Legrias Posted July 18, 2008 Report Posted July 18, 2008 No seguimento da proposta de trabalho prático da disciplina de História da Arquitectura Moderna II, foi fornecida uma lista de arquitectos portugueses na qual deveríamos escolher um arquitecto para elaborar um trabalho sobre a vida e obra desse mesmo arquitecto, e uma vez que afecta à área de intervenção do trabalho de disciplina de arquitectura V, existe uma obra de habitação social no âmbito do programa S.A.A.L.*, projectado este pelo arquitecto Rolando Tordo, achamos pertinente vir a conciliar estes dois factores e elaborar um trabalho sobre o Arquitecto Rolando Tordo.No seguimento de uma pesquisa realizada sobre a obra do autor, verificamos que não existem elementos publicados, assim a solução passava por ir ao encontro do arquitecto para poder vir a conhecer a sua visão pessoal sobre a sua própria obra.O primeiro tema que confrontamos o arquitecto foi precisamente sobre o bairro do programa S.A.A.L, na tentativa de poder vir a obter elementos sobre a obra, o que não passou apenas uma tentativa, uma vez que o arquitecto já não possui em sua posse elementos sobre a obra e em que a própria memória do arquitecto não cooperou, de uma forma simpática e até um pouco irónica, referiu-se à obra como um falhanço em termos programáticos, isto porque no plano inicial, previa uma expansão do programa e que até aos dias de hoje por ali ficou. A sua visão pessoal sobre a obra relata, que a principal preocupação dos arquitectos era que construir as habitações pelo menor valor possível, o arquitecto que conseguisse construir com menores custos era aquele que “ganhava”, “tinha que ser esteticamente aceitável, e se funcionar, melhor” citando Óscar Niemeyer. Do seu ponto de vista, diz que o bairro foi construído para responder a um problema local na década de 70, e que actualmente considera que o mesmo se encontra descontextualizado, pelo facto de a cidade se ter desenvolvido de tal forma que pressente que mais ano, menos ano, o bairro irá desaparecer. Um factor relevante deste desenvolvimento é a própria estrutura viária, ter atingido uma escala à imagem do desenvolvimento da cidade, confrontando com a via existente na época em que o bairro foi projectado, que correspondia a uma via local com dimensões de longe inferiores à própria via actual Avª Sidónio Pais.Depois de abordado o bairro S.A.A.L, prosseguimos num diálogo formal passando por uma síntese genérica das suas obras mais recentes as quais era ainda possível ter elementos, e em relação à sua visão pessoal sobre o panorama da arquitectura actual. * O programa S.A.A.L. (Serviços Ambulatório de Apoio Local), pretendia fomentar a reabilitação dos bairros degradados existentes, exigindo que a construção dos novos bairros fosse feita nos locais ocupados por esses bairros, evitando-se assim, a deslocação forçada das populações para áreas afastadas dos seus locais de vivência, como tinha acontecido com os anteriores programas de habitação social, e por outro lado pretendia também criar condições para uma participação activa dos moradores no processo de reconstrução/construção dos bairros, organizados em associações ou cooperativas. “……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………” O que é que o levou a ir para a arquitectura? Foi o meu pai que me influenciou, o meu pai tinha uma relação profissional com o instituto dos monumentos nacionais, sabendo que era o ultimo ano que podia entrar na faculdade das belas artes do porto teve que mover influências no sentido de poder vir a ser aceite na faculdade, contudo interessava-me tudo menos arquitectura, o que levou a que nesse primeiro ano chumbasse, “apanhei-me no porto” e passava os dias no cinema e a jogar bilhar, chegando ao ponto de coleccionar bilhetes de cinema. Após esse ano recebe um “ultimato” do pai, voltas para o Porto mas se continuas a levar esta vida voltas para cá (Amarante) e vais trabalhar, mas eu não resolvi a minha vida por esta ameaça, mudei de quarto, e comecei a ter um rumo natural pelas vivências que comecei a ter nesse ano, comecei a frequentar outros ambientes e liguei-me a outro grupo, comecei a ter contacto mais directo com a linguagem da arquitectura, com revistas que na altura eram escassas, e comecei-me a aperceber que existia mais alguma coisa para alem do bilhar e do cinema.Comecei a trabalhar a desenhar vermelhos e amarelos em telas, com o arquitecto e professor na ESBAP, João Anderssen, era um patrão extraordinário, morreu por excesso de trabalho, e pelo álcool e cigarro, aprendi imenso com ele. Depois fui trabalhar em sociedade com o Gigante, orgulhando-se de ter tido sempre óptimas relações com que colaborou. Passei também pela câmara de Felgueiras em contrato de avença durante 2 anos, onde trabalhei com o João