lllARKlll Posted December 22, 2006 Report Posted December 22, 2006 Ensaio Urbanismo e corrupção QUEM ACOMPANHA OS NOTICIÁRIOS EM ESPANHA sabe que a corrupção associada aos abusos urbanísticos está na ordem do dia. Lá como cá, as transformações do território têm uma génese muito semelhante. Então por que é que não vemos em Portugal políticos, técnicos e promotores a braços com a justiça por razões ligadas ao urbanismo, como lá sucede? A resposta leva- -nos longe. Uma das grandes diferenças entre Portugal e os restantes países ocidentais, incluindo a Espanha, reside no facto de a apropriação das mais-valias urbanísticas ser, entre nós, por princípio, privada, ao contrário do que nos outros países sucede. Há muitas variações sobre a percentagem que é pública, mas só aqui é que se aceita que ela seja cem por cento privada. A pouca recuperação pública que há é póstuma e por via fiscal. Em 1965, a lei portuguesa abriu caminho à privatização integral dos processos de urbanização e loteamento do solo. Desde então muita coisa aconteceu, mas a máquina de fazer dinheiro fácil desta maneira manteve-se. A multiplicação de valor por alteração de uso do solo transformou-se numa verdadeira galinha dos ovos de ouro, quer feita à margem dos poderes públicos (e o resultado foi o florescimento dos loteamentos clandestinos) quer perante a cumplicidade ou impotência dos mesmos. Os planos demoram anos a fazer e alterá-los pelas vias normais também. Sucedem-se os expedientes de suspensão dos PDM em vigor para aprovar alterações importantes, ou de invenção de procedimentos excepcionais para «despachar» processos complexos, muitas vezes sem sequer garantir a obrigatoriedade da discussão pública. Vale a pena lembrar que o que rende milhões não é tanto, como vulgarmente se pensa, a construção civil, que é a fase final e visível do processo, mas sim a transformação de um solo rústico em urbano ou urbanizável, ou o aumento dos índices de ocupação muito para lá do inicialmente autorizado. Em apenas 15 anos, o «território artificializado», que inclui o tecido urbano, os transportes, os grandes equipamentos industriais e comerciais e as áreas em construção, cresceu 42,2% em Portugal continental, num total de cerca de 70 mil hectares. O aumento fez-se à custa dos outros usos: perderam-se 21 mil hectares de floresta, 33 mil de solo agrícola, 12 mil de solos agrícolas com áreas naturais e 4 mil de vegetação natural. Os números são impressionantes e constam do livro Alterações da ocupação do solo em Portugal Continental: 1985-2000, de Mário Caetano, Hugo Carrão e Marco Painho. Se procurarmos detalhar os 70 mil hectares deste novo «território artificializado», verificamos que a maior fatia (55 mil hectares) foi para: «tecido urbano descontínuo», «áreas em construção» e «indústria, comércio e equipamentos gerais». Ou seja, estamos a depredar território ecologicamente fértil para o transformar, nem sequer em cidade, mas em novos espaços desconexos, descontínuos, dominados por vias rápidas, rotundas, centros comerciais, expansões urbanas de baixíssima qualidade e instalações industriais mais ou menos deslocalizáveis. No meio de tudo isto, os espaços verdes dentro das cidades não crescem. A explicação é muito simples: não dão dinheiro a ninguém. A multiplicação de valor que estas transformações proporcionam resulta de autorizações camarárias ou administrativas. Um hectare de floresta ou solo natural pode valer mil vezes mais do dia para a noite, se for considerado «solo urbanizável». É este o grande poder das autarquias, dos directores de urbanismo, das entidades públicas. É aqui que tem de ser feito um grande esforço para combater promiscuidades, melhorar a lei e aumentar o escrutínio democrático e mediático. Bem sei que o solo não pode ser estático. Mas o urbanismo não é uma actividade «neutra» ou meramente técnica. Basta de angelismo. O solo urbanizável é hoje um dos principais alvos do capital circulante à escala global, pelas elevadas taxas de rentabilidade que permite. O Congresso da Ordem dos Arquitectos tomou sobre estas matérias duas deliberações que julgo importantes: exigir a definição legal do princípio da recuperação pública, pelo menos parcial, das mais-valias urbanísticas; e defender a criminalização da apropriação privada abusiva dessas mais-valias, sempre que obtidas à margem dos instrumentos de gestão de território. É também por aqui que tem de passar o combate à corrupção. Uma forma de corrupção que se faz muitas vezes pela calada, no sossego dos gabinetes, sem escândalos mediáticos e sem conhecimento do público. Só quando tudo aparece construído (o que pode levar anos ou décadas) é que os cidadãos percebem que algo está mal. Mas nessa altura os erros são irrecuperáveis e os seus beneficiários já deram à sola... Fonte: Ordem Arquitectos My Net Press Quote
