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Cidade e cultura

alfredo cunha
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Gomes Fernandes, Arquitecto

No passado fim-de-semana, assinalaram-se três anos de actividade da Casa da Música do Porto. Reconhecida na generalidade dos atentos ao fenómeno cultural como um desempenho de êxito e um novo marco no roteiro de afirmação da imagem da cidade que, não se deve esquecer, é Património da Humanidade.

A Casa da Música, goste-se ou não da sua arquitectura e enquadramento urbano, é um novo ícone portuense e um pólo dinamizador de actividade cultural que extravasa a cidade e faz gravitar em sua volta uma região, mesmo que se perceba não ser acompanhada por outros núcleos similares que são necessários à afirmação de uma política cultural integrada neste domínio específico.

O Porto hoje vive um triângulo forte que, de certo modo, passa ao lado das preocupações culturais e de marcação municipal, embora a Câmara não seja totalmente alheia a isto. Museu de Serralves, Casa da Música e Estádio do Dragão são vértices de uma afirmação portuense e nortenha que não encontram correspondência dinâmica no projecto quotidiano da cidade, que parece, às vezes, passar ao lado deste sentido metodológico afirmativo, como se a organização e o trabalho e os objectivos seguidos por estes três projectos específicos não fizessem parte da cidade. Em síntese, estamos perante projectos ganhadores sediados numa cidade em perda e isso deve fazer-nos reflectir, independentemente de haver quem entenda que os objectivos do F. C. Porto nada têm a ver com Serralves ou a Casa da Música, mas o certo é que cada um tem o seu êxito e o Porto só fica a ganhar com isso.

Curiosamente, na mesma altura em que se assinalava o terceiro aniversário da Casa da Música, fui numa visita de estudo do curso de Arquitectura de uma universidade portuense, a Lusófona, a Viana do Castelo, e percebi algumas das razões por que uma cidade como a nossa está em perda e aquela "Princesa do Lima" deu um salto Urbano qualitativo na última década, no reencontro com o seu Centro Histórico e o rio. Porque tem um projecto de cidade e está a saber tirar partido daquilo que há muitos anos pareciam ser os seus fatalismos estar encravada entre o rio e a montanha e vestida de um colete limitador, o peso patrimonial do seu Centro Histórico.

Face a este triângulo limitador, a Autarquia vianense rodeou-se de técnicos capazes e fez das fraquezas forças, estruturando um Projecto de Desenvolvimento Urbano que transformou as ditas limitações na força transformadora da sua imagem e capacidade de atracção. Hoje é uma cidade viva e aberta e com um roteiro de arquitectura urbana a fazer invejas a muita gente.

E voltando ao Porto e às suas limitações, cidade antiga e de Centro Histórico envelhecido, limitada pelo rio e pela Circunvalação, contudo Património da Humanidade e, há poucos anos, Capital Europeia da Cultura. O que acontece aqui para não sermos capazes de aproveitar estas limitações e as suas vantagens para "dar um murro" na cidade, como o fez e está a fazer a Autarquia vianense?

Esta questão merece ser reflectida num momento em que o F. C. Porto ganha um tricampeonato da forma que toda a gente conhece, a Casa da Música é o êxito que ninguém discute e Serralves está tão consolidado que até nos esquecemos disso. Merece porque a cidade, no seu corpo físico e anímico, parece "vegetar" alheia a tudo isto, como se tivesse sido um fatalismo termos perdido um conjunto significativo de serviços à sombra dos quais nos tínhamos acomodado e nem capazes somos de pensar numa estratégia substitutiva.

Cidade de Património e Cultura podíamos e devíamos ser, para mais com uma universidade e um corpo científico reconhecidos, mas os dias passam e até esses vectores dinâmicos e altamente positivos para a reformulação do projecto urbano que é preciso encontrar parecem querer ser esquecidos, pois não há uma força agregadora capaz de entender isto e agir em conformidade.

Dirão, mas a Câmara é que poderia fazer isso, protagonizar a bandeira do incómodo e do desassossego e acender uma luz de esperança nesta aparente e irreversível fatalidade. Não só a Câmara, como é óbvio, mas sobretudo a Câmara, tal como a Autarquia vianense, poderia e deveria fazer isso. Com SRU, Polis ou outro instrumento inventado, certamente com o metro e a optimização dos inter-faces, com a sua Academia, a Associação Comercial, o tal triângulo referido atrás e muito mais gente que responderá, se houver uma voz de chamamento com vontade e ideias com um Projecto de Cultura Urbana!


Link:
http://jn.sapo.pt/2008/04/16/porto/cidade_e_cultura.html

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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