JVS Posted March 13, 2007 Report Posted March 13, 2007 Existe um mecanismo paralisante em Portugal O arquitecto espanhol Ricardo Bofill em entrevista ao Expresso revela que a tomada de decisão é muito lenta no nosso país. “A máquina administrativa trava o desenvolvimento em Portugal”. Portugal é um país de gente que sabe construir, mas existe um travão administrativoTEXTO DE FERNANDA PEDRO O espanhol Ricardo Bofill é um dos arquitectos com maior projecção a nível mundial. Em Portugal o seu projecto mais conhecido é o Atrium Saldanha, uma obra que já mereceu vários prémios. No seu ateliê em Barcelona, o arquitecto em entrevista ao Expresso falou dos seus últimos trabalhos e explicou a grande diferença entre projectar em Portugal e em Espanha.Qual é a diferença entre fazer um projecto em Portugal e em Espanha? Estar em Portugal, em Espanha, na Catalunha é praticamente o mesmo, é muito cómodo. Portugal é um país muito bonito e que se desenvolveu rapidamente. Eu recordo-me da Lisboa de antes e agora cresceu, mudou muito. E, apesar de um momento de maior desemprego, creio que vai recuperar. É uma cidade muito bonita, bem traçada ao lado de um rio fantástico com um centro histórico interessante, gente dinâmica e moderna e com vontade de fazer coisas. Contudo, existe um mecanismo administrativo paralisante em Portugal, não sei porquê. Todas as administrações bloqueiam sempre tudo. Aqui em Barcelona houve uma reforma administrativa na Câmara Municipal há 25 anos, reduziu-se o pessoal para um quarto e obrigou-se a responder e a dar as licenças em três meses. Foi um grande empurrão pois era um sistema que existia desde os anos 50. E quando falo com os políticos e os empresários em Lisboa fico com a impressão de que têm vontade de fazer coisas mas que existem muitos entraves administrativos. Temos construído alguma coisa em Portugal, existem projectos novos e interessantes, um que está ao lado da Expo por exemplo, fizemos o projecto e para ter a aprovação da Expo foi complicado. Não se entende muito bem porquê, o presidente da Câmara é muito simpático, o pessoal do urbanismo interessa-se mas é a máquina administrativa que trava o desenvolvimento e a qualidade em Portugal. Existem excelentes arquitectos em Portugal, empresas de engenharia muito competentes. Recordo-me de que quando estava em França os melhores encarregados de obras eram portugueses, é um país de construtores, de gente que sabe construir mas existe este travão e falta um pouco de urbanismo, de desenho urbano, de ter um pouco a visão da cidade. Digo sempre ao presidente da Câmara que Lisboa que tem este rio fantástico à sua frente e cidades assim, com elementos de água tão fortes como rio, mar, são cidades que não podem estar atrás. É como se a cidade estivesse atrás e só num ponto se assomasse. Há 20 kms e uma linha que deveria ser o sonho de qualquer arquitecto português poder pensar, que deveria ser tratada com consciência e qualidade, com operações rentáveis e economicamente viáveis.Tem em Lisboa um projecto, o COMPAVE... Propus fazer um edifício não muito alto, mas alto, pois já existia em frente um edifício do Sheraton dos anos 60, eu não concordo muito com um ponto alto, temos ido várias vezes a Lisboa para se chegar a uma conclusão e isto está a ser discutido, têm havido conversações mas tudo é muito lento. A tomada de decisão é muito lenta. Uma pena.Tem também um projecto em Porto Santo, do Grupo Siram. Como o caracteriza? Porto Santo é umlugar incrível. Uma coisa rara. No meio do Atlântico uma rocha vulcânica que sai de repente, nessa imensidão de paisagem e nota-se aí a força do Atlântico. É um sítio muito potente. Estamos a fazer aí um resort de muita qualidade e estamos a fazê-lo com arquitectos portugueses. Além de Porto Santo e Lisboa está a projectar outras coisas em Portugal? Havia qualquer coisa no Porto mas que não se chegou a concretizar. Gostaria de trabalhar mais com bons arquitectos portugueses e fazer uma equipa para desenvolver esta linha de rio (Tejo), poder fazer um trabalho de colaboração e demaior amplitude. Já construí em muitos países, mais do que construir edifícios dispersos gostaria de continuar a Expo, um sítio tão emblemático e dar-lhe um sentido a toda a estrutura linear. Por exemplo, existe a estação de caminho-de-ferro e um comboio que vai para o norte e corta uma estrada, existem uns barracões de um lado e umas construções do outro. Poder-se-ia fazer melhor, fazê-lo, por exemplo, subterrâneo. Tipo metro e a via podia ser uma via jardim e as vistas tornar-se-iam mais agradáveis.Qual é o maior projecto em que está agora a trabalhar? Bom, nós estamos a trabalhar em muitos projectos e sítios ao mesmo tempo. Por exemplo, um grande desafio complicado, em África, no Senegal, casas