Rui Resende Posted December 23, 2006 Report Posted December 23, 2006 Vi poucos tópicos neste fórum mais oportunos do que este. É este O assunto com que a cidade portuguesa se debate e à custa do qual definha nos dias que correm. Urbanismo e corrupção, hoje, no nosso contexto, não será a expressão mais correcta. Urbanismo é corrupção, talvez se aproxime mais. E acho que a questão da "apropriação das mais valias urbanísticas" ser 100% privada é precisamente o relfexo de tudo isso. É o produto de um capitalismo liberal desenfreado, mesmo selvagem. A questão é sempre a mesma e tem a ver com princípios. O dinheiro é o objectivo nº 1, todos os outros são secundários. Como quem tem dinheiro é que pode fazer alguma coisa (não o estado, mas o investidor privado) e quem tem dinheiro coloca a sua multiplicação à frente de tudo, o processo é interminável. Aqueles que se possam revoltar e achar que algo está mal não poder sequer para debater a questão o suficiente, porque os lobbies são demasiados. Eu nem sequer vou pela questão de comparação com os outros países, realmente não acho que seja tão necessário estarmos sempre com o mote de "somos o país da Europa onde...". Acho que o diagnóstico em relação ao que está mal e deveria mudar está feito e bem feito. O triste é que muito sinceramente, com toda a boa intenção que eu possa ter, não sei o que pode, neste estado de coisas, ser feito... e isso de facto é muito triste. nem sequer em cidade, mas em novos espaços desconexos, descontínuos, dominados por vias rápidas, rotundas, centros comerciais, expansões urbanas de baixíssima qualidade e instalações industriais mais ou menos deslocalizáveis. outra grande verdade. E esta proponho que se verifique apenas à luz destes dados muito simples: A área metropolitana de Barcelona tem cerca de 3.135.758 habitantes e uma área de cerca de 635 km². A área metropolitana do Porto tem cerca de 1.760.679 habitantes e uma área de cerca de 817 km². Ou seja, conseguimos pôr um pouco mais de metade da população da AM de Barcelona em quase 200km2 mais de extensão. Notável, o Corbusier ficaria impressionado se visse isto. Eu moro junto a Espinho, portanto no limite Sul da AM Porto e o percurso que faço diariamente de cerca de 22km mostra precisamente a desconexão de que fala o artigo. Quilómetros intermináveis de nada, terrenos ao abandono, sem indústria ou agricultura, palacetes abandonados em herdades de centenas de m2, no concelho de Gaia é brutal o quão descontrolada está a questão urbana, onde a habitação em (pouca) altura aparece onde quem investe sabe que rende mais que o loteamente de habitação unifamiliar, que vai dispersando o território um pouco por toda a parte. E isto é de facto desconsolador. Já agora gostava de chamar a atenção para o que se passa em Espinho, já que o mencionei atrás, porque os 3 ou 4 km2 que a sua malha ocupa e a gestão que se faz desse espaço são para mim uma excepção absolutamente notável nos rios de podridão que correm pelo país abaixo. Quote
Magg Posted December 23, 2006 Report Posted December 23, 2006 Era capaz de dizer q és um Coreeee.. um abuso ARK, mas com o discurso q tens, sou capaz de assimilar a um ser humano muitoooooooooooooooo mais core, leal e legal chamado Diogo Corredoura.. ( faço parte da cooperativa e ele q me perdoe a referencia) um bem haja para pessoas como voces.. Faz falta :p Quote
Magg Posted December 23, 2006 Report Posted December 23, 2006 esqueci.me.. vejam...........................................................................http://arqcoop.no.sapo.pt/ grande iniciativa e de louvar, mas dificil de arrancar... tá a caminho GARANTO Quote
Ricardo Braga Posted December 28, 2006 Report Posted December 28, 2006 A corrupção sempre existiu e sempre vai existir. A única coisa que cada um de nós pode fazer é ter princípios. Coisa difícil já que os aliciamentos se passam à luz do dia e é tão fácil aceitar "remunerações externas que não prejudicam ninguém". Além disso é sempre importante tornar públicos os casos de corrupção conhecidos uma vez que (penso eu) o grande público desconhece muito do que se passa nas câmaras municipais e outros centros de poder. Quote
TiCo Posted December 28, 2006 Report Posted December 28, 2006 Corrupção onde ??? Isso existe em PT? Como diz o Saddam da Beiras: 'dou um doce a quem descobrir corrupçao' (na minha camara)!!! Quote
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