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Que loucura é esta que nos impele na quadra do Natal? Porque é gastamos tanto dinheiro que, na realidade, não temos, em coisas que, vendo bem, não fazem sentido? O que é que nos faz sentir completamente falhados na vida se não estamos estupidamente felizes na noite da passagem de ano? Manuel Villaverde Cabral, 66 anos, três filhos, uma neta, presidente do Conselho Científico e investigador coordenador de carreira do Instituto de Ciências Sociais (ISC) da Universidade de Lisboa, aprendeu com o seu mister de sociólogo a ver por dentro das coisas - até na simples anedota daquele menino a quem tudo fazia lembrar uma gaja nua. Como me recorda logo no início da conversa, o que lhe interessa é perceber porque é que o mundo, sendo horroroso, é assim: se estamos todos de acordo a esse respeito, porque é que nunca o fazemos melhor. E, por isso, as suas respostas para todas estas perguntas são muito bem lembradas. E não poderiam ser mais plausíveis.

Como quem vê dentro das coisas

SÁVIO FERNANDES

Pela primeira vez desde que me meti nesta aventura, o entrevistado foi inclemente e não me deixou mesmo fumar. Podia ter sido horrível, se o tempo não passasse tão depressa com este interlocutor de discurso fluente e conhecimento de causa fascinante. O ICS é um centro de investigação próspero e cheio de contratos (da última vez que vi o Manuel Villaverde, ele andava a fazer uns inquéritos para a Ordem dos Arquitectos destinado a apurar de onde vem, hoje, o arquitecto português), e isso nota-se em todo o edifício. Este gabinete é grande, arejado, com uma janela rasgada para o complexo universitário do Campo Grande por onde hoje entra a jorros o sol da quadra natalícia.

"Como é que podem dizer que a ciência está em crise?", pergunta ele enquanto acende a luz. "Este interruptor funciona, não funciona?"

Clara Pinto Correia - Vá, vamos lá ao trabalho. Como é que a sociologia pode explicar fenómenos tão estranhos como todas as loucuras do período Natal/Ano Novo?

Manuel Villaverde Cabral - Eu costumo dizer que a sociologia é o estudo das regularidades sociais. Esta regularidade estende-se a padrões aparentemente incontroláveis, como o suicídio: os homens suicidam-se mais que as mulheres, os adolescentes e velhos mais que os adultos, quem não tem família mais do que quem tem família, as classes baixa e alta mais que a classe média... o que quer dizer que, se fores mulher, de 40 anos, casada, com filhos, da classe média, é altamente improvável que te suicides. O poeta Mário de Sá-Carneiro, que se suicidou, tinha todas as características que tornam o suicídio provável. Como disse o Almada Negreiros, "não resistiu à violência do seu caso pessoal". Claro, é sempre uma ciência que funciona sobretudo post festum, numa análise em retrospectiva.

CPC - Então agora aplica lá essa grelha de regularidades sociais à quadra natalícia.

MVC - O mais simples de explicar é como as nossas sociedades são profundamente marcadas pela dicotomia trabalho/lazer, férias/não férias, dias úteis/finsde-semana: é uma formatação de momentos que condiciona toda a nossa vida. Estás a ver aqueles países do Norte da Europa, todos muito produtivos e correctos, em que as pessoas, por norma, se embebedam ao sábado à noite? Ou as bebedeiras de cerveja de sexta à noite dos estudantes americanos? Faz tudo parte da nossa formatação. Da mesma maneira, estamos formatados para entrar no estado da maior festa e também da maior despesa do ano exactamente neste período.

CPC - Mas isso não explica tudo.

MVC - Claro que não. Há raízes neste fenómeno que vêm da pré-história. O fim do ano, o fim das estações, a forma de prever cientificamente a data dos grandes fenómenos cosmogónicos, esta foi a sabedoria que se desenvolveu mais cedo em quase todas as culturas. Dedicou-se tradicionalmente muito tempo ao estudo dos astros, na convicção de que, de uma forma ou de outra, a nossa vida tinha alguma relação com eles. Houve varias civilizações que descobriram o ano de 365 dias independentemente umas das outras, por exemplo. Para um exemplo ainda mais preciso, posso dizer-te que o túmulo de Ramsés II recebe o sol de frente no dia do seu nascimento e no dia da sua subida ao trono. Foi puxado para cima quando se fez a barragem de Assuão, e nunca se conseguiu replicar esta precisão. Sempre se respeitaram os equinócios e os solstícios, e depois, há cerca de 2000 anos, fez-se coincidir o solstício de Dezembro, o dia mais curto do ano, com o Nascimento do Menino e com o fim do ano. Nesta altura, estamos evidentemente formatados para sermos felizes. Ninguém pretende seriamente que a felicidade total seja possível, mas podem criar-se momentos cuidadosamente preparados de felicidade. Já sabemos que, no dia seguinte, as prestações, os juros, os patrões, os cônjuges, as notas dos filhos - toda a realidade volta, para nos chatear. Mas, enquanto estamos no intervalo marcado pelo calendário, podemos esquecer tudo isso.

