Memória Descritiva Entende-se, numa procura da recuperação da cultura construtiva e tipológica, a forma de leitura dos tempos e urgências da re-humanização qualificada dos edifícios moribundos e de conforto precário. Na tipologia construtiva do edifício em estudo, encontra-se a verdade duradoura da estrutura em pedra. Elemento basilar no método construtivo regional, esta, de todos os materiais é sem dúvida a que demonstra com mais alma a força da construção antiga e que reforça a notória possibilidade de re-qualificação de grande parte do património construído. Assim, num entendimento supra construtivo, a habitação permanece sólida por gerações de utilizadores, denota algumas adaptações da sua forma ao passar dos hábitos, renova-se a cada função que os novos proprietários lhe exigem. Depois de confrontado com a solidez, quer imagética, quer estrutural, questiono quais as adaptações actuais a programar no espaço existente. São agora os bisnetos da geração do dono original que vão ocupar o seu quarto, do qual resta uma vaga ideia de que em tempos tudo era reduzido e que os graus de conforto se limitavam ao menos que necessário... Tudo está velho ou muito velho e quanto à orgânica funcional, tudo mudou ou... está prestes a mudar. Na depuração do actual organigrama, conclui-se que a articulação espacial mínima vai ser o ponto fundamental da gestão programática e, quanto ao novo programa, resultado de uma completa reestruturação dos padrões de conforto quotidiano, pensa-se, tal como sugestão do cliente, na ampliação. O lote é restrito; fronteiro à actual entrada existe um pequeno pátio, desajeitado e descaracterizado, ponto espacial fundamental no crescimento da actualização programática e formal do edifício. Na caracterização e leitura do existente, tendo em vista a limpeza de elementos agressores à estrutura primitiva do edifício, foram encontrados elementos a considerar quanto ao avançado grau de degradação e de qualidade arquitectónica, em função do sólido conjunto que se entende na aproximação ao local. Uma vez reconhecidos os descabidos anexos, com cuidado se manteve o que se notou fundamental, garantindo que a pré-existência se continua a reconhecer a si própria. Com devoto cuidado se subtraíram os excedentes, resultados da adaptação precoce. Posteriormente a esse período analítico e chegando a uma conclusão firme do que se entendeu como pré-existencia, traçou-se a linha mestra de intervenção. Tendo um conceito baseado no esforço da distinção temporal e linguistica, partiu-se para a solução de “ruptura” entre os dois tempos que se vão encontrar neste edifício. Na pré-existencia recuperam-se os dados válidos, na ampliação procura-se um consenso formal, tentando autonomizar pela comtemporaneidade o novo corpo. Nunca se tocam, comunicam pelo afastamento e trocam entre si todas as diferenças que os tornam comuns, os trajectos complementares entre funções. Em muito, as vontades de quem vai habitar o edifício geriram o seu funcionamento. A memória e desejos destes formaram, juntamente com a arquitectura, o imaginário possível dentro de tão exíguo espaço; sendo um dos requisitos basilares a imagem contemporânea. Tentando garantir um respeito mútuo entre os dois volumes, tornam-se contemporâneos no seu tempo. A casa em pedra recupera a sua cobertura original e o pavimento do piso inferior garante o conforto para a nova função, visto nas origens ser um estábulo; o novo volume, destaca-se autonomizando a sua estrutura, mais valia construtiva, visto ser o reforço necessário à estabilização conceptual. Tudo se forma em torno disto e assim, no antigo, vive-se o tempo na forma como ele se encontra; no novo, nasceu o conforto inexistente e a forma actualizada. Sentindo que, de alguma forma, se contribui para a salutar evolução do espaço privado e urbano, uma vez que somente a vontade própria poderá criar um esforço conjunto na recuperação, actualização e desenvolvimento de soluções construtivas e formais. O património não está moribundo mas sim expectante. Resultado da sedimentação conceptual surge planeado o organigrama funcional. Assumindo-se dois momentos distintos e autónomos, especificou-se uma estrutura de usos contemplativa das exigências do cliente. No corpo que cresceu sobre o pátio, e no mesmo alinhamento da anterior entrada, temos o acesso principal. A primeira distinção é a cota de chegada. Os pisos do novo volume funcionam a meia cota dos existentes, garantindo não só a ruptura pretendida, como também um decréscimo na cércea do proposto, ao mesmo tempo facilita a relação com o piso térreo da antiga cave. Neste sentido, estamos á cota do primeiro quarto, que possui instalações sanitárias, e da zona de distribuição funcional. Deste patamar, acedemos, no sentido descendente, à sala de cariz social e no mesmo seguimento ao último patamar, cave, zona recôndita para arrumos. Partindo do patamar inicial, mas no sentido ascendente, dirigimo-nos directamente para a sala de refeições e cozinha. No patamar seguinte, encontra-se o quarto principal equipado com instalações sanitárias. Cria-se neste organigrama uma distinção funcional entre os dois tempos de construção, no corpo antigo as zonas de uso social e de exposição pública e no novo corpo todas as zonas de carácter íntimo e circulações. Novamente, no reforço da consolidação do princípio do projecto, a construção assume também um papel de coerência. Na pré-existência, é mantida a estrutura primitiva em pedra de granito, sendo corrigido o conjunto em função da depuração qualitativa pretendida. O seu interior, em avançado estado de degradação é demolido e reformulado em função do novo programa, existindo uma actualização construtiva, na tentativa do melhoramento da qualidade de vida.