Ivo Sales Costa Posted December 8, 2006 Report Posted December 8, 2006 O texto está publicado no meu blog, mas deixo aqui para discussão:Sobre o elitismo. E as desgraças da nossa arquitectura… Leio post recente em A Barriga de Um Arquitecto, que constitui, como é do conhecimento geral, um dos mais completos lugares de opinião sobre arquitectura em Portugal. Opinião e não critica. E aí residem alguns dos nossos problemas. Não existe no nosso país um suporte franco à critica sobre a construção. Critica-se a pintura e a escultura a custo, critica-se a politica e a economia por gosto, mas muito raramente se criticam as opções meramente estéticas de um arquitecto, ou vá lá, de um engenheiro. Isto acontece porque o receio da marginalização antecede a posição do lápis ou do teclado em relação ao objecto da nossa critica. Há uma componente politico-financeira demasiado forte a impulsionar o ritmo da nossa construção para que alguém se dê ao luxo de opinar desfavoravelmente sobre quem quer que seja. No limite, criou-se o termo “Taveirada” e mesmo a sua aplicação constitui um raro luxo a que o escritor se pode dispor ao uso. O porquê desta subversão de conteúdos reside, de forma muito fácil de entender, na saturação do mercado de trabalho dos arquitectos, e, em suma, no facto de dependermos todos uns dos outros no que à herança de trabalho diz respeito. Em Portugal, e pela Europa, o Arquitecto é aquele que se distingue dos demais num concurso, é aquele que adquire estatuto ou posição através da subida a pulso na carreira. Mas também é aquele que trabalha para os outros, para os que, algures no tempo, conquistaram (com ou sem mérito) o respectivo lugar ao sol, e nesta relação de proximidade tem de haver muito cuidado no que ao mediar de relações diz respeito. Não estou a divulgar novidade nenhuma. Álvaro Siza dependeu em muito de Fernando Távora, Eduardo Souto Moura dependeu em parte de Álvaro Siza. Manuel Mateus não esconde que deve parte do seu portfolio a Gonçalo Byrne, tal como Inês Lobo ou Nadir Bonacorso rendem a respectiva homenagem a João Luis Carrilho da Graça. Fica-lhes bem, constitui prova cabal de que há no meio uma relação de grande consideração entre o mestre e o discípulo. Impecável. E é deste modo que a coisa se espalha. Existem os que, de frente para o leitor, optam pelo elogio e pela aclamação de tudo e mais alguma coisa que lhes seja pedido comentar. Não que o elogio venha a garantir uma parceria, uma co-autoria ou mesmo uma colaboração discreta. O caso é mais complexo. É que o elogio garante à partida uma vénia e um respeito documentado. Pelo menos ninguém irá pedir explicações ao aclamador. Basta passar os olhos em diagonal para as publicações de arquitectura que passam discretas pelos escaparates das nossas livrarias. Não há, nem por uma vez, uma contrariedade, uma questão. A prosa é fluída, por vezes acompanhada de poesia bonita e muito bem articulada. Bem exprimido não oferece nada de novo, são textos que se fazem e refazem sem oferecer novidade ao debate. Textos penosamente aditivos que não contribuem de modo algum para que se questione afinal o que é que se anda a fazer com o dinheiro do contribuinte, e porque não, o que anda o contribuinte a fazer com o seu próprio dinheiro. Recordo o projecto miserável de Alexandre Alves Costa para o elevador do Rossio. Um modernismo chato e recto em escala exagerada que pisava uma praça da cidade que é diariamente utilizada por milhares de pessoas. Recordo que a critica incidia apenas e só na presença e nunca na estética do objecto. Que era feio pura e simplesmente. Recordo a oportuna critica do então director da ARQ./A, o arquitecto Victor Neves, defendendo o desenho. Pior, recordo que defendia acima de tudo o autor, com um espantoso autismo na coerência da opinião. Um sufoco gritante para conseguir a todo o custo salvar o arquitecto, que naquelas palavras se tornava quase inquestionável. No final da mesma edição, mais do mesmo. Batista Bastos repetia a posição do editor. Convenientemente. Leio o texto de Daniel Carrapa a propósito de empreendimentos como a “Vila Utopia” ou o “Bom Sucesso” e reparo que o autor não só defende a iniciativa como resguarda a todo o custo as questões politicas e de marketing. Pior, financeiras também. Não consigo, de modo algum, defender proliferações de paisagem como os exemplos acima referidos. Não consigo nem por um momento entender as vantagens do cultivo populista da expressão “Arquitectura de Autor” e muito menos quando a coisa é utilizada com propósitos mediáticos. O exemplo da “Vila Utopia” constitui um verdadeiro objecto de estudo, pois não só contribui para o inicio destes veículos de show-off arquitectónico, como ainda transporta para dentro do vicio jovens arquitectos, que mais não são do que meros objectos de troca no que à violência do uso diz respeito. Na futura Vila Utopia, não serão os arquitectos as referências públicas da gestão do espaço. Serão os habitantes. Serão aqueles a quem a vida permite um investimento de novecentos mil euros num imóvel para habitação diária ou sazonal. O arquitecto nunca constitui o mote, e nunca constituirá o produto. O elitismo do espaço, no sentido lato do termo, esse sim constituirá aquilo que a Vila Utopia virá a ser: Capitalismo desgovernado. Como arquitecto recuso a colagem ao capital (de resto, à excepção dos senhores da banca, desconfio que nenhum profissional esteja hoje minimamente interessado em ver o seu oficio tão disparatadamente capitalizado), e recuso porque conheço o meio. Conheço as dificuldades na luta por um lugar ao sol e vou aguardar atentamente pelo debate público, onde as pessoas possam intervir, onde alguém prefira um Fiat a um Mustang apenas pela livre opção. E o problema é esse, é assistir ao avançar progressivo das manias de autor. Dos “convites” para trabalhar. E no fim a dúvida, será que abrindo um concurso público devidamente limpo de todos os vicios, todos os aclamados mestres teriam direito ao seu pelintro de exposição? E aí sim, pagava para ver. Quote
Bruno_Rosa Posted December 9, 2006 Report Posted December 9, 2006 Aos que não se ofereçam ás tuas repetidérrimas prosas (acompanhadas hoje de 'h's no remate aberto das vogais... Eu nao me ofereço :nervos: Em relação ao texto eh giruh e Sinceramente, a arquitectura vista pelos outros é o resultado de um filtro desfocado criado por uma elite. E os outros são todos. :p Quote
Dreamer Posted December 9, 2006 Report Posted December 9, 2006 Só o destaque para um pormenor off topic... quando dizes "No Aspirina Light", eu não consigo ler em português, porque o "light" leva instintivamente para o inglês... e a tradução não sôa lá muito bem: - "não aspirina light"... - "aspirina light não"... ...e bem se vê que o sentido da expressão original não será esse... Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
Ivo Sales Costa Posted December 9, 2006 Author Report Posted December 9, 2006 Estou a ver é que usas um browser muito á frente!!! :icon14: Fica anotado sim senhor Quote
Bruno_Rosa Posted December 9, 2006 Report Posted December 9, 2006 No Aspiral Light , No NO NOOO, :nervos::help: Quote
Recommended Posts
Join the conversation
You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.