económicas e baratas, num país tropical e para gente com poucos recursos. Um edifício em Nova Iorque, ao lado do MOMA (Museu de Arte Moderna) numa das avenidas mais caras do mundo. Também terminámos um centro em Tóquio no terreno dos antigos edifícios da Toshiba e estamos a trabalhar muito em Pequim para os jogos olímpicos de Pequim na China. E também na Rússia, país que está a despertar. Estamos a fazer um projecto em São Petersburgo que é uma cidade lindíssima. Cidade bem traçada, neoclássica, bonita, elegante mas está um pouco velha. Os russos estão a despertar. Também Moscovo quer uma grande intervenção nossa na cidade. Já trabalhamos em 50 países diferentes. Esta é uma pequena, pequeníssima multinacional. Não quero que cresça demasiado mas seja antes um grupo de gente que tem a capacidade de trabalhar em qualquer parte do mundo. Por isso nos chamam. Agora vamos para a Índia.Neste ponto da sua carreira o que mais lhe interessa? Para mim a cidade é o que mais me interessa. Sempre foi no fundo a minha preocupação. O que eu chamo o desenho urbano, do espaço público é para o que me chamam mais e o que sei fazer melhor, é a minha imagem de marca. Os «masterplan» é o que mais me interessa e sei fazer melhor. E construir com a colaboração de outros arquitectos. Construir só para mim já não me interessa, o ego já me passou. Só quando era mais jovem.Como vê o futuro dos arquitectos e da profissão? Em Portugal é muito procurada. Temos muitos portugueses a trabalhar connosco de excelente qualidade, muito bem preparados principalmente os do Porto. Têm um nível muito alto, são inventivos tal como os italianos e os espanhóis pois é uma disciplina que funciona muito bem nos países latinos. O que será a arquitectura no futuro não o poderei dizer pois este é incerto. Quando alguém segue esta profissão e trabalha em culturas diferentes não tem a mesma visão monolítica como tem o Banco Mundial ou as grandes instituições mundiais. Quando se vê os problemas de perto, constrói-se e não se pensa que existe um sistema único no mundo. Não se vê as coisas desta maneira, mas a partir dos problemas reais de cada lugar, de cada país. Isto dá-nos uma visão diferente do mundo, mais poliédrica e mais complexa. No mundo emergente a hegemonia americana pura que temos vivido nos últimos tempos está a acabar. Uma só potência que manda no mundo que controla e que põe uma ordem está no final. Embora os americanos continuem a querer fazer o papel de polícias do mundo. O futuro vai ser mais complexo. A Europa terá um papel mais secundário, mais tranquilo, do estado de bem-estar e pseudo- utopias e o estado das liberdades como no século XIX e depois temos os países emergentes como a China. Na China está a fabricar-se metade da arquitectura que se faz no mundo. A velocidade a que se está a construir em Pequim émais rápida do que se fazia há 20 anos em Tóquio. A impressão que se tem quando se chega a Pequim é a mesma que existia há 20 anos em Nova Iorque. Na América Latina também já estão a acontecer movimentos de conexões, comércios, culturas e ideias que se cruzam em diferentes ordens. Este mundo é complexo, difícil e diferente. Em algumas coisas mais igual em outras mais diferente. Na maneira de viver e na forma de vida uma pessoa numa cultura africana nunca terá a mesmo estilo de vida que uma pessoa em Nova Iorque.Quer dizer que a globalização não chega à arquitectura? Há globalização em certo sentido porque existem correntes. Tanto emtermos económicos como em arquitectónicos existe uma certa globalização. Os modelos não servem para toda a gente. A maneira de viver numa cidade africana ou numa como Paris ou Londres é que nunca será a mesma.Vamos ter melhores cidades? Creio que os nossos países são de cidades. Em Portugal, Espanha, Itália as cidades têm um papel importante. Lisboa está melhor do que há 40 anos. O problema destas cidades são os subúrbios. Não existe planeamento para esta mancha que vai crescendo desordenada com a emigração que chega. Não há dinheiro para que se viva bem nos subúrbios. Os americanos têm subúrbios com casas com jardim. Os custos são elevadíssimos. Isto não é possível na maioria das cidades europeias com emigração. Existe uma boa qualidade de arquitectura. Portugal tem boa tradição na arquitectura como por exemplo Ouro Preto, cidade barroca feita pelos portugueses no Brasil. Em Brasília, foi um modelo alemão. O problema é que as cidades continuam a crescer desordenadamente. in Expresso Quote
Pd_M2 Posted March 14, 2007 Report Posted March 14, 2007 a entrevista pecou por n ter sido acompanhada por imagens...espero que os avisos, por ele dado, tenha atingido a classe politica! refiro-me à entrevista no expresso e não aqui. Quote
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