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Juntos até que a noite os separe
28.04.2007

Vivem na mesma casa mas dormem em quartos separados. Assumem precisar de um certo espaço para respirar (e para dormir como deve ser). Ser casal assim "pode ir ganhando adeptos". No teu quarto ou no meu?
Bárbara Simões - Público.pt

Quando o filho de Ana Ferreira era pequeno e os amigos iam ter com ele lá a casa, havia sempre uma parte da visita que tinha tudo para os deixar baralhados. Com a maior das naturalidades, o rapaz mostrava o quarto onde dormia, depois o quarto do pai e a seguir o quarto da mãe.
Ana, 51 anos, ri-se imenso quando se lembra desse tempo. "Eu costumava dizer que só queria ser mosca para saber o que os pais dos outros miúdos diriam quando eles chegassem a casa e contassem isto."
Os anos passaram e muita coisa mudou neste apartamento de quatro assoalhadas dos arredores de Lisboa. Uma no entanto manteve-se: o casal continua a dormir em quartos separados. E a dar-se muito bem com isso. Estão juntos há 26 anos, ocupam dois quartos há 18. Ana resume: "Há muito esse mito de que numa relação tem de se partilhar tudo. Eu não sei se é necessária essa partilha total."

Nos Estados Unidos há cada vez mais pessoas a concordar que não será preciso tanto. Um estudo da associação americana de construtores, noticiado no mês passado pelo jornal The New York Times, avança com a previsão de que em 2015 mais de 60 por cento das moradias construídas irão de encontro a um pedido dos clientes que começa a ser frequente: um quarto (ou uma suite) para cada um dos elementos do casal. Já é assim, por exemplo, numa quarta parte das 270 habitações de um condomínio projectado para Seattle.
O texto apressa-se a esclarecer que esta opção não tem necessariamente a ver com sexo. Uma das entrevistadas diz até que assim é muito mais excitante, quando no universo da sedução doméstica há lugar para uma nova pergunta: "No teu quarto ou no meu?"

A escolha tem a ver, isso sim, com as pessoas acharem que já é tempo de deixar de ter noites mal dormidas: porque um ressona; porque o outro acorda sempre a meio da noite para ir à casa-de-banho; porque um se levanta de madrugada para ir ao ginásio; porque o outro acha que um quarto só é um quarto se estiver apetrechado com muitos equipamentos e "um arsenal de controlos remotos". E porque as possibilidades de relacionamento entre duas pessoas são infinitas e os padrões da conjugalidade não são estanques. Ter espaço disponível em casa também não é um pormenor.
Muitos casais optam por não contar a ninguém que vivem assim. As pessoas vão logo começar a pensar que alguma coisa está mal na relação, diz ao jornal americano um decorador de interiores. Foi o que aconteceu, no Verão do ano passado, quando se soube que Brad Pitt e Angelina Jolie estavam a dormir em quartos separados. Especulava-se: teria a decisão alguma coisa a ver com a separação da "ex" de Pitt, a actriz Jennifer Aniston?
A explicação oficial abrandou a inquietação. A recém-nascida filha do casal, Shiloh Nouvel, chorava muito de noite, o pai andava a rodar o filme Ocean"s 13 e precisava de dormir decentemente. Mas por todo o mundo tinham sido já gastos muitos pontos de exclamação em títulos de notícias. Eles dormiam em quartos s-e-p-a-r-a-d-o-s!

Trabalho de negociação
Em Portugal, o modelo adoptado por Ana Ferreira e o marido na sua casa de Caxias está longe de ser aquilo a que se chama uma tendência. "A representação dominante ainda é a do casal que partilha tudo; e a parte do sono (o mesmo quarto e a mesma cama) está incluída nesse "pacote" de uma maneira muito forte", constata a socióloga Sofia Aboim, do Instituto de Ciências Sociais (Universidade de Lisboa). Mesmo que o preço a pagar às vezes seja alto.

