m a r g a r i d a Posted April 28, 2008 Report Posted April 28, 2008 "Quando elaboro um projecto pretendo corrigir a natureza"É visto e apreciado em vários países e as melhores revistas internacionais de arquitectura falam da sua obra. O estádio do Braga, a Casa/Fundação Paula Rego, as estações do Metro no Porto e muitos outros trabalhos atestam o rigor, o talento e a capacidade criativa envolvidos em cada projecto que cria. Nascido no Porto, Eduardo Souto Moura é considerado um dos maiores arquitectos portugueses.Aceitou o convite para realizar uma exposição da sua obra, na Galeria JN, no Porto, que inaugura hoje e que, a partir de amanhã, está disponível ao público. Mas, logo que aceitou, colocou-se-lhe imediatamente a questão da dificuldade em mostrar projectos de arquitectura, que considera autênticos códigos técnicos para materializar uma ideia. Por isso, resolveu repartir o espaço com o fotógrafo Luís Ferreira Alves, que o acompanha há mais de 30 anos e, cada um a seu modo (esquissos e fotografia), mostram ângulos distintos sobre a materialização de alguns projectos com a assinatura de Souto Moura. Em entrevista ao JN, revelou o processo habitual de nascimento e de vida dos seus projectos, do que mais gostou de executar, do que mais lhe interessa na sua obra e ainda confessou que quase todos os dias acorda com a ideia de abandonar a arquitectura para poder dedicar-se, por exemplo, à fotografia ou à pintura. Mas, apesar da tentação diária, vai resistindo... JN|Em que consiste "Princípio e fim de um projecto", ideia a quatro mãos, as suas e as de Luís Ferreira Alves?Eduardo Souto Moura| Quando me convidaram para realizar a exposição, saltou-me logo a ideia de como trazer a público um código técnico como a arquitectura. Havia duas soluções, ou maquetas ou fotografias. Ora, tendo em conta o espaço, entendi que seria melhor apresentar a obra com esquissos meus e imagens da autoria de um homem que fotografa os meus trabalhos há três décadas. Escolhi, por entre as centenas de projectos ao longo da carreira, alguns, nomeadamente o edifício do Burgo, e ainda desenhos de objectos e de candeeiros, entre outros. O Ferreira Alves escolheu os que muito bem entendeu e foi assim. Concretizou-se a exposição na vertente de dar duas visões sobre a obra: a do arquitecto e a do fotógrafo.Esta mostra contribui para uma melhor perspectiva sobre o trabalho que tem desenvolvido?Vamos tentar, mas acho que é importante que as pessoas saibam da existência de um percurso-base de desenhos para se chegar à imagem final, seja de um projecto de um edifício ou de um simples objecto. Daí chamar-se "Princípio e fim de um projecto".Antes da concretização dos projectos, há toda uma série de esquissos?Depende, há obras em que há uma intuição e acertamos no conceito e não são necessários tantos desenhos, mas também há outros que emperram e estamos até ao fim a confirmar e, aí sim, são precisos cadernos e cadernos de desenhos. Como é que, normalmente, nasce um projecto seu?Os primeiros passos têm como base a informação que o cliente dá e, a partir daí, começo a construir uma imagem mental. Quando o cliente sai, começo a materializar num esquisso, faço dois, três e tanto pode ser no escritório, em casa, num café, no papel do estirador, num guardanapo ou no maço de cigarros, não importa. Como passa à fase seguinte?Bem, vou fazendo vários esquissos e, já no ateliê, passo-os a um desenho mais geométrico e a seguir é elaborada uma maqueta. Mas, repare, tudo isto é feito com uma grande rapidez e velocidade.Gosta de trabalhar a grande velocidade, está-lhe no sangue?Está, pois, como tenho sempre tanta coisa para fazer, não descanso enquanto não fizer. É assim que trabalho. Mas, depois de ter a ideia já concebida, costumo demorar muito tempo, ponho sempre o projecto em forno lento e banho maria, à espera que entrem as várias solicitações de arquitectura.E quais são as várias solicitações de arquitectura? Aliás, gostaria que definisse o que é, para si, um projecto de arquitectura.São solicitações que entendo importantes. Em primeiro lugar, são as minhas, ou seja, só está concluído quando me sentir satisfeito com o projecto, quando achar que a construção do edifício ou do objecto vai transformar um sítio para melhor. Quando decido elaborar um projecto, pretendo corrigir a natureza, que não é perfeita. Acho que o interessante é acrescentar algo à natureza e proporcionar bem-estar e boa qualidade de vida ao cliente e ao utente. Para conseguir, tenho que criar um projecto que corresponda a três solicitações fundamentais: ser belo, estável e seguro.Belo? Acha importante que a beleza seja uma componente principal num trabalho? Sim, acho, pois é fundamental que um projecto seja elegante a nível estético. Quando digo belo, digo elegante, naturalmente.Quando é que dá por si a pensar que o projecto está mesmo concluído?Quando começo a ficar cada vez mais satisfeito com o trabalho e, aí, penso realmente que está na hora de rematar.Costuma trabalhar sozinho ou em equipa? Tenho uma equipa de 27 pessoas (arquitectos e estagiários). Acho que o diálogo é importante para o bom andamento de um projecto e são necessárias críticas e contrariedades da equipa. Um projecto de arquitectura é um