Dreamer Posted May 18, 2007 Report Posted May 18, 2007 Como e quem faz cidade? A arquitectura continua a mexer com a cidade. Como, de resto, não pode deixar de ser, queiram ou não os vários poderes, já que, para o bem e para o mal, não há cidades sem arquitectura. E, já agora, não há cidades sem arquitectos. Alias, conta a história que, "um dia, os deuses, para castigarem os homens, ameaçaram privá-los dos seus arquitectos"! Contudo, sempre convirá não confundir uma arte como é a arquitectura com os seus executantes e, sobretudo, com os interesses de tipo corporativo que, embora legítimos, não devem confundir-se com o interesse público, social e cultural da arquitectura. Com efeito os últimos temas "arquitectónicos" a ocupar "espaço público", fornecem suficientes motivos para reflexão em torno do modo como vamos pensando e fazendo a cidade que é a nossa. Digamos que há histórias para todos os gostos, nem todas com final feliz, é certo, mas em que, aqui e ali, timidamente, já é legítimo vislumbrar que melhores dias poderão estar para vir o que também pode querer dizer que a capacidade de aprendizagem ainda se não terá perdido completamente. Ideias menos felizes A verdade é que depois dos "flops" que foram algumas ideias menos felizes como, por exemplo, o caso do chamado "concurso de ideias" para o Parque do Covelo, ao fazer apelo a uma participação indiscriminada dos cidadãos, independentemente das suas "credenciais", para um destino a dar àquele velho problema da cidade e que resultou (que se saiba) em… nada. Uma não menos feliz foi chamada geral para a recuperação/revitalização do Mercado do Bolhão cujo destino ainda não se percebe qual será (embora se tema o pior!); uma, igualmente pouco participada, convocação de vontades para a resolução do "bicudo" problema que nunca deixou de ser o misterioso "Shopping dos Clérigos" (ainda que o projecto anunciado dê esperanças!); um (ainda) incipiente movimento de "regresso à Baixa" que oscila entre o eternamente anunciado mega-investimento de grande quarteirão apontando baterias ao "luxo" e a mini-intervenção à pequena escala do pequeno lote apontando o dedo às bolsas simplesmente "remediadas". Há, ainda, o redondo fracasso que parece estar a ser o infeliz e sempre adiado "Batalha" ou a dúvida, tornada sistemática, sobre a vantagem ou desvantagem de aceitar a instalação de grandes lojas no "centro", sempre resolvidas pela emigração das mesmas para as mais diversas periferias sem que se perceba muito bem a lógica da "política", a verdade é que, surpreendentemente, se abrem as portas da cidade à arquitectura de grande escala com o anúncio da abertura de um concurso de ideias para uma extensão muito apreciável de frente de rio que vai da Ponte de D. Maria até à Rua de D. Pedro V. É um bom passo, é a oportunidade para voltar a olhar de forma global e integrada para a cidade numa área tão emblemática e sensível como é a sua frente aquática, recuperando ideias que os tempos (e, sobretudo, os homens) foram deixando amarelecer nas gavetas ou que a cegueira "partidária" foi relegando para o fundo da arca das inutilidades como é, por exemplo, o caso do chamado "Parque dos Guindais" que, depois de longa hibernação, parece poder voltar a ver a luz do dia ou o caso do espaço adjacente à Alfândega, ainda vazio e lamentavelmente transformado em parque de estacionamento, útil, mas não ali nem assim. De resto, convirá recordar que a cidade não é feita nem apenas, nem sobretudo, de e com edifícios. A cidade tem "vazios", muitas vezes precisa deles já que são a única forma de dar sentido aos "cheios", ou seja, ao "espaço (dito) construído" e encerrado. É - também por isso - que é interessante ver renascer a polémica em torno da chamada "frente urbana" do "Parque da Cidade" e ainda uma outra que sobre estas questões pode estar a nascer e que é a de quais são, finalmente, as competências (e os perfis) dos vários "artistas" (profissionais) sobre os quais recai (deve recair) a responsabilidade de fazer cidade? Mas , seja quem for, o que é importante é que "os deuses não castiguem os homens, privando-os dos seus arquitectos". Sublinho a última expressão, não fosse eu próprio arquitecto ..."os deuses não castiguem os homens, privando-os dos seus arquitectos"... Link:http://jn.sapo.pt/2007/05/18/porto/como_e_quem_cidade.html Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
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