Sofia Aboim cita um estudo feito em Inglaterra, na área da sociologia do sono, que mostra como a maior parte das pessoas inquiridas (o trabalho não é representativo da população) continua a insistir em dormir a dois, mas está "consciente dos custos e das dificuldades" dessa escolha. "Não era uma coisa que fosse apresentada por muitos como um mar de rosas", diz a investigadora, doutorada em sociologia da família e da vida quotidiana e autora de um livro sobre conjugalidades em mudança. "Havia que negociar cobertores, ritmos, calor, frio, o lado direito e o lado esquerdo da cama... No fundo, isso dá tudo muito trabalho de negociação." E também aqui eram frequentes as referências ao ressonar.
Foi justamente por aí que Ana Ferreira e o marido começaram a pensar desistir de dormir juntos: o que mais a perturbava era o ressonar dele; o que o incomodava eram os pontapés que ela lhe dava para ele parar de fazer barulho. "Tenho um sono muito leve, acordo à mínima perturbação. Além disso temos ciclos de sono completamente diferentes: eu deito-me tarde, ele deita-se mais cedo e acorda muito cedo", explica a mulher.
Desistiram de partilhar a cama logo "uns dois ou três anos" depois de terem ido viver para a mesma casa. A casa era grande e puderam mudar-se para um quarto com duas camas. Mais tarde instalaram-se no apartamento onde ainda hoje vivem. E voltaram a tentar. "Ainda estivemos a dormir na mesma cama uns tempos", recorda Ana, que trabalha no departamento de atendimento a clientes de uma empresa. Mas desistiram. E como nesta casa os quartos eram pequenos e não comportavam duas camas, ocuparam dois quartos. De comum acordo, decisão pacífica. "Não era por aí."

E na intimidade, como funciona? Como é que duas pessoas que não dormem juntas se encontram na casa que dividem? É mesmo "no teu quarto ou no meu?" É. Ana explica: "Dormir em quartos separados não mudou absolutamente nada [na vida sexual do casal]. Até acho que enriqueceu." Há "qualquer coisa de namoro" nisto tudo. Às vezes, antes de adormecer, um visita o quarto do outro para um carinho. Mas depois regressa à cama onde dorme sempre. Ninguém passa a noite fora do seu quarto. "Para dormir, dormir, não."

Exigência de espaço vital
No país do mundo que mais tarde se deita e onde para cima de 30 por cento da população adulta sofre de insónias (dados fornecidos à Lusa, no final do ano passado, pela neurologista Teresa Paiva), a questão da conciliação do sono terá o seu peso garantido neste tipo de decisões. "Ter quartos separados é assumir que as pessoas têm direito ao descanso. Eu e o Vasco passámos a dormir cada um em seu quarto porque ele tem hábitos diferentes dos meus", revelou há dias à revista Focus a especialista em boas maneiras Paula Bobone.

Mas o sono nem sempre explica tudo. Olhando para trás, Ana Ferreira admite que "o ronco pode até ter sido um pretexto para responder a uma necessidade nossa de cada um ter o seu espaço" dentro da casa.
O espaço, como o tempo, torna-se cada vez mais precioso. Impõe as suas limitações, influencia o modelo em que as pessoas se organizam no interior de uma habitação. "O espaço é exíguo, o metro quadrado é cada vez mais caro, mas as pessoas precisam de um espaço vital e acabam por encontrá-lo de qualquer maneira", resume o arquitecto João Luís Ferreira. Ter dois quartos é apenas uma delas.
A socióloga Sandra Marques Pereira é investigadora do Centro de Estudos Territoriais (do ISCTE, em Lisboa) e está a preparar uma tese de doutoramento sobre novos tipos de habitação. Os anúncios de casas à venda colocados por promotores imobiliários, no semanário Expresso, entre 1973 e 1999, foram uma das fontes que utilizou para estudar a evolução dos modelos habitacionais, em Portugal, nos últimos 30 anos. Analisou as plantas das casas (quando elas acompanhavam o anúncio publicado), constatou tendências e reflectiu acerca das respectivas implicações sociológicas.
Saltando etapas e indo directamente à parte das conclusões, fica claro que "a questão dos quartos é fundamental". Não porque tenham começado a aparecer, logo na planta, concebidos num modelo que acolhe duas divisões para o casal dormir, mas porque ao longo dos anos foram incorporando elementos que evidenciam um processo de crescente individualização.

