'outrem e de professor. Quem me dera a mim fazer dois projectos nas calmas, ter essa carteira de clientes que tanto falas... esses pequenos problemas que tiveste sao as primeiras derrotas... de muitas derrotas que vais ter na tua vida profissional. O tempo que eu tive a ouvir os meus professores de projecto a falar dos desaires profissionais, daquilo que vejo nos meus tres anos de experiencia revelam que esses problemas sao muito comuns na nossa profissao. Eh a vida que nos escolhemos. Ficaste chocado com a proposta do teu patrao de ele convidar a trabalhares e usar as infraestruturas para os teus trabalhos... pois eu nao fico... penso que fiques desconfiado das intencoes dele ... mas chocado nao fico. Nao fico porque o meu primeiro estagio foi num atelier que nao era do arquitecto que me deu o estagio. O atelier e toda a infraestrutura era do antigo patrao desse arquitecto que deu abrigo. E podes ter a certeza que o arquitecto (que me deu o estagio) aproveitou muito bem a estadia ;). Usou a electricidade, usou a linha da PT, usou os excelentes manuais de construcao, usou toda coleccao de catalogos que la existia... Portanto quando dizes que recusaste porque achaste estranho e porque ja tinha espaco... eu compreendo o teu ponto de vista... No atelier onde estou soube que jah houve arquitectos que fizeram o mesmo com outros arquitectos... mas nao houve casos de roubo... nem coisas semelhantes.

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Olá. Eu queria acrescentar que coloquei esta mensagem aqui, não na expectativa de receber palavras de encorajamento, embora as agradeça, mas sim como um simples relato pessoal que decidi partilhar pq acredito que muitos se irão, de algum modo, identificar com ele. Se colocarem de lado a escrita um tanto pessimista e vermos simplesmente os factos... eles são reais (ano 2006) e isso é que gostaria que passasse, pois acho que é quase inacreditável. O que fazer? continuar... n tenho dúvidas. Obrigado.

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Simplesmente dou-te os parabéns! 1º Porque acreditas naquilo que fazes e porque o fazes com gosto e prazer! 2º Porque apesar de saberes ter mais capacidade, preferes ganhar pouco no inicio para mais tarde ganhar muito. 3º Não tens medo de arriscar. Deveras eu percebo claramente o que isso é, de certa forma. O meu projecto Joker Art Gallery, que trabalho nele a 3 anos, ate hoje não me deu nem 1 cêntimo... antes pelo o contrario já me tirou quase 400€... Mas quando se faz com gosto, o que isso importa? Simplesmente se pensa que amanha poder surgir alguma proposta que ira compensar, não o dinheiro perdido, mas o tempo dispensado (com gosto) num projecto. Porque como costumo dizer: "Só se perde quando não se tenta ganhar!" Para mim, vale mais arriscar e não conseguir, do que não arriscar e ficar o resto da vida com a duvida se iria conseguir ou não. Nesta área, no inicio todos nos fecham as portas, ate haver um "parvo" que nos abre a porta... e a partir dai é difícil ver uma porta fechada... Quando se esta no inicio da vida profissional, não se pode pensar que por não se conseguir o que se quer a vida "vai acabar"... Se olharemos para os nossos pais, e veremos o historial profissional, veremos que só conseguíram alguma estabilidade a uns 10/15 anos atrás... para nos não será muito diferente... por isso é olhar para a frente... O único conselho que dou... é para não se matarem a trabalhar... para terem sempre uma "vida social". E para ter uma "vida social", não se precisa gastar dinheiro (ou muito dinheiro)... não se precisa ir para o bar... para a discoteca... ou ate mesmo para o cinema. As vezes basta umas horas bem passadas, na casa uns dos outros, a conviver! O que interessa ganhar muito, se depois não se vive a vida!?!? Falo isto, porque já tive uma fase da minha vida em que a "vida social" era mínima... e hoje percebo que faz falta... Não estou a disser para se trabalhar só o suficiente para gastar durante o fim-de-semana, mas estou a disser para se trabalhar de forma a se poder passar o fim-de-semana "num churrasco com os amigos"...

Josué Jacinto - Mais Fácil
My web: maisfacil.com | soimprimir.com | guialojasonline.maisfacil.com

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Embora o caminho seja dificil, como já disse alguem: só se faz caminhando. Isto é bem verdade, é preciso acreditar, ser preserverante, trabalhador, humilde e com estes ingredientes vais ver que é apenas uma questão de tempo para o sol te ir sorrindo. Também é preciso ter consciência que é preciso semear muito primeiro. Força nisso.

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  • 3 weeks later...

