«O feto (...) não é um ser humano. É uma expectativa de Ser Humano»... »... Ora, tal como dizes, um homem é um cidadão. Um ser a quem se lhe admite individualidade, e, numa sociedade democrática, individualidade e liberdade de pensamento, precisamente até começar a liberdade e invidualdiade do outro ser que se lhe seguir. Ora um feto, por mais minúsculo e informe que seja, não é ainda um cidadão consciente, mas é já um ser-individualidade... Não concordo que digas que «para a sociedade ocidental o feto é nada», e mesmo pondo de parte a religião, o que dizes não é nem científica nem eticamente correcto...
Não sou religioso nem tenho nenhuma religião, mas partindo do princípio que não fui eu que me criei a mim próprio, respeito acima de tudo a naturalidade da Natureza (perdoe-se-me o pleonasmo). Se algum dia escrever algo ou construir algo, e depois querer destrui-lo, posso-o fazer conquanto seja meu. Mas um organismo vivo que se começa a gerar numa mulher é obra não do ser humano, e é por outro lado, como já disse, um ser com vida própria, ainda que inicialmente seja tão dependente da mãe que mal se considere uma individualidade.
Por isso acho que aborto é homicídio. Um homicídio específico e particular.
Quanto ao ser a favor da despenalização do aborto... Qualquer pessoa minimamente conhecedora de História e Sociologia sabe que quando um Estado proíbe uma determinada acção, essa acção tem alta probabilidade de ser seguida, e tem sempre consequências negativas devido à sua ilegalidade. Mas também sabe que quando um Estado aprova determinada acção, mais probabilidades há ainda de ser seguida.
É como tudo; pessoas que abortam haverá sempre, mas o Estado deve representar e lutar por uma sociedade sã. Despenalizar o aborto acabará por ser um incentivo. Do modo como vai ser feito, principalmente. No Taiwan 46% das mulheres já se submeteram a aborto. Na Austrália, legalizado desde 1970, atinge valores anuais de cerca de 100.000 crianças abortadas anualmente... O aborto legal na Austrália tornou-se um problema de saúde pública, e está levando aquele país à crise demográfica. Tal como na Espanha e em outros países, o numero de abortos executados tem disparado desde que a prática foi legalizada. As listas de espera do hospital vão aliás ceder lugar a abortos enquanto outras tantas pessoas morrem, a necessitar de tratamento. Morte dupla.
Acima de tudo acho que a sociedade devia zelar pela vida. Também acho completamente ridículos os argumentos de mães que dizem que preferem abortar do que ter de abandonar os filhos. Isto sim são reminiscências do profundo catolicismo português e das terríveis marcas que a Inquisição nos deixou. Porque é tudo uma questão de mentalidade tacanha... Conheço pessoalmente pessoas que cresceram sem pais biológicos e são pessoas tão ou mais lúcidas e de sucesso do que muitas pessoas que eu conheço e que convivem com pais biológicos... Os laços sanguíneos pouco importam quando há famílias com amor o suficiente para acolher crianças, e as há em Portugal.
E se uma mãe diz que não quer abandonar o seu filho porque não tem coragem e sentiria remorsos... Que desculpem lá, mas não os sente também quando mata o ser no início da sua gestação???
Assim como um bebé já nascido, um ser com poucas semanas de vida já recebe sinais do exterior, já tem sentidos e já grava no seu subconsciente as vivências do mundo em redor. Já agora porque se não mata as crianças até estas terem a mínima consciência de que são seres unos? Digo, se formos pelo que nos é empírico, aí até ao primeiro ano de idade até se podia...
Resumindo, acho que o aborto é a resposta mais fácil e mais confortável para quem não toma as devidas precauções, e para quem perante a vida não tem coragem suficiente para vivê-la tal como ela se nos surge.