Dreamer Posted January 12, 2007 Report Posted January 12, 2007 Bem sei que este projecto é por demais conhecido entre arquitectos e não arquitectos, bem sei que incontáveis artigos foram escritos e publicados desde os anos 30 do século XX, bem sei que mitos (não lendas porque essas remetem a um tempo mais longíncuo) envolvem hoje a história da "fallingwater", mas ao encontrar este artigo escrito num jornal madeirense, senti vontade de criar um novo ponto de discussão sobre aquele que para muitos será uma das melhores obras de arquitectura A Casa da Cascata - de Rui Campos Matos deRui Campos Matos(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção “Pequenas Casas, grandes arquitectos)publicado em 24 de Dezembro de 2006 ____________________________________ A Casa da Cascata Quando, em 1934, um rico industrial de Pittsburg encomendou o projecto da sua casa fim de semana a Frank Loyd Wright, o arquitecto estava práticamente sem trabalho. Depois dos grandes sucessos do início do século, dir-se-ia que a américa o tinha votado ao esquecimento. Com setenta anos de idade, a sua carreira parecia ter chegado ao fim. Estava então na moda o chamado ‘estilo internacional’ com o seu receituário ético e estético que misturava pré fabricação, funcionalismo, justiça social e coberturas planas. Para a nova geração dos modernistas europeus, Wright, o feroz individualista, o autor das sofisticadas moradias da classe média americana, era um arquitecto do passado, pertencia já ao século XIX. Quem diria, pois, que da encomenda do senhor Kaufman, iria nascer aquela que é hoje considerada a mais bela casa da arquitectura moderna do seculo XX, e que, em grande parte graças a ela, o seu autor tenha sido capa do Times em Janeiro de 1938? O sucesso da obra foi imediato e avassalador. Não era caso para menos. Se ao público americano Wright oferecia o idílio de habitar em harmonia com a natureza, aos colegas que tinham adoptado o ‘estilo internacional’ parecia estar a dar uma lição: - Betão armado? Cobertura plana? Depuração? É isso o estilo internacional? Então vejam bem o que se pode fazer com essa receita… Leigos e especialistas pasmaram: a obra prima de um grande mestre, sintese entre tradição e modernidade, a mais perfeita materialização do sonho americano, comunhão sublime entre natureza e obra humana, etc,etc… Com as suas longas consolas que levam ao limite a resistência do betão armado, a casa parece flutuar sobre a cascata. Mas a sua elegância não se esgota neste jogo abstracto de planos. Uma vez entrado, sob o tecto muito baixo do átrio, o olhar do visitante desloca-se inevitávelmente numa diagonal que atravessa a sala de estar e se prolonga para o exterior, sobre a água, por entre as árvores, alcançando, ao lonje, o céu. Esta sensação etérea de elevação é contrariada pelo peso de um chão de pedra rústico em que afloram os grandes maciços rochosos da cascata. Por detrás, a lareira, onde no inverno a lenha arde. Terra, céu, água, fogo – todos os elementos primordiais parecem ter sido convocados por Wright àquela sala para que nos confrontemos com a sua essencialidade. Apetece que chova, que neve, que o outono comece, ou que acabe um longo dia de verão. Apetece por ali ficar para sempre, ouvindo o ruido da cascata que ecoa em toda a casa como uma música obsessiva. Numa narrativa de contornos quase mitológicos, um dos reverentes discípulos do arquitecto resolveu registar o momento em que o mestre concebeu a obra prima. Consta que o senhor Kaufman, de passagem por uma cidade próxima do atelier, já agastado com as demoras, terá telefonado a saber se, finalmente, o projecto estava pronto. Sem nenhum traço feito, Wright, adivinhando que ele demoraria pelo menos três horas a chegar, ter-lhe-á respondido, perante o espanto dos presentes, que viesse, que o projecto estava acabado. Sentou-se então, calmamente, na mesa de desenho, e pediu que lhe trouxessem uma larga folha de papel de esquiço. Fez-se um silêncio reverente entre os discípulos, e todos rodearam o mestre. “ Eu fiquei do seu lado direito, afiando-lhe os lápis de cor – escreve Bob Mosher, o narrador – olhando fascinado para todas as linhas que a sua mão traçava: as verticais, as horizontais, sim, especialmente as horizontais…” E Wright desenhava sem grandes hesitações: aqui a lareira, o coração da casa, acolá o grande terraço balançado sobre a cascata, no piso superior os quartos…Era como se tivesse, gravados na memória, a localização precisa de cada árvore, o lugar onde cada uma das fragas aflorava, a agreste pendente da encosta. As ideias fluiam-lhe com a naturalidade com que flui a àgua de um regato entre carvalhos e azaleas. Quando o senhor Kaufman finalmente chegou ao atelier, o milagre estava consumado: - Eis o projecto da Casa da Cascata – terá dito Wright, baptizando-a com o nome com que ficaria conhecida para toda a posteridade. É claro que, a estas lendas, como a outras histórias de santos criadores, é preciso lê-las com prudência ou, falando em português comercial, dar-lhes um desconto de 40%. Nem tudo foram rosas neste milagre. A dada altura, Wright, num arrebatamento megalómano (a que hoje chamaríamos kitch) quis forrar a folha de ouro todas as varandas! Ao sol poente, o efeito teria sido no mínimo surpreendente…Como é óbvio, o cliente, que era quem pagava, não esteve pelos ajustes e foi aplicado um rebôco pintado a ôcre. As longas consolas em betão armado, flectiram, abriram fendas, a àgua penetrou…O senhor Kaufman, talvez num momento de má disposição, aludindo às sete irritantes fendas que o atormentaram todo um inverno, chamou-lhe a “casa dos sete penicos”. Mas tudo isto são historietas do passado. Para quê perder tempo com elas? Desde 1964 que milhões de peregrinos, vindos de todo o mundo, visitaram a casa, que hoje é um museu. Alguém duvida que estamos perante uma obra prima? Quote Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...
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