Não sei se isto é algum consolo, mas podes ter a certeza que o arquitecto é uma raça que históricamente sempre explorou o colega de profissão. Conheci um arquitecto que trabalhou com o Teotónio Pereira a fazer perspectivas à mão (era praticamente só o que fazia), e a ganhar menos do salário mínimo pra época, durante vários anos... O homem não tinha escrupulos! O Taveira, nem é preciso dizer o que faz às alunas, já todos sabemos. E logo ele, que teve a sorte imensa do patrão dele fugir aquando do 25 de Abril, e de ter ficado com os clientes todos desse arquitecto... Nada mau para começar a vida. O Siza, nos primeiros 20 anos de trabalho, nem para comprar um carro de jeito. Agora é só facturar. Em algumas profissões, como carpinteiro, pedreiro, alfaiate, era natural o aprendiz além de trabalhar de graça por um período inicial, ainda pagava para ter aquela formação, que depois ia lhe valer o ganho da vida toda! Os patrões permanecem com essa desculpa de quye estão a dar formação... O TANAS! Estão masé a aprender conosco! Raios os partam!

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Há muitas formas de ganhar dinheiro (já tendo algum dinheiro inicialmente, claro). Conheço uma arquitecta que vive do seguinte: compra um terreno. Edifica uma casa para ela própria, sem clientes, sem blá blás, trabalha à vontade para si própria, arranja assinaturas, empreiteiros baratos. Depois vende, e geralmente vende bem, porque as casas tem qualidade e porque encontra clientes que estão fartos desse pseudominimalismo todo igual, ou blocos horrorosos, ou casotas de emigrantes, e ali já tem uma coisa existente, diferente, com qualidade, único e garantido, sem chatisses de obras. Ao longo da vida toda (tá com 40s e tais) já fez umas 4 ou 5 cinco casotas apenas, e um prédio, mas fê-las com prazer e sem ter de aturar exploração e a falta de educação dos otários dos patrões! Não é rica, mas casou bem, e parece feliz. Bom pra ela.

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Lembro-me o que uma professora, arquitecta, no 12º ano, disse-me... Que os prof. que dão aulas de arquitectura, normalmente nunca dão grandes notas aos melhores trabalhos e muitas das vezes começam a por defeitos... mas la no fundo sabem que aquilo esta muito bom... e talvez melhor do que eles fazem. Porque aguem assim? Porque esta a "nascer" um colega que por sua vez lhe vai tirar trabalho se for melhor... Mas isto acaba por ser logico em todas as profissoes... hoje em dia nunca se sabe quem se esta a ensinar... Não concordo, mas compreendo...

Josué Jacinto - Mais Fácil
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Se alguem o faz e tem sucesso entao... faco o mesmo... mas tem riscos. Eh um investimento tramado, comprar um terreno, pedir licenca, pedir isto e aquilo... e depois ter que vender... e como eh vai vender... serah que tem sucesso, serah que nao... A minha primeira patroa deve estar a seguir esse plano... era uma mulher muito empreendedora... O que eu estava a pensar fazer era ganhar uma pipa de massa num bom emprego e depois desenhava e construia as minhas proprias moradias ah minha maneira.

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Mas isto acaba por ser logico em todas as profissoes... hoje em dia nunca se sabe quem se esta a ensinar...


No trabalho da maquete da escola que dei aos alunos uma coisa eu consegui... traumatizei os miudos de tal maneira que nenhum deles irah seguir Arquitectura... eh eh eh eh !!! :*
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Porque será que não se forma um sindicato de arquitectos? Não há ai funcionários suficientes? Serão muito desorganizados e altamente competitivos? Será que se iludem pensando que são representados pela Ordem? Será que somos todos completamente apolíticos hoje em dia? Ou pior, ignorantes politicamente? Ou será que bem no fundo ambicionam e contam com tornarem-se arquitectos empresários, e pensam: "tanto trabalho para criar um sindicato quando o que me convém é que não haja..."? São tantas as barreiras que imagino que nunca haverá sindicato coisa nenhuma, e continuaremos não representados pela Ordem, como sempre foi. Atenção, não tiro crédito àquela elite bem intensionada - foram, que eu saiba, a única organização não partidária, não filiada num partido político, que alguma vez pediu uma alteração a uma lei em Portugal Democrático. Sem sucesso.

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JVS, isso é que é bem feito... :* claro que estou a brincar, mas ainda há por aí muitos jovens que pensam que arquitectura é um mar de rosas...


Isso é verdade...
Mas não é só em arquitectura... em todos os ramos da arte...


Sputnik... para que existir um sindicato se a maioria dos arquitectos prefere trabalhar por conta própria? O sindicato acaba por não ser la muita boa ideia... lol
Portanto quem poderia fazer o sindicato... não o faz por não precisa... e também da jeito pois não ira ajudar os "rivais" colegas que poderia ate precisar... ;)

Josué Jacinto - Mais Fácil
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JAG e muitos deles pedem já os programas licenciados :*


Com Licenças do género Autocad, Viz sem ser piratas? Não me digas que a Asoft está em cima dos estagiários que levam os portáteis com licenças pirata? Mas quem se trama são os estagiários e não os patrões ou não é bem assim?
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