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BIC . João Sousa + Filipe Araújo


'Entre o Sagrado e o Social' - Fonte da Moura

A reutilização de um equipamento destinado a depósito de águas presumiu logo à partida um estudo sobre sua forma espacial em conjunto com as numerosas possibilidades de ocupação, tendo por base uma revitalização interna e externa ao nível sócio-cultural. Sendo um objecto urbano estranho, único no seu conjunto e actualmente sem uma função específica, o estudo baseou-se sobretudo em como construir um novo paradigma de forma a tornar útil essa construção, gerando uma nova dinâmica urbana de base social.
A sua implantação, estranha aos traçados do bairro da Fonte da Moura, presume que esta construção tenha sido erguida antes de qualquer plano urbanístico, sendo ela própria desde logo uma espécie de marca que se avista à distância, relembrando num imaginário colectivo as pequenas implantações de elementos sagrados que marcavam pontos, lugares e culturas. É neste sentido que importa aqui requalificar o antigo depósito da Fonte da Moura, propondo um programa de equipamento local de forma a torná-lo útil e importante para a população. Pretende-se então incutir um valor simbólico à estrutura, partindo da ideia de um objecto urbano estranho para a construção de um ícone, assumindo e fortalecendo a sua excepcionalidade no traçado urbano de forma a gerar uma nova identidade local.

Fruto de planos municipais para edificação de habitações de baixo custo, este bairro e toda a zona em redor carece de equipamentos que fortaleçam uma unidade de vizinhança. Deste modo os laços sociais que se estabelecem são débeis e revelam-se no próprio contexto urbano. Os espaços públicos encontram-se assim alienados, vazios de referências, não revelando um sentido de pertença dos habitantes locais. Torna-se então necessária a revalorização do espaço público enquanto gerador de interacções sociais e ele próprio um agente reprodutor social.

A proposta apresentada torna-se geradora de uma nova centralidade, assumindo-se como a excepção num traçado de bairro. Entendendo a necessidade da definição de pólos de atracção, o equipamento proposto sugere uma diferente apropriação dos espaços públicos locais, enriquecendo-os através das funções sociais que lhes são associadas. Mais do que um objecto urbano, o interesse é o de dotar esta estrutura de funções específicas associadas às necessidades sociais locais.

Estabelecem-se então duas matérias sobre as quais se pretende intervir sob forma de programa complementar: entre o sagrado e o social. Aproveitando a riqueza espacial da torre, define-se um espaço de culto religioso, trabalhando apenas com as matérias existentes: a massa, o vazio e a luz que os evoca. Propõe-se a sacralização desse espaço, tornando-o útil. O mezanine existente transforma-se num espaço de meditação encerrado, constituindo uma enorme caixa de luz que transporta a luminosidade exterior para o interior do espaço de culto.
O antigo depósito de águas torna-se agora num espaço de reprodução social, um equipamento de bairro de utilização infantil, juvenil, associativa, etc. Procura-se a multiplicidade de funções, sendo que este espaço tanto pode ser utilizado por ateliers de tempos livres para as crianças, como associação social ou como espaço a alugar para actividades de bairro, de teatro, de música ou de jogo.

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