Dreamer Posted March 7, 2007 Report Posted March 7, 2007 Os gavetos As cidades não são determinadas, em exclusivo, pela Arquitectura, mas esta nobre arte constitui um dos elementos estruturantes da sua forma e imagem, pela qualidade do desenho, organização do espaço e geração de ambiências vivenciais. A praça e a rua, os conjuntos de edifícios de alinhamento ou o destaque assumido pelas peças isoladas, marcam ambientes urbanos zonais que são referências de épocas e respectivos estilos arquitectónicos e construtivos, conferem qualidade estética e vivencial à estrutura reticulada que faz o corpo de uma cidade. No desenho dos prédios que amparam e afirmam a rua como elemento estruturante da cidade, assume particular importância a resolução dos cruzamentos e desembocaduras de ruas, que originam "gavetos", nem sempre bem resolvidos em termos urbanísticos e arquitectónicos. O gaveto, "the corner" como lhe chamam os ingleses, é, em termos espaciais e volumétricos, uma chegada e uma transição, dobra de uma rua sobre outra, cotovelo ou rótula entre espaços canais diferentes, na função, nas incidências de luz, nos ritmos de abertos e fechados, na afirmação de testemunhos arquitectónicos e construtivos com diferentes datas. Há várias expressões urbanas de desenho arquitectónico na resolução de gavetos, geometricamente assumidos no ângulo recto, abordando o canto voluptuosamente em curva, ou chanfrados com maior ou menor generosidade, sem que com qualquer destas soluções se diminuam ou engrandeçam comparativamente. É possível observarmos belos gavetos no encontro e cruzamento de ruas da nossa cidade, bem resolvidos, na relação de escala urbana, da proporção arquitectónica da construção, da textura e cor e durabilidade dos materiais usados. O Porto está cheio destes bons exemplos, desde Teodoro Maldonado e Marques da Silva, a Arménio Losa e Ricca, até recentemente a Siza Vieira com o fecho do "projecto da Bouça". Esta cidade tem belos cruzamentos de ruas arquitectonicamente bem resolvidos e pena é que as últimas décadas não tenham produzido tanto ou mais de idêntica qualidade, pois hoje constrói-se muito sem prévia e mínima observação do passado, o que quer dizer, sem cuidar pela afirmação de valores de cultura arquitectónica que estão aos nossos olhos e, por vezes, os arquitectos não os vêem. Sou um preocupado e atento, assim o penso, observador da cidade e encanta-me as surpresas que esta sempre me reserva, num permanente desafio ao olhar e ao critério estético de quem se disponibiliza a tal exercício. O Porto é uma escola viva de arquitectura e a crónica, hoje para aqui virada, pretende exemplificar esta asserção, no segmento urbano-arquitectónico dos "gavetos", com um exemplo notável, de uma obra do mestre Viana de Lima dos anos sessenta do século passado, no gaveto das ruas da Cancela Velha com Rodrigues Sampaio e onde a relação de diálogo do moderno com o pré-existente é exemplarmente estabelecido, no respeito pelo que antecede e na afirmação do que se propõe. Há uma tomada de escala do edifício existente pelo projectado que afirma bem este e honra aquele, afrontando depois a quebra e inflexão do encontro das duas ruas com uma força urbana e proporção estético-volumétrica notáveis, serenada de seguida mas sempre sem cedências na linguagem modernista, na frente de rua da Cancela Velha. Perguntará o leitor, mas porque traz a crónica este exemplo, quando haverá tantos em idênticas circunstâncias a merecer referência? O espaço não permite muito mais e, sendo assim, esta escolha posiciona-se num ponto central da cidade, voltado para os gabinetes de quem avalia a qualidade arquitectónica do que se produz nela, que, se reparar bem todos os dias, verá ali uma lição viva de qualidade arquitectónica, na resolução de um "gaveto", o tema escolhido para hoje. Na próxima, iremos a outros. Um artigo assinado por Fernando Oliveira. Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
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