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(E os diplomatas da profissão que me vão assolar a existência pela ousadia em colocar figuras tão distintas da cena arquitectónica internacional no mesmo título).


Quanto vale a imagem de uma cidade? A questão é pertinente.
A impressão digital de um lugar com grande expressão territorial é interpretada através da arquitectura. Num contexto mais vasto do que o mero conceito arquitectónico, uma cidade é exteriormente valorizada pelo seu desenho.
E assim se criam os estereótipos, desde as pirâmides egípcias ás linguagens modernas da Europa no pós-guerra é a arquitectura que nos oferece a imagem do lugar, é o pretexto para as nossas viagens imaginárias e o contexto que se visita posteriormente, com maior ou menor desilusão relativamente aquilo que a fotografia ou o vídeo nos mostrou.
Sempre considerei Portugal um país com poucas referencias no que à arquitectura propriamente dita diz respeito, mais tarde, nos tempos de faculdade, percebi e entendi o porquê. Investimos sempre muito mais em politica do que em construção, da fundação aos descobrimentos, dos Filipes a Salazar, a regra passou sempre por privilegiar (ou não) o País no seu sentido político em detrimento do investimento no território (à excepção das fortificações e monumentos religiosos).
E isso percebe-se quando se comparam imagens a grande escala de Madrid, Barcelona ou Paris com Lisboa e Porto. Há uma clareza no desenho das primeiras muito superior ao desenho orgânico das nossas cidades, o que, no caso não constitui vantagem ou desvantagem, são politicas diferentes, disposições diferentes, economias historicamente diferentes. A discussão do ponto de vista qualitativo é tão subjectiva que não me atrevo a fazer opinião bem fundamentada sobre as respectivas mais valias no que à simples interpretação urbana dos lugares diz respeito.
No entanto sobrevive a questão da identidade do lugar onde o postal das nossas cidades dificilmente se associa a um lugar que se reconheça com facilidade. É esse o papel da arquitectura e onde as sucessivas politicam territoriais não contribuíram para um engrandecimento arquitectónico do nosso país.
O processo de criação de um ícone faz-se, regra geral, de forma acidental. É o tempo quem se encarrega de categorizar uma determinada peça, como aconteceu com a torre do relógio do palácio de Westminster, o famoso Big Ben, ou com a monumental praça de S Pedro no Vaticano, ou como acontece com as grandes obras da antiguidade, das mais belas construções indígenas do centro e sul-americano à arquitectura árabe e oriental. Do mesmo modo, existem as peças que foram concebidas para se tornarem ícones e que sobreviveram ao tempo da sua concepção, como a Torre Eiffel em Paris ou o estranho Atomium em Bruxelas, construídos para duas exposições mundiais e que constituem hoje ícones fotográficos das respectivas cidades.


Em Lisboa, as duas grandes obras com vocação turística datam do tempo dos descobrimentos, estão em Belém e são visitadas anualmente por milhares de pessoas mas nem por isso constituem marcos territoriais que se reconheçam como parte marcante da nossa paisagem, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos são no fundo dois brilhantes exemplos da história repetida da nossa “arquitectura do desenrasca” mas que se mantiveram tranquilamente como ícones da nossa existência, se por um lado o Mosteiro constituiu notável desenvolvimento construtivo das igrejas salão da época, não é menos verdade que é um exercício atarracado de arquitectura Gótica, como o eram todas as obras de época devido à crónica falta de fundos, a mesma crise que impediu a construção da torre gémea à torre de Belém que deveria constar do outro lado do rio mas que nunca foi edificada.

O grande ícone moderno da arquitectura de Lisboa é inevitavelmente o conjunto das Torres das Amoreiras, edifícios de gosto duvidoso e de autoria vulgarmente considerada manhosa, foram durante anos o rosto de uma arquitectura destacada por entre o skyline da capital e assim se manteve até à exposição internacional de 1998, o que nos leva a mais do mesmo, onde de entre toda as obras edificadas se pauta a horizontalidade do pavilhão de Portugal e do pavilhão do conhecimento dos mares, edifícios concebidos respectivamente por Álvaro Siza Vieira e João Luís Carrilho da Graça, dois dos nomes maiores da arquitectura pós-moderna portuguesa.
O pretexto da exposição não foi suficiente para que se registasse uma aposta mais ousada e concreta no terreno escolhido, ficámo-nos pela Torre Vasco da Gama, um exercício banal e bastante discutível. Posto isto e sobrevivem as Amoreiras no alto de Campolide, a imagem mais destacada da arquitectura moderna Lisboeta.
No norte, para lá de todas as discussões, o Porto 2001 constituiu um verdadeiro veiculo de arranque na interpretação da cidade moderna, a oportunidade foi aproveitada e assim nasceu o pretexto para uma construção com escala citadina e vocação urbana, do Office for a Metropolitan Architecture de Rem Koolhaas surgiu a Casa da Música, que ironicamente havia sido desenhada para ser uma habitação à qual foi aplicado um exercício de escalas e que resultou naquele que é hoje um ícone da cidade, mais do que um exercício de arquitectura de autor, a Casa da Musica contribui para a interpretação moderna de uma cidade que procura renovação e que alcança através da criação de novos marcos territoriais que se interpretam por habitantes e por turistas, para lá de todas as discussões e opiniões contrárias, como uma referência do olhar, e não só como uma sala de espectáculos.
Para lá de todas as derrapagens, o Porto 2001 ofereceu à cidade do Porto um novo ponto de vista sobre si mesma enquanto que a Expo 98 constituiu um mero exercício de uma frente degradada da cidade de Lisboa que apesar da excelência da sua execução resulta hoje numa amalgama de arquitecturas estranhas e sinuosas, insuficientes para subverter a presença incomoda do espectro Taveira que continuará, à falta de melhores ideias, a assombrar as mentes bem-educadas dos teóricos da arquitectura que teimam em não aceitar o homem, e, vergonha das vergonhas, é ele quem ombreia com Koolhaas, guru espírita da arquitectura moderna. Ele, Taveira.



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