Godinho que era urbanista da câmara, e estava a acompanhar a obra do mercado municipal, palácio da justiça e a câmara, ao trabalhar nesta época na câmara implicava estar a acompanhar estas obras que faziam parte do programa do estado novo. Depois sai da câmara não aguentando a sobrecarga horária e continuei com o Gigante na participação em alguns concursos. Com que tipo de arquitectura ou autores se identifica? Identifico-me muito com a obra dos arquitectos Gonçalo Byrne, Siza Vieira e Souto Mouta, Fernando Távora um pouco apesar de se notar na obra de Fernando Távora um percurso muito sinuoso, acusando um pouco as influências do que está em moda, o que se usa agora, conforme as tendências da época, e na obra de Soutinho nota-se muito mais, ao contrário de Souto Moura e Siza Vieira, não sai nenhum trabalho destes arquitectos que não tenha a marca dominante deles.Casa de Vila Viçosa é um bom exemplo, com o que me identifico. Quais os fundamentos ou conceitos que aplica na sua arquitectura? Depende do tipo de liberdade que o cliente ou o promotor me der, se for por exemplo para um concurso público, se não tenho um programa específico para um determinado cliente, se tiver a projectar um projecto com um programa hospitalar ou centro de saúde o método projectual tem exprimir ou traduzir o modelo de ocupação que o programa exige o que não posso aplicar por exemplo se tiver a projectar uma repartição de finanças, são métodos de trabalho diferentes, acho que o método construtivos deve transmitir aquilo para que se destina o espaço. Se tiver a projectar para um cliente privado e me pedir uma casa com telhado não tenho redundância nenhuma para com os telhados, agora se me pede uma casa com cornijas, já sei que me vai pedir uma casa com colunas, com capiteis, com arcos, por ai fora, ai já se começa a por em causa o gosto pessoal em detrimento de outros valores que eu defendo, muitas das minhas obras são muito despidas o que normalmente desagrada à maioria das pessoas. Vou-vos falar dum exemplo especifico, à tempos veio uma cliente falar comigo com várias revistas debaixo do braço em que me mostrava casa de banho com colunas em mármore, espelhos todos “rócócós”, que mais pareciam já uma casa, telheiros esquisitos, eu sei lá, e eu olhei para aquilo, e disse cá para mim, eu não sei fazer disto…. E ao perceber que a cliente tinha uma certa cultura e interesse por outros valores, e poucos a pouco foi cedendo e desprezou todo ou quase todo o gosto que trazia acumulado. Dá mais valor à forma de um edifico ou à função? Do meu ponto de vista tem que funcionar, ao contrário do que diz Niemeyer. Uma casa Habitacional funciona sempre, até porque o tipo de apropriação do espaço de cada pessoa é diferente, o que pode ser um pouco relativa esta minha afirmação. Por exemplo a casa do Corbusier a Vila Savoyer, não tem salvação, só como monumento nacional, porque as pessoas não conseguiam viver dentro dela e eu adoro esse projecto. Mas um edifício público tem obrigatoriamente que ser funcional. Quais os principais problemas que considera na arquitectura Portuguesa? O primeiro é que grande parte dela é feita por desenhadores e engenheiros, os arquitectos não tem o exclusivo da arquitectura, sem trabalho não podemos dar o nosso contributo para essa qualidade que nos compete. Depois a cultura do povo português, o país tem atraso cultural. Eu gosto imenso do escritor José Saramago, ele tem um livro de 2 volumes publicado com exemplos sobre arquitectura em Portugal, o qual não me recordo o nome, e tem de facto referências em que ele considera qualidade arquitectónica, inclusive com fotografias, eu vejo aquilo e fico surpreendido, ele tem o gosto estragado ou contaminado, e não devia manifesta-lo, eu de coisas que não sei não falo, e mesmo de assuntos relacionados com arquitectura que suponho que sei, ás vezes me calo, gosto não gosto, mas não omito opinião. O que acha do projecto da casa da música? Eu acho um edifício de grande qualidade, apesar de nunca lá ter entrado, apesar de achar que o meio onde estar inserido um bocado desintegrado. É um edifício demasiado evidente, demasiado brilhante, numa evolvente muito parda sem … não existe um meio urbano, sem referências e a casa da música caiu ali como um pedregulho. A rotunda da Boavista é um desastre. A pergunta que se deve por é para quê uma casa da música para uma cidade que não é melómana? O porto não tem actividade cultural para o edifício. Isoladamente é um bom projecto, em termos de integração com a cidade e de oportunidade foi mal aplicado. Agora é esperar que a cidade acompanhe uma evolução no sentido de vir a dar resposta ao programa do edifício. “……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………” Quote
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