CPC - Mas pode-se ser feliz só assim, porque está marcado no calendário?

MVC - Então, nós sempre inventámos ou descobrimos bebidas alcoólicas e drogas. Deve ter morrido muita gente nestas experiências, mas estamos sempre à procura de disparadores instantâneos da felicidade. Até nas nossas construções sociais de datas, períodos, quadras, para nos aliviarmos do peso do quotidiano.

CPC - E a lógica capitalista que hoje governo o mundo? Não se incomoda com o intervalo?

MVC - O capitalismo aprova, encoraja, e sabe tirar partido, das férias e da quadra natalícia. Mas, por exemplo, já não quer saber do Carnaval ou da Páscoa para nada, porque nós não podemos estar sempre em festança. Não podemos ter dez pausas por ano, e por isso mesmo é que os nossos governantes nos dizem que temos feriados a mais... bem, eu, que me considero uma criatura bem formada, também acho que é forrobodó a mais. Estamos condicionados com a tal formatação da sociedade urbana, dependente do horário do comboio ou das regras de trânsito: o desiderato comum é que o outro gajo não venha para cima de nós. Aliás, repara que o gajo que está bêbedo na estrada já tem um seu quê de suicidário. Como bons católicos, nós, portugueses, matamo-nos pouco mas bebemos muito. Somos todos um pouco como o Fernando Pessoa, que se matou a beber.

CPC - Então e o delírio consumista que se apodera de nós nestes dias? Também faz parte da formatação?

MVC - A crítica à sociedade de consumo começou na década de 40 com a chamada escola de Frankfurt, criada em torno dos intelectuais judeus que se refugiaram nos Estados Unidos durante a guerra, numa altura em que o país já era extremamente rico e poderoso mas tinha pouca cultura. Atingiu o seu apex durante o Maio de 68, quando se denuncia o homem unidimensional, alienado ao consumo. Trata-se, fundamentalmente, de uma sociologia crítica, uma retórica de denúncia. Critica-se a televisão ainda antes de existir televisão em Portugal, o que se diz hoje da televisão disse-se antes da rádio ou das fotonovelas, afirma-se até que a última vez que a arte e a cultura popular convergiram foi com a "Flauta Mágica". Depois vem a massificação, e claro que isto começa a mudar: massificase até a arte mais elitista e etérea que imaginar se possa. A massificação joga forte na imagem de sucesso que insinua junto do público. Sabes que as pessoas dormiam, faziam filas de vários quarteirões, à porta do Prado, em Madrid, e vinham de muito longe, para verem uma exposição do Velasquez, quando 70 por cento dessa exposição estava sempre na colecção do museu, de graça? Houve um efeito de massificação da imagem da exposição. E sim, isso é uma.formatação.

CPC - Que nos atinge a todos?

MVC - Vamos lá ver: o consumo é o lado bom da sociedade produtivista. Porque trabalhar é que não é, de certeza. É na esfera do consumo, não na do trabalho, que o capital funciona bem. O "fordismo" nas fábricas de automóveis de Detroit ilustra bem o momento em que o trabalho se projecta no consumo: o operário que constrói o automóvel a seguir compra o automóvel para si próprio. Quando os operários puderam começar a comprar o seus Fords houve uma verdadeira mutação social: "O trabalho é uma porcaria horrível, mas, no fim-de-semana, com o dinheiro, eu o meu amante bebemos champanhe", dizia uma operária francesa da Renault. Grande parte da demissão dos regimes socialistas teve a ver com a incapacidade que a esquerda tem de lidar com o consumo, obcecada que está com o trabalho. É o acesso ao consumo de massas que faz o capitalismo vingar. E a esta ideia junta-se a do lucro que vem da circulação, através da chamada "obsolescência planeada": um dia destes dão-te o carro só para tu gastares gasolina para andar com ele.

CPC - Pelo menos, já fazem os carros para eles durarem cada vez menos tempo.

MVC - Na realidade, um carro normal dura anos e anos - como o meu, que já dura há sete. O que está realmente aqui em causa é um mecanismo quase kantiano, que se calhar até já foi estudado pelo António Damásio, a chamada "promoção relativa": se o meu vizinho mudar de automóvel, eu também tenho que mudar. Quero ter o mesmo que os meus seme- Ihantes, se não mesmo mais. Este mecanismo foi inicialmente identificado no sistema de promoções entre os soldados americanos. Explica porque é que na Índia ou no Brasil há menos revoltas sociais do que no Ocidente: o nível de pobreza é igual para milhões de pessoas, e assim não as incomoda. Mas, se fores o único pobre entre os ricos, aí revoltas-te de certeza. Porque é que os palestinianos se matam uns aos outros? Porque já perceberam que não conseguem chegar ao gajo de cima.