projecto de equipa, de muitos colaboradores, de muitos arquitectos, engenheiros e agora, nos últimos tempos, também é necessário incluir um economista e um advogado.Quais são os projectos que tem actualmente em execução?Tantos, sei lá, mas lembro-me, por exemplo, de uma adega de vinhos na Mealhada, um prédio para divorciados, no Porto, a recuperação de um edifício no Príncipe Real, em Lisboa, e tenho vários em curso em Espanha, Bélgica e Dinamarca.Como é, normalmente, o seu dia de trabalho?Em princípio, só trabalho, só me sento ao estirador, ao fim-de-semana, isto é, só risco ao sábado à tarde e ao domingo. Não está ninguém no ateliê, o ambiente é calmo, sossegado. E nos outros dias da semana?Trabalho, mas ocupo o tempo a desempenhar um papel que também é muito importante para o arquitecto. Vai desde visitar obras a sucessivas reuniões aqui e ali com clientes ou futuros clientes, enfim, é a outra faceta de arquitecto, que é fundamental para a continuação da actividade.Já alguma vez pensou em abandonar a arquitectura?Todos os dias.Todos os dias?Sim, diariamente tenho aquele pensamento: e se eu não fosse e ficasse a desenhar o dia todo? E quando chego a Lisboa e tenho que ir para Nápoles e passa-me pela cabeça a ideia de não ir e ficar a tirar fotografias... Já alguma vez não resistiu à tentação?Já, claro e foi bom. Já tive essa tentação e já tive o prazer de não cumprir o dever e de ficar a fazer o que me apetecia naquele momento.Se abandonasse a arquitectura, o que escolheria?Olhe, gostaria de ter uma profissão em que o que acontece dependesse exclusivamente de mim, só de mim. Podia ser, por exemplo, na área da fotografia, da pintura ou da escultura.Já fez incursões nessas áreas?No desenho, sim. Aliás, o desenho é fundamental para a minha actividade, mas tenho-me ficado pelos esquissos de arquitectura. Tenho pensado muito na escultura, acho que gostava de conceber uma série de esculturas com cortes de edifícios e em materiais utilizados na construção, como a madeira, ferro, tijolo, plástico e vidro. É uma ideia de há já uns tempos, mas que não tenho conseguido realizar, nunca tenho tempo, mas que gostava, gostava... "Qual o projecto cuja concepção e desenvolvimento foram da sua responsabilidade mais o encantou?O que me encanta, o que me suscita um maior desafio é o chamado projecto completo, ou seja, aquele em que sou solicitado para conceber a obra, desde o puxador da porta até ao bosque que envolve o projecto.E já teve alguns com essa responsabilidade?Tive vários, mas destaco, sem dúvida, o estádio do Braga. Acho que o Monte Castro ficou muito melhor com o estádio do que ficaria sem ele. E confesso que gostei bastante de o ter concebido.Sabe-se que está com vários projectos em mão. Algum deles é no Porto e é importante?O que neste momento estou a realizar no Porto é um edifício, a que chamo "andar para divorciados", ou seja, pessoas que vivem sós e que não necessitam de muito espaço. Mas, na verdade, acho que o Porto está numa fase de recessão, ou seja, não se investe na cidade e, portanto, não há muito trabalho para desenvolver.Mas vai tendo em outras cidades do país, ou a falta de trabalho é generalizada?A falta, para já, só se vai verificando no Porto, porque noutras regiões vai havendo. Neste momento, estou a trabalhar razoavelmente em Lisboa, no Alentejo e no Algarve.Como surgiu a hipótese de construir a casa/fundação Paula Rego, em Cascais? Foi a pintora que me escolheu. Neste projecto, tive também a responsabilidade de escolher o terreno e a liberdade total na concepção do edifício. É um projecto aliciante, que francamente me entusiasma. www.jn.sapo.pt Quote margarida duarte
-Q- Posted May 21, 2008 Report Posted May 21, 2008 a natureza n precisa de correcções, digo eu! acho q foi infeliz esta frase que está em risco de se tornar icónica! Quote
Dreamer Posted May 21, 2008 Report Posted May 21, 2008 Margarida, a entrevista está completa?... parece que acaba assim de um momento para o outro, sem a lógica do fim... Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
joaopedrosilva Posted May 22, 2008 Report Posted May 22, 2008 a natureza n precisa de correcções, digo eu! acho q foi infeliz esta frase que está em risco de se tornar icónica! Acho que não percebeste a frase. O Arquitecto deve corrigir a natureza de modo a adaptá-la ao Homem. Se a natureza não precisasse de correcções andavamos todos a dormir ao ar livre;) Quote
m a r g a r i d a Posted May 22, 2008 Author Report Posted May 22, 2008 yap..está completa :) Quote margarida duarte
-Q- Posted May 28, 2008 Report Posted May 28, 2008 exactamente o arquitecto adapta a natureza de modo a podermos usufruir de abrigo e conforto, mas falar em corrigir a natureza parece-me uma postura de sabe-tudo, pelo q conheço do arquitecto souto moura n m parece q essa seja o seu ponto de vista mas as palavras que ficaram n foram as mais felizes na minha opinião. Quote
the_architect Posted June 14, 2008 Report Posted June 14, 2008 o sr. souto moura apesar de belissimo arquitecto tem uns discursos muito engraçados como o prova esta pequena pérola que vi numa entrevista na tv sobre o estádio do braga: "A Escala tem que se estar lá." :) Quote
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