O quarto de casal dominante é único, mas se calhar já não é apenas um quarto-quarto, é uma suite conjugal com casa de banho. E depois a casa de banho já tem dois lavatórios; ou se calhar já há duas casas de banho para o casal; e um closet (quarto de vestir), em vez do roupeiro onde as gerações anteriores conseguiam encaixar a roupa de duas pessoas; e às vezes já há dois closets...

A individualização - não confundir com individualismo ou egoísmo, lembra a investigadora - "tem a ver com uma maior liberdade e compulsão, por parte dos indivíduos, em relação à definição das suas próprias histórias de vida e das suas opções". As instituições perdem peso, já não oferecem soluções de vida definitivas. "Vê isso agora na religião, na família e mesmo no emprego. Hoje em dia você tem que ser autónoma, não pode estar a contar com o emprego para a vida toda."
No interior de uma casa, o desenvolvimento da zona dos quartos "vai um bocadinho ao encontro dessa necessidade de autonomia". E com mais ou menos recursos e mais ou menos imaginação, "isto vai nesse caminho: multiplicar as divisões e individualizar, basicamente".
A ideia de que o bem-estar pessoal é muito importante e não vale a pena partilhar tudo se isso não for agradável para ambas as partes "pode ir ganhando adeptos", antecipa também Sofia Aboim. E ser até "uma maneira de evitar determinados conflitos e crises".

Anos a ouvir ressonar
Está longe de ser uma tendência, mas dormir em quartos separados tem "adeptos" em Portugal.
Uma funcionária de uma imobiliária do centro de Lisboa (pede para não ser identificada) lembra-se de no último ano ter havido "dois ou três casos do género". Um cliente procurava uma casa com um quarto para o filho e outro para cada um dos pais; outros puseram à venda um apartamento com dois quartos e dois closets para o casal. Sempre em contextos associados "a muito dinheiro".
Também para a decoradora Graça Viterbo o modelo não é novidade. Alguns clientes pedem explicitamente dois quartos para o casal. "Já executei vários casos - embora seja ainda mais frequente casais que optam, por exemplo, por casas de banho separadas", diz numa resposta enviada por e-mail. Os trabalhos foram pedidos em situações específicas: casais mais velhos e geralmente sem filhos; outros cujos filhos já não estavam em casa; outros ainda a viver um segundo casamento.
No atelier de que é sócio, o Promontório, João Luís Ferreira nunca recebeu um pedido de quartos separados. "O que é comum fazer em Portugal ainda não é isso" - o que não significa que não seja "absolutamente natural" que um dia destes o pedido surja por parte de alguém que vá construir uma moradia, por exemplo. Alguém que não precise de debater-se com a exiguidade do espaço. O arquitecto arrisca: "Se as pessoas pudessem escolher, se calhar metade escolhia uma coisa e outra metade a outra."

Emília Lourenço, 67 anos, pôde escolher. Para estar "como deve ser" precisa de dormir "mesmo bem". E isso, quando se tem um marido que ressona, não está ao alcance de qualquer pessoa. "Aquele barulho... Horrível, horrível." Durante a noite saía do quarto e ia dormir para o sofá. Mas um sofá não é uma cama e as noites continuavam a não correr bem. "Falei com o meu marido."
O marido, mais velho sete anos, compreendeu. "Ele via perfeitamente que eu quando acordava já estava mal-disposta. Não estava em condições para nada." De uma sala fez-se um outro quarto e as noites nesta casa da Figueira da Foz ficaram há cinco anos mais perto da perfeição. "É muito melhor. Até no Verão, com o calor, dorme-se muito melhor."
Emília Lourenço não só garante que fez a melhor escolha como acha que muitas outras mulheres fariam o mesmo se tivessem a sorte de ter maridos com "capacidade para aceitar". "Há pessoas que nem devem ficar bem, ao fim de tantos anos a ouvir tanto ressono. Temos que evoluir - vamos com os tempos."
Este é outro casal que se dá "muito bem". "Despedimo-nos todas as noites com um beijinho. Ele continua a ressonar. Mas já não está ao pé de mim."

Fonte: Público.pt
Posted

esse texto é bastante interessante e pode fazer sentido para nós pensarmos como organizar uma casa nestas condições


Exactamente... a questão não se limita a dois quartos.
Leva-nos a repensar a forma de habitar os espaços mais intímos da casa.

:)

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