CPC - Mas vivemos sempre nessa relativização?

MVC - Sim, mas a partir de "grupos de referência": eu não comparo o meu dinheiro com o do engenheiro Belmiro do Azavedo, comparo-o com o dos outros universitários. Essa é a base de todas as manipulações publicitárias: porque é que uma gaja nua é usada para vender um carro? Ela não está incluída, mas é sinal de prosperidade. Repara, onde tu vês um bruto descapotável, a miúda que lá vai dentro costuma ser gira. Tenho uma aluna de pós-doutoramento que está sempre a dizer-me que eu devia ter um "bom carro", à altura do meu "estatuto sociocultural"... e isso faz-me começar a ser mais sensível à publicidade da Mercedes - o que, por sua vez, me faz sentir que estou a ficar rico.

CPC - OK, mas a gaja nua já é espectáculo de graça.

MVC - Não é nada. É a transformação da sociedade em espectáculo, que é diferente. Tudo, agora, é um espectáculo. A política, por exemplo, é um espectáculo. Bem... é uma farsa, porque uma tragédia não pode repetir-se muitas vezes sem se transformar em farsa, com um grupo de chefes corruptos, ineptos e cleptocratas. E já pensaste bem na política de Itália, um país civilizado a todos os títulos? A justiça também é um espectáculo, como demonstra exemplarmente o caso Casa Pia, porque a malta quer mesmo sangue. E assim por diante. Acabamos com uma sociedade que é o espectáculo de si própria. Eu imito o outro, o outro imitame a mim. É isso mesmo que são os nossos centros comerciais: as pessoas vão lá ver-se umas às outras. Podem não ter dinheiro, devido aos sérios problemas económicos que hoje atingem os portugueses honestos (achas que ainda serão cinquenta por cento da população?), mas podem sempre assistir ao espectáculo uns dos outros. Verem-se uns aos outros só a olhar para as montras garantes-lhes que não estão acima nem abaixo de ninguém, o que é a definição por excelência da classe média. E sabes o que é que os sociólogos descobriram? Que isto reforça os laços de família!

CPC - O que é muito bonito, mas não deixa de fazer toda a gente dizer que devíamos era ser anexados pela Espanha, exactamente porque não podemos comprar nada.

MVC - É verdade, mas Portugal é um caso limite. Seremos o mais pobre dos ricos, ou o mais rico dos pobres? São duas coisas muito diferentes. Nos últimos dois anos passaram-nos à frente cinco países da União Europeia, o que aliás só pode ser imputado à falência da nossa classe política. Há outros que vão passarnos à frente em breve. Ficamos sem grupo de referência, e para onde é que nos viramos? Para Espanha, claro, que é o vizinho rico que está aqui mesmo ao lado e chegou onde nós não chegámos. Mas isso é porque ninguém se compara com o Congo. O grupo de referência não pode ser escolhido: é mesmo o que é mais parecido com o nosso.

CPC - Mas qual é a tua versão para porque é que não chegamos lá, já agora?

MVC - Portugal tem 15 por cento de analfabetos, uma coisa que na Suécia já desapareceu há 120 ou 130 anos. E isto já no momento do tempo acelerado, e não propriamente na Idade Média! Temos testado muito a iliteracia funcional dos portugueses, como verificar se as pessoas sabem ler e contar. Em Portugal não há 50 por cento de pessoas com domínio fluente da língua escrita e falada, ou capazes de deduzir mentalmente coisas tão simples como percentagens de desconto - isto mesmo de lápis na mão, e mesmo entre licenciados. Ou seja, aquilo que nós temos é, maioritariamente, uma população em trânsito "entre nada e coisa nenhuma". Uma sociedade que perdeu as raízes e as referências rurais mas nunca se urbanizou completamente, e que por isso mesmo vive num vasto deserto povoado por muita, muita gente. O imaginário é escasso, o investimento intelectual é mínimo, a vertigem do objecto é imediata: estamos a falar de uma população sem fantasias. É esta gente que pára os carros diante da praia, no Inverno, e fica lá dentro a vegetar: os homens lêm "A Bola", as mulheres tricotam. O pensamento está fechado. Querias chegar onde, desculpa?

CPC - Eh pá, chega! Boas festas!

MVC - Para ti também. E agora vou entrar no estado etílico próprio da quadra. Não falem comigo até depois do Ano Novo.

Fonte: My Net Press Ordem dos Arquitectos
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Grande reportagem... grande tema nesta ocasião de pós festas... revejo-me em algumas palavras, mas fico contente por estar bastante afastado de outras...

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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