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Isto não é um tabuleiro de xadrez: é um museu
27.04.2007, Inês Nadais

Já não é só a obra mais reconhecível dos arquitectos Mansilla + Tuñón (a dupla que encontramos na Internet a jogar matrecos): desde ontem, o MUSAC, de Leão, também é o Prémio Mies van der Rohe 2007

De um a dez, Luis M. Mansilla dá dez a ter recebido, ontem, o Prémio Mies van der Rohe da União Europeia com um museu de arte contemporânea para todos os efeitos periférico ("Leão fica no meio de uma das regiões mais despovoadas da Europa, com muito pouca visibilidade e muito pouco acesso aos fundos europeus", diz-nos pelo telefone, logo a seguir à entrevista com a Radio Nacional de España), e dá onze, ou mais, às fotografias de casamento que todas as semanas acontecem fora, mas no fundo dentro, do Museu de Arte Contemporáneo de Castilla y Léon (MUSAC). Não foi critério para o júri do prémio, que preferiu sublinhar "a clareza tectónica do edifício e a inteligente realização do programa", mas é critério para Mansilla: "Dantes, a seguir aos casamentos, os noivos iam fazer fotografias para a Catedral de Leão. Agora fazem as fotografias no MUSAC. É maravilhoso: as pessoas acham que o edifício é delas".

Antes de ser delas, foi deles: Luis M. Mansilla e Emilio Tuñón, o novo dream team da arquitectura espanhola (esperamos para ver, e eles também porque o projecto está parado "por razões políticas" até às próximas eleições, o hype que vai ser o novo Museu da Cantábria, em Santander: de um a dez, é um edifício dez vezes mais assombroso do que o MUSAC). Na Internet, eles são os quarentões vestidos de preto a jogar matrecos - os arquitectos que ganharam o Mies van der Rohe com um museu que não parece verdadeiro, uma versão pop do tabuleiro de xadrez, e que agora querem fazer outro em forma de cadeia montanhosa, como se a arquitectura fosse uma coisa a brincar. Finalmente, a Europa reparou neles: são finalistas do prémio desde 1997 (de derrota em derrota até à vitória final, portanto). Falharam em 1997 com o Museu de Arqueologia e Belas Artes de Zamora, falharam em 1999 com o Centro de Natação de San Fernando de Henares, falharam em 2001 com o Museu de Belas Artes de Castellón e falharam em 2003 com o Auditório de Leão (outra obra no fim do mundo, a Espanha profunda).

Não falharam agora, e, pessoalmente, "isso é uma satisfação tremenda", diz Luis Mansilla ao P2. "O prémio é importantíssimo, a várias dimensões. Por um lado, representa uma valorização da arquitectura espanhola - e, vamos, da Península Ibérica. Nos últimos anos, a arquitectura ibérica teve um crescimento enorme - de qualidade, mas sobretudo de difusão. Por outro, também premeia a construção de uma verdadeira Europa cultural, e nós somos entusiastas da Europa. Leão fica no Caminho de Santiago, que foi um dos primeiros vertebradores da Europa como paisagem cultural, e é muito significativo que o Mies van der Rohe tenha vindo, este ano, para Leão", sublinha.

Podia ter vindo para Portugal: o Centro de Artes de Sines, da dupla Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus, foi um dos projectos finalistas do prémio (e ainda: o Pólo Universitário das Ciências de Gestão, em Bordéus, de Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal, o Centro Coreográfico Nacional de Aix-en-Provence, do francês Rudy Ricciotti, o Phaeno Science Centre de Wolfsburg, da iraquiana Zaha Hadid, o Museu Mercedes-Benz, em Estugarda, de Ben van Berkel, e o Ediffici Velles e Vents, em Valência, de David Chipperfield e Fermin Vázquez). Foi bem entregue, garante Francisco Aires Mateus. "A atribuição é justíssima: gosto particularmente do projecto e dos arquitectos, que são meus amigos. Aliás já tinha dito à Visão que, se não ganhássemos - e era completamente improvável ganharmos - queríamos que ganhasse o MUSAC", disse ontem ao P2. Gosta disto no projecto de Mansilla e Tuñón: da maneira como constrói a tridimensionalidade a partir de um padrão geométrico, modular, que nem sequer era muito promissor. "O projecto revela uma destreza muito particular na manipulação do módulo inicial - e é uma surpresa muito grande perceber como, a partir de um módulo relativamente simples, se criam espaços inesperados e uma tridimensionalidade muito invulgar", explica.

