Dreamer Posted April 10, 2008 Report Posted April 10, 2008 Lanço este artigo como ponto de partida para uma discussão entre o tradicional e o moderno. É curiosa a forma como o ser humano diverge em assuntos em que a temática é a mesma, é curioso perceber como aquilo que hoje é valorizado como património a proteger, verdadeiros marcos das cidades, em tempos foi alvo de contestação feroz. Faz pensar em como irá ser encarado no futuro aquilo que hoje é alvo de polémica... Progredior JOSÉ MOTA Hélder Pacheco, Professo e escritor Esteve exposta no Palácio da Bolsa uma notável exposição intitulada "In vitro, o concurso de arquitectura nas cidades históricas". Não sei quantos a viram. No dia em que lá fui, andei sozinho. E, no entanto, o seu conteúdo e as perspectivas que pretendia transmitir eram essenciais para, ao menos, ser reflectidas, pensadas e assimiladas relativamente à cidade do Porto. Organizada no âmbito da V Semana de Arquitectura de Sevilha (2006) pelo Colégio Oficial de Arquitectos daquela cidade, visava promover um debate sobre "as formas de intervenção da arquitectura nas cidades históricas", referindo "o processo de implantação de novos elementos arquitectónicos em zonas históricas". Percorrendo--a, ficava claro, através de dezenas de exemplos de cidades que, há séculos, se debatem (como o Porto) entre conservação e intervenção, que é possível, coerente e óbvia a integração de novas formas arquitectónicas na urbe antiga. Entre nós - vândalos entre os vândalos - pese embora a destruição das cidades, o assunto é tabu. Arrasa-se a Sé, com a Avenida da Ponte, mas abomina-se a escultura do cubo da Ribeira. Deixa-se apodrecer a ponte Maria Pia, mas contesta-se a construção da de S. João, "por estar muito perto", assim diziam. Desmantela-se a unidade urbana da cidade com a VCI, mas rejeita-se a Casa da Música (as minhas objecções a ela foram sempre de prioridades sociais no burgo e nunca arquitectónicas). Esventra-se o Largo do Actor Dias e a Rua do Sol com um viaduto abominável e odeia-se a Casa da Câmara, do arquitecto Távora. Subverte-se a Cordoaria, a Batalha, a avenida, com toques "contemporâneos" e impede-se a construção (necessária e inadiável) da ponte pedonal entre as duas Ribeiras, "por estar muito perto da Ponte Luís I", etc., etc., etc. As contradições entre o mais cruel laxismo urbanístico e indiferença cívica e o extremado conservadorismo são incontáveis. Os tradicionalistas nunca entenderam a tradição, dizia certo autor, acrescentando que a tradição é fénix permanentemente renascida. Constantemente em devir. Aberta ao futuro. Por tudo isto, aquela exposição - injustamente esquecida - deveria ter sido vista e meditada por todos quantos se prezam de ser portuenses e amam a cidade de modo persistente e competente, aplicando aqui uma palavra politicamente incorrecta nos tempos do arrivismo que por aí campeia. De facto, não chegam votos pios, juras, declarações inflamadas para, efectivamente, servir o Porto, respeitar a sua integridade e promover o progresso a que tem direito. Neste país de pelintras arvorados em modernizadores, o Porto tem de afirmar-se - porque só ele, liberal, burguês, popular intransigentemente apegado às liberdades democráticas, insubmisso e trabalhador, pode fazê-lo - como a cidade da síntese entre tradição e modernidade, memória e inovação, orgulho de ser e capacidade de vir a ser. Uma cidade ciosa do seu passado que, enfrentando os desafios da contemporaneidade, ganhe a categoria do futuro. Apesar do conservadorismo dos tradicionalistas, da Oposição dos reaccionários e da sabotagem dos adaptados ao atraso, a cidade entrou no futuro com os Planos da Junta de Obras Públicas Almadiana (contra o ódio e as dezenas de processos judiciais dos que pretendiam travá-los), construiu a Alfândega Nova em cima da praia de Miragaia (contra muitos). E a estação de S. Bento (contra muitos). E o mercado de Ferreira Borges (contra muitos). E a primeira linha de eléctricos da Península (contra muitos, que até fizeram manifestações). E o hospital de Santo António (contra muitos). E a explanada de Sobreiras (contra muitos). E a Avenida das Nações Aliadas (contra uma hecatombe de protestos). E o mercado do Bolhão (que os críticos consideraram ter "sacrificado" o "conjunto harmónico, estético" do que lá havia). E o IPO/ Norte (contra Lisboa e quejandos). E a creche de S. Vicente de Paulo, a primeira no país (atacada como "ofensa à religião, à propriedade e à família"). E o mercado do Bom Sucesso ("esquipático alpendre, recurvo e abafado", escreveu-se). E o belo e útil viaduto do Cais das Pedras, duramente criticado (em contrapartida, o Museu de S. João Novo morre de desprezo sem protestos, a Casa das Artes eclipsou-se, idem, aspas). E o Palácio de Cristal, jóia da coroa do espírito portuense, levou pancada dos críticos (basta ler Camilo e, sobretudo, Ramalho, que o detestava). Saí da exposição da Bolsa com a sensação incómoda de que cidades muito menos relevantes do que o Porto tinham ousado a modernidade na tradição, a inovação na consagração da História. E este é o desafio ser convictamente moderno e não adorador de falsos ídolos, porque resolutamente apegado às raízes cívicas do nosso chão. Afinal, vendo bem, talvez não fosse hoje possível construir o Palácio de Cristal. Mas são esse arrojo, determinação, grandeza e expectativa de progredir (na sua fachada lia-se "Progredior") que fazem falta. Link:http://jn.sapo.pt/2008/04/10/porto/progredior.html Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
arklab Posted April 10, 2008 Report Posted April 10, 2008 Artigo muito interessante, é um bom tópico de conversa. Quote
Sputnik Posted April 11, 2008 Report Posted April 11, 2008 Isso faz-me lembrar a história do velho, o jovem e o burro. Se vai o velho no burro, falam mal porque não dá lugar ao jovem. Se vai o jovem no burro, falam mal porque não dá lugar ao velho cansado. Se vão os doi, coitado do burro. Se não vá nenhum, que burros! Quote
JAG Posted April 11, 2008 Report Posted April 11, 2008 E será que esta situação... será apenas no Porto? Certamente não... Quote Josué Jacinto - Mais FácilMy web: maisfacil.com | soimprimir.com | guialojasonline.maisfacil.com
arklab Posted April 11, 2008 Report Posted April 11, 2008 Eu não sou portuense, apesar de lá ter vivido uns bons anos! Mas isto de facto não acontece só no Porto! É um problema de mentalidades....e de tempo! ( o que hoje é feio e horrendo, amanhã é espectacular e imprescindível!) Só nos resta estar no sítio certo à hora certa..... Quote
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