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Eduardo Dâmaso

Por muito menos do que está a passar -se na Câmara de Lisboa foi desencadeada a "Operação Mãos Limpas", em Itália, e caiu a I República. Tudo começou na Câmara de Milão com um negócio menor, metaforicamente no sector dos lixos, e com uma personagem menor (Mário Chiesa) dos socialistas milaneses. Por cá, o ponto de partida é mais pesado: negócios perigosos entre a maior câmara do país e empresas de construção civil, ligações perigosas entre estas, o executivo e directores de serviços, desprezo absoluto pelas regras urbanísticas, hastas públicas de muito mau aspecto, protocolos que estilhaçam contratos-promessas e mudam o objecto destes, ou seja, assinam-se uns papéis para "o processo" e outros para interpretar o que lá se diz, enfim, um rosário interminável de suspeições.

Esta atmosfera irrespirável em Lisboa vai perdurar por muito tempo e ontem começaram as pequenas vinganças políticas entre Santana Lopes e Carmona Rodrigues, com a desmesurada ambição de Luís Filipe Menezes a correr em pano de fundo contra Marques Mendes. Sejamos claros: o PSD tem aqui um enorme problema, mas o PS também, sobretudo se a investigação sobre o vale de Santo António for aprofundada. O que está a passar-se no município lisboeta não pode ser ignorado pelas lideranças dos dois partidos ou tratado como uma mera questão local. Quando a maior câmara do país atinge este estado de caos político, financeiro e técnico, isso é um assunto de todos e quanto mais tarde acordarem para o problema pior.

E o que é mesmo mau neste caso é que ele representa um verdadeiro retrato do que se passa em Portugal nas relações entre a rapaziada do betão e o poder político, não apenas autárquico. Lisboa multiplica-se por Braga, Coimbra, Faro, Porto, o litoral em geral, onde se tornaram já muito banais as aberrações urbanísticas, os casos, as denúncias. Por isso se discute muito o combate à corrupção, por isso essa preocupação foi uma das bandeiras essenciais de Jorge Sampaio em Belém e, agora, de Cavaco Silva. É que já é mesmo impossível olhar em redor e não ver nada do que está a passar-se nas cidades portuguesas. E, já agora, a inércia dos estados-maiores dos principais partidos, porque, se repararem, estes assuntos só andam quando se mete gente que corre por partidos mais pequenos ou fora do aparelhismo partidário, como os vereadores José Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Nuno Gaioso Ribeiro. Mais ou menos como nas questões que metem a chamada "política de Estado", em que já se tornou moda ridicularizar vozes corajosas como a de Ana Gomes. Ou de Helena Roseta, ainda na denúncia do betão e da tal "nova moeda" que é a dos metros quadrados de construção. Tornou-se moda atacar os corredores solitários. Talvez porque, pela sua lucidez, persistência, honestidade e independência, acabem mesmo por se tornar incómodos. E disso A malta do betão e amigos não gosta mesmo nada.

Fonte: MyNetPress Ordem dos Arquitectos

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