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Existe um mecanismo paralisante em Portugal

O arquitecto espanhol Ricardo Bofill em entrevista ao Expresso revela que a tomada de decisão é muito lenta no nosso país. “A máquina administrativa trava o desenvolvimento em Portugal”. Portugal é um país de gente que sabe construir, mas existe um travão administrativo

TEXTO DE FERNANDA PEDRO

O espanhol Ricardo Bofill é um dos arquitectos com maior projecção a nível mundial. Em Portugal o seu projecto mais conhecido é o Atrium Saldanha, uma obra que já
mereceu vários prémios. No seu ateliê em Barcelona,
o arquitecto em entrevista ao Expresso falou dos seus
últimos trabalhos e explicou a grande diferença entre projectar em Portugal e em Espanha.

Qual é a diferença entre fazer um projecto em
Portugal e em Espanha?


Estar em Portugal, em Espanha, na Catalunha é praticamente o mesmo, é muito cómodo. Portugal é um
país muito bonito e que se desenvolveu rapidamente. Eu recordo-me da Lisboa de antes e agora cresceu, mudou muito. E, apesar de um momento de maior desemprego, creio que vai recuperar. É uma cidade muito bonita, bem traçada ao lado de um rio fantástico com um centro histórico interessante, gente dinâmica e moderna e com vontade de fazer coisas. Contudo, existe um mecanismo administrativo paralisante em Portugal, não sei porquê. Todas as administrações bloqueiam sempre tudo. Aqui em Barcelona houve uma reforma administrativa na Câmara Municipal há 25 anos, reduziu-se o pessoal para um quarto e obrigou-se a responder e a dar as licenças em três meses. Foi um grande empurrão pois era um sistema que existia desde os anos 50.

E quando falo com os políticos e os empresários em Lisboa fico com a impressão de que têm vontade de fazer coisas mas que existem muitos entraves administrativos.

Temos construído alguma coisa em Portugal, existem
projectos novos e interessantes, um que está ao lado da Expo por exemplo, fizemos o projecto e para ter a aprovação da Expo foi complicado.
Não se entende
muito bem porquê
, o presidente da Câmara é muito
simpático, o pessoal do urbanismo interessa-se mas
é a máquina administrativa que trava o desenvolvimento
e a qualidade em Portugal.


Existem excelentes arquitectos em Portugal, empresas de engenharia muito competentes. Recordo-me de que quando estava em França os melhores encarregados de obras eram portugueses,
é um país de construtores, de gente que sabe construir mas existe este travão e falta
um pouco de urbanismo, de desenho urbano, de ter
um pouco a visão da cidade.


Digo sempre ao presidente da Câmara que Lisboa que tem este rio fantástico à sua frente e cidades assim, com elementos de água tão fortes como rio, mar, são cidades que não podem estar atrás. É como se a cidade estivesse atrás e só num ponto se assomasse. Há 20 kms e uma linha que deveria ser o sonho de qualquer arquitecto português poder pensar, que deveria ser tratada com consciência e qualidade, com operações rentáveis e economicamente viáveis.


Tem em Lisboa um projecto, o COMPAVE...

Propus fazer um edifício não muito alto, mas alto,
pois já existia em frente um edifício do Sheraton dos
anos 60, eu não concordo muito com um ponto alto,
temos ido várias vezes a Lisboa para se chegar a uma
conclusão e isto está a ser discutido, têm havido conversações mas tudo é muito lento. A tomada de decisão é muito lenta. Uma pena.

Tem também um projecto em Porto Santo, do
Grupo Siram. Como o caracteriza?


Porto Santo é umlugar incrível. Uma coisa rara. No meio do Atlântico uma rocha vulcânica que sai de repente, nessa imensidão de paisagem e nota-se aí a força do Atlântico. É um sítio muito potente. Estamos a fazer aí um resort de muita qualidade e estamos a fazê-lo com arquitectos portugueses.

Além de Porto Santo e Lisboa está a projectar
outras coisas em Portugal?


Havia qualquer coisa no Porto mas que não se chegou
a concretizar. Gostaria de trabalhar mais com bons arquitectos portugueses e fazer uma equipa para
desenvolver esta linha de rio (Tejo), poder fazer um trabalho de colaboração e demaior amplitude. Já
construí em muitos países,
mais do que construir edifícios dispersos gostaria de continuar a Expo, um sítio
tão emblemático e dar-lhe um sentido a toda a
estrutura linear.


Por exemplo, existe a estação de caminho-de-ferro e um comboio que vai para o norte e corta uma estrada, existem uns barracões de um lado e umas construções do outro. Poder-se-ia fazer melhor, fazê-lo, por exemplo, subterrâneo. Tipo metro e a via podia ser uma via jardim e as vistas tornar-se-iam mais agradáveis.

Qual é o maior projecto em que está agora a trabalhar?

