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Mais uma história por detrás de uma casa famosa...

Uma Casa de Vidro - de Rui Campos Matos

de
Rui Campos Matos
(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção “Pequenas Casas, grandes arquitectos)
publicado em 7 de Janeiro de 2007
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Imaginemos uma grande caixa de sapatos com quatro paredes de vidro, pousada num prado à beira rio, não muito longe de Chicago. É Verão, a noite está quente, e dentro da caixa está uma mulher que não consegue dormir. Inútil tentar abrir os vidros: todos eles são fixos. Para permitir a ventilação, existem apenas dois pequenos postigos e uma porta de entrada. Abri-los seria loucura – durante a noite, a caixa é como uma lanterna gigante que atrai todos os mosquitos da região. Sufoca-se lá dentro.

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De dia também não é melhor. A sombra do grande ácer não é suficiente para mantê-la fresca. Nessa tarde, a mulher tinha decidido refrescar-se no chuveiro mas, ao sair da casa de banho, foi surpreendida por uma excursão de japoneses que fotografavam, que a fotografavam a ela na sua nudez! É o que dá viver numa caixa de vidro tornada famosa pelas revistas de arquitectura: nem 24 hectares de terreno são suficientes para nos manter a salvo dos olhares indiscretos. A mulher correu para o único armário-roupeiro à procura do robe.

Em boa hora tinha exigido aquele armário ao arquitecto. “Isto é apenas um retiro de fim-de-semana – tinha ele dito – basta-te um cabide na porta para pendurares o vestido. Para que queres um armário?” Que descaramento! E o preço que tudo aquilo tinha custado: 73.000 dólares por um estúdio à beira rio com 200 m2 (meio milhão de dólares a preços actuais)! Para já não falar no que custava o aquecimento durante o Inverno. O pavimento radiante sempre a irradiar e os vidros embaciados a escorrer água de condensação. “Um lugar onde poderás contemplar a paisagem que te rodeia.”Que paisagem? Não se vê nenhuma paisagem por detrás de um vidro embaciado! Ah! é difícil compreender como pôde o tribunal ter-te dado razão!

A mulher que está dentro da caixa de vidro iluminada e não consegue dormir por causa do calor e destes tumultuosos pensamentos chama-se Edith Fansworth, é médica nefrologista no hospital central de Chicago e, apesar de tantas e tão bem documentadas queixas, perdeu em tribunal o caso que a opunha a Mies Vand Der Rohe, o seu arquitecto…

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A sentença tinha, aliás, sido inequívoca: a senhora conhecia o projecto, aprovou-o, durante quatro anos acompanhou de perto o trabalho do autor. Mas Edith não se conforma e, em 1953, dois anos depois de concluída a obra e proferida a sentença, declara à revista House Beautiful: “Alguma coisa tem de ser dita e feita sobre este tipo de arquitectura, ou não haverá futuro para a arquitectura”. A sua raiva parece não ter limites.

Edith era uma mulher solteira, culta e de inquestionável reputação profissional, quando, em 1945, conheceu o arquitecto numa dinner party. Mies, alemão refugiado do regime nazi, autor do famoso pavilhão de Barcelona, apareceu-lhe embrulhado numa aura de prestígio, coleccionava Paul Klee e vestia com rigor os elegantes fatos Kinze da alta-costura vienense.

O que se passou entre os dois, nos cinco anos que se seguiram, foi já matéria de inspiração para duas peças de teatro, sendo uma delas uma tragédia… Há quem diga que a feroz e destemperada reacção de Edith só se explica à luz de uma relação sentimental falhada. O certo é que, da relação cliente arquitecto nasceu uma das mais famosas casas do séc. XX: a casa Farnsworth.

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Mas mais importante do que concluir seja o que for sobre o drama sentimental que paira sobre este caso, convém sobretudo esclarecer o equívoco que lhe está subjacente: nunca tinha sido intenção de Mies projectar uma casa convencional, adaptada ao quotidiano de uma família. A ideia do arquitecto – com a qual, aliás, a sua cliente concordara – sempre tinha sido a de criar um retiro temporário para a contemplação da natureza.

O seu segundo proprietário, o excêntrico Lord Palumbo que coleccionava casas de arquitectos famosos como quem colecciona Picassos, narra com paixão a sua experiência de habitar aquele retiro transparente: “Um mês aqui é incrivelmente terapêutico! Podemos estar sentados durante uma trovoada, com os raios a caírem à nossa volta, e é como se fizéssemos parte da tempestade…” Como lugar de comunhão com a natureza, a casa é sem dúvida um sucesso, um belo gesto poético em que a arquitectura se apaga, se desmaterializa, se torna transparente para que o mundo revele toda a sua beleza: o prado, o rio, as cores do esplendoroso Outono do Illinois. Toda ela em vidro e aço imaculadamente branco, é talvez a obra que, no seu frio e casto geometrismo, sintetiza melhor o quase nada, o bienahe nichts, que faz da arquitectura de Mies uma referência tão viva para os minimalistas dos nossos dias.
Talvez devêssemos, portanto, falar de um templo e não de uma casa. Por regra, todas as casas que os grandes arquitectos do modernismo projectaram para os seus clientes foram pouco funcionais e excessivamente caras.

O certo é que nenhum as trocaria por uma banalidade 100% funcional. No caso de Edith, a decepção e a raiva acabaram por falar mais alto – “o coração tem razões que a própria razão desconhece”… Em 1968, a médica vendeu a propriedade, reformou-se e foi viver para os arredores de Florença, finalmente abrigada dos olhares indiscretos do mundo, por detrás das espessas paredes de um palácio do séc. XIV.

Quanto à casa Farnsworth, pertence hoje a uma fundação e está transformada num museu. Tal não impede que – com o louvável sentido prático que só os americanos possuem – seja alugada para cerimónias de casamento, como se de um templo se tratasse e não de uma casa. Estranha ironia do destino…

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Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

  • 2 weeks later...

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