Um projecto social
Dentro desses módulos, por trás da fachada pop (pop e erudita: os 3351 vidros de 37 cores diferentes que compõem o mosaico foram obtidos a partir da digitalização de um dos mais vistosos vitrais da Catedral de Leão, construída no século XIII), as pessoas circulam como se circula no Grande Bazar de Istambul, diz Luis Mansilla. "Creio que os visitantes têm a impressão de estar numa rua coberta - e, de facto, nós projectámos o MUSAC como se projectássemos uma parte coberta da cidade. É um lugar onde acontecem coisas - e que se vai transformando, como um cenário". Não é só o papel de parede mais usado, nas fotografias de casamento (a ponto de ter substituído a Catedral de Leão no imaginário colectivo). Também é um museu extraordinariamente frequentado (287 mil visitantes em dois anos, de 1 de Abril de 2005 a 1 de Abril de 2007), diz Rafael Doctor, o director do MUSAC. "Este museu não é só um projecto cultural: também é um projecto social. O objectivo para o qual trabalhamos aqui diariamente é tornar a arte contemporânea mais acessível às pessoas, desviá-la desse circuito que em parte é de exclusão. Receber este prémio é uma satisfação incrível, porque significa a consolidação do MUSAC no espaço artístico europeu. Mas trabalhar aqui sempre foi uma satisfação incrível - e um desafio incrível, porque o MUSAC tem características técnicas e espaciais muito particulares. Programar esta sequência de naves encadeadas não é o mesmo que programar o cubo branco que é a tipologia habitual do museu ocidental", continua.
Essa ruptura epistemológica sim, esteve na cabeça do júri presidido pelo arquitecto e urbanista Richard Burdett, da London School of Economics, que destacou "a matriz conceptual de uma série de espaços interiores flexíveis que efectivamente enfrentam os desafios de exibir arte contemporânea". Mansilla e Tuñón (ou Mansilla + Tuñón, como assinam desde que criaram o seu próprio estúdio, em 1990) recebem o prémio a 14 de Maio, no Pavilhão Mies van der Rohe, em Barcelona. Até lá, vão continuar a jogar matrecos - ou xadrez, na fachada dos museus.

Fonte: Público.pt
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MUSAC, tornar a cidade sexy
Pedro Gadanho

O MUSAC - o Museu de Arte Contemporânea de León - é uma das pérolas de uma política de progressiva descentralização da arte contemporânea no país vizinho. Em pouco mais de uma década, é o quinto museu a ir de encontro às aspirações autonómicas e culturais das regiões espanholas. Faz, assim, parte de uma política cultural que vê os museus de arte moderna e contemporânea não só como motor de criação de novos públicos e de novas identidades locais, mas também como uma expressão representativa da cultura arquitectónica actual.
Ao ganhar o prémio Mies van der Rohe, o MUSAC, obra dos arquitectos madrilenos Mansilla y Tunõn, dá pleno sentido a este cruzamento cultural e passa também a integrar o panteão da consagração de um dos mais representativos prémios internacionais do mundo da arquitectura.
Entre as discussões especializadas que acompanharam a sua inauguração e a sua calorosa recepção popular, temos aqui a arquitectura na encruzilhada entre as expectativas do mundo especializado - o da arquitectura e o da arte - e o que a criação arquitectónica pode oferecer de celebrativo a um quotidiano banal e rotineiro.
Porque a arquitectura do museu é, de facto, de espacialidade expressiva e porque os seus acabamentos em betão aparente escapam à solução tradicional das paredes brancas, teve evidentemente a crítica do mundo da arte. Mas também houve quem gostasse porque essa informalidade supera o paradigma da white box e porque a identidade arquitectónica é uma das mais-valias dos espaços museológicos dos dias de hoje.
Na realidade, a obra de Mansilla y Tuñon revela conhecimento das condições da produção artística contemporânea e adapta-se a elas, mas, mais do que isso, o edifício transforma-se numa estratégia de afirmação urbana. O edifício faz - e refaz - a cidade à sua volta.
A inserção e a imagem urbana do projecto revela um salto qualitativo importante relativamente à obra anterior destes arquitectos ainda na casa dos 40 anos. Sendo o novo museu inserido numa área de crescimento urbano semi-periférico, a discreta entrada do museu abre-se na convergência de um espaço exterior de acolhimento e chama a cidade circundante com um abraço irregular e dinâmico.
As fachadas coloridas e funky evocam referências urbanas mais contemporâneas e se, na volumetria, há até a referência a Mies van der Rohe e à sua torre de vidro polifacetada nunca realizada, é o espírito comunicativo dos diferentes alçados que é decisivo para constituir um espaço público convidativo e qualificado. À cidade descaracterizada responde-se com a diversidade formal - e, no entanto, cuidada e coerente - da composição de cor e das geometrias complexas.
A atribuição do Mies não só confirma a vitalidade e a expressividade da arquitectura espanhola contemporânea, mas anuncia também uma tendência desejável que nuestros hermanos têm assumido de modo cada vez mais visível: tornar mais sexy a arquitectura da cidade contemporânea.


Fonte: Jornal Público
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Tive no musac no fim de semana passado, tinha muitas duvidas, em relação á obra, embora algumas se tenham dissipado uma vez no local...contudo mesmo no musac como no auditorio cidade leon estava a espera de mais e melhor.....

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