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Urgência de "outra" cidade


Manuel Correia Fernandes, Arquitecto

Otermo "urbanismo" é um neologismo inventado há pouco mais de um século por Ildefonso Cerdà, o genial autor do Plano do "Ensanche" de Barcelona na sua "Teoria Geral da Urbanização" de 1867. Curiosamente, trata-se duma situação idêntica à que acontece com a palavra "espaço" que, não sendo um neologismo (a palavra sempre existiu), nunca tinha sido, no entanto, aplicada até aos finais do século XIX, às "artes do espaço", como são a "arquitectura" ou o próprio "urbanismo".

No entanto, se hoje perguntarmos ao cidadão comum "o que é a Arquitectura, seguramente que obteremos como resposta mais frequente que "é a arte (ou a ciência) de organizar o espaço".

O facto é que uma e outra destas "artes" ou "ciências" (do espaço) sempre existiram como "práticas" e sempre tiveram como consequência a "construção de espaço de habitar".

A verdade, no entanto, é que o "urbanismo" só nasce como "ciência" quando a cidade industrial" introduz uma ruptura fundamental com a cidade dita "antiga ou clássica" e inicia o caminho que vai dar origem à chamada "cidade moderna" que, no entanto, só virá a ter consagração e a ser codificada já no século XX, através da chamada "Carta de Atenas" redigida em 1933, mas só publicada em 1943 por iniciativa de Le Corbusier, a dois anos do fim da guerra.

A publicação da "Carta" e a iniciativa de Le Corbusier são, no entanto e de certo modo, premonitórias, já que a inevitável reconstrução do pós-guerra será o momento de por em prática o "urbanismo moderno" proclamado pela "Carta", como resposta, finalmente global, à cidade antiga, insalubre, promíscua, degradada e insegura e, em suma, desumana.

De facto, é a "Carta de Atenas" que enuncia os princípios do que virá a chamar-se "urbanismo moderno" que enuncia os quatro princípios que irão servir de roteiro a todos quantos, desde então, fizeram a cidade e que são habitar, trabalhar, recrear e circular.

E a "carta" desenhou a cidade moderna até finais da década de cinquenta, tentando, durante este curto período de tempo, formalizar de muitos modos os (sagrados) princípios enunciados. Duas "formas" e dois "acontecimentos" (consequências, factos, fenómenos) fundamentais podem, no entanto, traduzir o essencial da cidade moderna o "bloco de habitação colectiva" e a "via segregada" são, por excelência, as formas da cidade moderna, e o abandono do "Centro Histórico" (quando não a sua destruição) e a consagração do "subúrbio" ou do "bairro periférico" são, por definição, as suas consequências maiores.

Evidentemente que esta "nova cidade" nasce, naturalmente, sob o signo do "zonning" (zonamento) como consequência natural (e inevitável) da programática distribuição e consequente separação das funções ditada pela "Carta" habita-se num lado, trabalha-se noutro, recreia-se ainda noutro e circula-se (intensa, mecânica e ciclicamente) entre todos.

Contudo, o modelo alternativo à cidade clássica que o "urbanismo moderno" vinha impondo, com a "Carta" numa mão e "a necessidade de reconstrução rápida e total" na outra, não dura, contudo, mais do que uma vintena de anos. De facto, um grupo de "arquitectos/urbanistas", autodesignados por TEAM X, também eles "utilizadores" (e, até, autores) da "cartilha", declara a falência da "Carta" que tinham ajudado a "redigir" e, com ela, o fim da "cidade moderna". As razões eram muitas, mas, de todas, sobressaíam as questões de ordem social e de todas as "seguranças" que a cidade era suposto garantir, desenvolver e elevar a um alto grau de eficiência!

Começava, já então, a ser urgente uma "outra" e verdadeiramente "moderna" cidade. Só que, até hoje, tudo parece ter-se agravado!


Link:
http://jn.sapo.pt/2007/12/07/porto/urgencia_outra_cidade.html

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

  • 2 weeks later...
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A outra cidade É primeiro e antes que venha a ser pensada, racionalizada ou planeada.
Assim sempre foi e sempre será: primeiro acontece, depois se pode aprender a planear os fenómenos a que assistimos - veja-se Roma e os acampamentos dos seus militares.
Arquitectura/planeamento andam a reboque da realidade. Dai advém a definição de utopia.

Como pode Correia Fernandes lamentar-se de uma lei natural? E muito menos culpar a carta pela miséria a que se assiste, como se sem a carta as coisas tivessem corrido melhor.

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