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Bem, só dei este título ao tópico para dar seguimento ao tópico relacionado com o cinema. De qualquer maneira, quando recuperava o comentário antigo que fiz ao filme sobre o Corto Maltese que o asimplemind referiu, descobri dois comentários a dois livros que li que me apetece colocar aqui. Porque, me parece, o seu autor, ainda que já por várias vezes reconhecido, não é ainda suficientemente conhecido. Isto não muda nada, de qualquer maneira, é um comentário pessoal: Posted: Mon Oct 10, 2005 8:49 pm Título: UrsaMaior Auto: Mário Cláudio Editora: D.Quixote Não é o melhor romance que já li na minha vida, mas não estava a espera que fosse... Mário Cláudio (prémio Pessoa 2004) é um escritor competente, se é que competente é um adjectivo com que possamos classifcar a obra de arte, que o livro, ao classificar-se romance, imediatamente passa a aspirar a ser. Ele espcreve numa prosa sóbria, nem sempre pragmática, nem sempre suficientemente clara, por vezes demasiado rebuscada, mas com uma grande correcção gramatical e uma grande adequação lexical, numa procura dos discursos e expressões adequadas a diferentes personagens de diferentes extractos sociais, etários e culturais. Este livro é todo acerca de reunir sob o mesmo espectro da delinquência, muitas vezes da imoralidade e outras tantas da incompreensão de quem assiste, todo um grupo de pessoas que, por um motivo ou por outro se reunem por fim na prisão, a casa de quem não cumpre, o garante da justiça, o bode expiatório dos pecados da sociedade. É uma reflexão contemporânea acerca de crime, de motivações para o mesmo, de inversões de valores numa sociedade onde a falta de crença e de motivação para o que é oficial, o que é normalmente aceite e o que é "moral" faz com que os valores sejam postos em causa e rejeitados por quem, em consequência, se torna marginalizado e ultapassado. O livro fala, a meu ver, de como a sociedade se pode tornar uma mãe que come os próprios filhos, ignorando as suas próprias responsabilidades na educação desses filhos. Fala de como seres humanos se tornam monstros, como seres humanos vivem em selva, sem rei nem lei, como seres humanos se desligam do mundo, de como seres humanos recuperam a dignidade... Fala de seres humanos. É o primeiro de uma triologia, que, a seu tempo, eu acabarei de ler. Não é indispensável ler este, mas consegue-se apreciá-lo e consegue-se reflectir sobre ele.

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Posted: Sun Nov 27, 2005 9:04 pm Título: Oríon Autor: Mário Cláudio Editora: D.Quixote Terminei recentemente de ler este Oríon, o segundo desta triologia que finaliza com outra constelação, Gémeos. Oríon, na minha opinão, ultrapassa em quase todos os parâmetros que consigo analisar o primeiro livro, Ursamaior. Mais uma vez o escritor utiliza como fio condutor e unificador da obra uma das cosntelações de sete estrelas, e segue as vidas de sete miúdos, unidos por um destino semelhante. Sete crianças deportadas para "os horrores de S.Tomé", como seria conhecida esta ilha no séc XV para onde a narrativa nos envia. S.Tomé, na descrição do autor, simula o paraíso, uma ilha original, onde todos os acontecimentos são os primeiros, onde todos os pecados nunca foram cometidos e, fundamental, explora as relações de cada um com o poder que vão tendo. Todas as personagens, independentemente do seu fim mais ou menos trágico, estabelecem na sua vida relações especiais com o poder, todos eles se tornam proprietários, materiais ou de conhecimento que lhes permitem superiorizar-se em relação a um grupo de pessoas que controlam ou respeitados por um grupo maior que os teme ou venera. Assim surgem proprietários de engenhos de açúcar, prostituta, feiticeira, chebe de tribo ou traficante de escravos, cada um com uma resposta diferente a uma tábua rasa comum a todos, todos judeus, todos deportados no mesmo barco, para a mesma ilha. Em termos mais gerais, o livro representa, para mim, uma refexão muito sensível e interessante acerca de todos os caminhos que a alma e o corpo do Homem pode tomar perante premissas iguais. As múltiplas maneiras que a sobrevivência encontra no meio da selva (não me refiro a vegetação, refiro-me a sociedade, refiro-me a civilização) para subsistir, e como deter poder pode ser a forma mais eficaz de sobreviver. Se não podes vencê-los, junta-te a eles. Pessoas que foram vítimas de poderes não derrubáveis tornam-se, elas mesmas, detentoras de um poder que outros vão sentir. Os erros repetem-se, em gerações diferentes... Aconselho muito este, não muito extenso, o estilo de escrita bastante denso de Mário Cláudio ganha aqui contornos mais apaixonantes e faz esperar curiosamente o desfecho da triologia e a visita às obras mais antigas (e futuras já agora) deste excelente autor. Uma vez mais, também aqui os comentários tem já uma dada passada... espero que sejam de utilidade para quem os ler

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