Dreamer Posted March 13, 2007 Report Posted March 13, 2007 Com mais um interessante artigo do sr. Rui Campos Matos, encerra-se um ciclo que o próprio define como "uma série em que ‘visitamos’ quatro casas: a casa Malaparte, do próprio Malaparte, a villa Savoye de Le Corbusier, a casa da Cascata de Frank Lloyd Wright e a casa Farnsworth de Mies Van der Rohe". Vale a pena ler e pensar sobre a importância e o fascínio que estas quatro "simples" obras exercem sobre (quase) todos nós... Quatro pequenas casas- de Rui Campos MatosRui Campos Matos(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção “Pequenas Casas, grandes arquitectos)publicado em 14 de Janeiro de 2007 ____________________________________ Este é o último artigo de uma série em que ‘visitamos’ quatro casas: a casa Malaparte, do próprio Malaparte, a villa Savoye de Le Corbusier, a casa da Cascata de Frank Lloyd Wright e a casa Farnsworth de Mies Van der Rohe. Nele tentaremos perceber o que nos podem ensinar estas quatro pequenas casas de quatro grandes arquitectos. Comecemos por Malaparte que é, entre todos, um caso singular. Jornalista e escritor de profissão, depois de ter despedido o arquitecto que contratara para construir a sua casa, transforma-se ele próprio em arquitecto de uma só obra ao reservar para si a tarefa de erguer o seu “auto-retrato em pedra”, como gostava de dizer. E, na verdade, solitária e agreste, enfrentando o mundo do alto do seu promontório, ela parece corresponder à imagem que o autor quis deixar de si próprio. Um belo auto-retrato, sem dúvida, que nos demonstra como o acto de construir, levado a cabo por um homem de cultura superior, pode resultar numa casa que é a celebração da sua própria personalidade, ou, se quisermos, daquilo que a sua personalidade tem de mais nobre. Moral da história (sob a forma de aviso a todos os analfabetos endinheirados): não tentem repetir esta experiência em vossa própria casa. Le Corbusier foi o arquitecto que mais manifestos escreveu sobre o que a arquitectura deve ser e como nos pode salvar a todos. É claro que a arquitectura não pode salvar ninguém de coisa nenhuma. Pode, quanto muito, apaziguar algumas das nossas ansiedades ou revelar-nos, por um instante e a certa luz, um episódio de beleza. Só a essa luz nos devemos imaginar no generoso terraço da Villa Savoye (e que ninguém duvide da sua luminosa beleza!), como passageiros no convés dum navio que navega entre copas de árvores; reclinemo-nos tranquilamente numa chaise-longue (de preferência na que Le Corbusier desenhou) dando graças a Deus por se tratar realmente de uma casa: é que o generoso terraço metia tanta água que, se se tratasse de um navio, ter-se-ia afundado logo que saiu do estaleiro. A inovação, em arquitectura, tem por vezes resultados imprevisíveis… A maioria das casas existem para nos abrigar da intempérie e dos olhares indiscretos do mundo, mas há algumas que, à semelhança de certas mulheres, parecem prometer-nos a felicidade. Ora, se “a beleza é uma promessa de felicidade”, como escreveu Stendhal, então, a mais bela das casas é, sem dúvida a Casa da Cascata. Embrenhada no seu bosque mágico, ela parece prometer-nos o mais feliz dos sonhos: o de viver em comunhão com a natureza. Paz, harmonia, tempo, tudo aquilo que perdemos na selva hostil em que se transformaram as nossas cidades está ali ao nosso alcance. Frank Lloyd Wright , talvez como nenhum outro arquitecto do seu tempo, parece ter tido a capacidade de materializar esse sonho. Qual a receita? Trabalhar sobre a sólida tradição da ‘country house’ anglo-saxónica, adoptar algumas das subtis soluções da casa japonesa, absorver criticamente os ensinamentos do movimento moderno e…ser um génio. O último ingrediente parece continuar a ser o mais utilizado por todos os arquitectos, infelizmente, sem grande sucesso… “Eu preciso de pouco, e esse pouco, preciso dele muito pouco.” Esta máxima, atribuída a S. Francisco, expressa o voto de pobreza, despojamento e essencialidade que tem ciclicamente assombrado o pensamento ocidental. A arquitectura, como todoas as artes, também contribuiu para o peditório. Mies Van der Rohe, autor da casa Fansworth, expressivo exemplar da sua estética do ‘beinahe nichts’ (quase nada) é, dentro dos modernistas do século passado, aquele que se encontra mais próximo dessa corrente, hoje reperesentada pelos arquitectos minimalistas. Superfícies nuas, ausência total de qualquer elemento decorativo, materias aplicados na sua crua essencialidade - madeira, pedra, aço, vidro – é quanto basta para atingir o ‘núcleo duro da beleza’ . S. Francisco teria gostado desta arquitectura, não fora o seu maior inconveniente: o preço. Na verdade, o pobre “quase nada” de uma guarda de varanda em vidro, custa três vezes mais que o rico quase-tudo de uma guarda em ferro cheia curvas, contra curvas, pinhas, flores, arrebiques e tudo o mais que for preciso para “enriquecer” uma varanda. Em arquitectura, nem sempre o que parece é… Então o que podemos concluir destes quatro ensinamentos dispersos? Em primeiro lugar que cada casa é um caso: não é possível generalizar. Em segundo, que, se nos preocuparmos fundamentalmente com o nosso conforto e gostarmos de ver a nossa futura casa discretamente integrada na paisagem, será melhor que evitemos contratar um arquitecto hiper-criativo, para o qual a procura do original e do ‘diferente’ pode ter resultados tão preocupantes quanto teria um médico ou um piloto da TAP hiper-criativos…Em terceiro, e último lugar, que a habitação unifamiliar é um luxo reservado a muito poucos, e ainda bem que assim é, porque, imaginar o território polvilhado de moradias ou uma cidade feita de loteamentos é de arrepiar. O lugar onde a grande arquitectura se confronta com os sonhos e pesadelos do nosso tempo, onde vale a pena amá-la, odiá-la e discuti-la, é a cidade e os grandes programas colectivos: edifícios de habitação, aeroportos, museus, templos, prisões, etc. Quanto às moradias, continuarão a ser terreno fértil de experiências para os arquitectos e de dores de cabeça para os seus clientes endinheirados. Nada que não se cure mudando de moradia ou de arquitecto. Links dos artigos aqui no fórum: Casa Malaparte - http://www.arquitectura.pt/forum/showthread.php?t=4268 Villa Savoya - http://www.arquitectura.pt/forum/showthread.php?t=4272 Falling Water - http://www.arquitectura.pt/forum/showthread.php?t=4266 Casa Farnsworth - http://www.arquitectura.pt/forum/showthread.php?t=4359 Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
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