Bom, nós estamos a trabalhar em muitos projectos
e sítios ao mesmo tempo. Por exemplo, um grande
desafio complicado, em África, no Senegal, casas económicas e baratas, num país tropical e para gente
com poucos recursos. Um edifício em Nova Iorque,
ao lado do MOMA (Museu de Arte Moderna) numa
das avenidas mais caras do mundo. Também terminámos
um centro em Tóquio no terreno dos antigos edifícios da Toshiba e estamos a trabalhar muito em Pequim para os jogos olímpicos de Pequim na China. E também na Rússia, país que está a despertar. Estamos a fazer um projecto em São Petersburgo que é uma cidade lindíssima. Cidade bem traçada, neoclássica, bonita, elegante mas está um pouco velha. Os russos estão a despertar. Também Moscovo quer
uma grande intervenção nossa na cidade. Já trabalhamos
em 50 países diferentes. Esta é uma pequena, pequeníssima multinacional. Não quero que cresça
demasiado mas seja antes um grupo de gente que
tem a capacidade de trabalhar em qualquer parte do
mundo. Por isso nos chamam. Agora vamos para a
Índia.

Neste ponto da sua carreira o que mais lhe interessa?

Para mim a cidade é o que mais me interessa. Sempre
foi no fundo a minha preocupação. O que eu chamo o desenho urbano, do espaço público é para o que
me chamam mais e o que sei fazer melhor, é a minha
imagem de marca. Os «masterplan» é o que mais me interessa e sei fazer melhor. E construir com a colaboração de outros arquitectos. Construir só para mim já não me interessa, o ego já me passou. Só quando era
mais jovem.

Como vê o futuro dos arquitectos e da profissão?
Em Portugal é muito procurada.


Temos muitos portugueses a trabalhar connosco de
excelente qualidade, muito bem preparados principalmente os do Porto. Têm um nível muito alto, são inventivos tal como os italianos e os espanhóis pois é
uma disciplina que funciona muito bem nos países
latinos. O que será a arquitectura no futuro não o
poderei dizer pois este é incerto. Quando alguém segue
esta profissão e trabalha em culturas diferentes
não tem a mesma visão monolítica como tem o Banco
Mundial ou as grandes instituições mundiais.
Quando se vê os problemas de perto, constrói-se e
não se pensa que existe um sistema único no mundo.
Não se vê as coisas desta maneira, mas a partir dos
problemas reais de cada lugar, de cada país. Isto
dá-nos uma visão diferente do mundo, mais poliédrica
e mais complexa. No mundo emergente a hegemonia
americana pura que temos vivido nos últimos tempos
está a acabar. Uma só potência que manda no
mundo que controla e que põe uma ordem está no
final. Embora os americanos continuem a querer fazer
o papel de polícias do mundo. O futuro vai ser
mais complexo. A Europa terá um papel mais secundário,
mais tranquilo, do estado de bem-estar e pseudo-
utopias e o estado das liberdades como no século
XIX e depois temos os países emergentes como a China.
Na China está a fabricar-se metade da arquitectura
que se faz no mundo. A velocidade a que se está a
construir em Pequim émais rápida do que se fazia há
20 anos em Tóquio. A impressão que se tem quando
se chega a Pequim é a mesma que existia há 20 anos
em Nova Iorque. Na América Latina também já estão
a acontecer movimentos de conexões, comércios, culturas
e ideias que se cruzam em diferentes ordens.
Este mundo é complexo, difícil e diferente. Em algumas
coisas mais igual em outras mais diferente. Na
maneira de viver e na forma de vida uma pessoa numa
cultura africana nunca terá a mesmo estilo de
vida que uma pessoa em Nova Iorque.

Quer dizer que a globalização não chega à arquitectura?

Há globalização em certo sentido porque existem
correntes. Tanto emtermos económicos como em arquitectónicos existe uma certa globalização. Os modelos
não servem para toda a gente. A maneira de viver numa cidade africana ou numa como Paris ou Londres é que nunca será a mesma.

Vamos ter melhores cidades?

Creio que os nossos países são de cidades. Em Portugal,
Espanha, Itália as cidades têm um papel importante.
Lisboa está melhor do que há 40 anos.
O problema
destas cidades são os subúrbios
. Não existe planeamento para esta mancha que vai crescendo desordenada com a emigração que chega. Não há dinheiro para que se viva bem nos subúrbios. Os americanos têm subúrbios com casas com jardim. Os custos são elevadíssimos. Isto não é possível na maioria das cidades europeias com emigração. Existe uma boa qualidade de arquitectura. Portugal tem boa tradição na
arquitectura como por exemplo Ouro Preto, cidade
barroca feita pelos portugueses no Brasil. Em Brasília,
foi um modelo alemão.
O problema é que as cidades
continuam a crescer desordenadamente.


in Expresso
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a entrevista pecou por n ter sido acompanhada por imagens...espero que os avisos, por ele dado, tenha atingido a classe politica! refiro-me à entrevista no expresso e não aqui.

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