Sou contra o aborto, tenho 24 anos, uma vida sexual activa e tomo a pílula (correctamente) desde os 17 anos. Não sei se algum dia irei ter filhos (a ideia maravilha-me, mas n sei se reunirei as condições ideiais para os ter), mas agora não quero. Mas se a pílula falhasse (1 hipótese em 1000) e eu engravidasse, o mais provável era levar a gravidez até ao fim, porque ainda que não queira e ainda seja dependente financeiramente, consigo (com ajuda da minha mãe) reunir condições (não as ideias, mas as possíveis) para criar um filho. Mas tenho consciência que sou privilegiada.
Por o aborto passar a ser despenalizado eu não vou mudar a minha opinião, assim como as pessoas que abortariam, por ser crime, n vão deixar de o fazer. Só que há 2 tipos de pessoas nesse grupo, as "ricas" e as "pobres". As ricas vão a espanha ou pagam a um médico de uma clínica privada cá. As pobres, enfiam objectos pela vagina acima, ou tomam comprimidos, sem apoio, sem informação, sem condições... umas conseguem (mas continuam a n ter acesso ao planeamento familiar, a informação detalhada sobre o que fizeram), outras não e ou vão parar ao hospital ou morrem (como uma miúda de 14 anos que tomou 30 comprimidos para o estômago, sabendo que eram abortivos).
Há mulheres que engravidam e não reúnem as condições que eu reúno, pior, têm pessoas à sua voltam que as ostracizam por terem engravidado (o namorado que acaba a relação, o pai que bate, a mãe que expulsa de casa...). Não são capazes, nem emocionalmente, nem financeiramente de criar um filho. Então decidem abortar. Essas mulheres têm de ter acesso a instituições, que lhes forneçam informação, que as encaminhem para instituições de apoio à maternidade ou que lhes interrompem a gravidez e dêm apoio psicológico e consultas de planeamento familiar.
Mas então e o feto? perguntam vocês, ninguém o protege? Mais do que à mãe, não! 1º porque como vamos permitir que nasça indesejado (isso é protecção?); 2º porque quase 50% das gestações resultam em aborto espontâneo 3/4 dos quais nos 3 primeiros meses (o feto, pode nem vir a ser pessoa e a mãe já é)...
Eu acho que trazer uma criança ao mundo é uma responsabilidade enorme e a criança tem de ser desejada, não pediu para nascer.
Mas isso és tu, dizem vocês, mas há mulheres que, tal como tu, reúnem condições para criar um filho e nem sequer tiveram cuidado, nem utilizaram contraceptivos e por opção, porque não dá jeito, querem fazer um aborto. Sim, é verdade, também vão haver mulheres "dessas", é inevitável, mas se forem obrigadas a ter consultas de apoio psicológico e planeamento familiar, até pode ser que o médico lhes dê um raspanete e elas se manquem... ou talvez não. Mas não podemos continuar a permitir que as outras, as pobres, sem informação e sem apoio, continuem a morrer por negligência nossa, por fecharmos os olhos.
A pergunta do referendo está mal feita, mas eu voto SIM. Se o sim ganhar não chega, é preciso legislar.
Eu acredito, que com legislação, apoio e informação, o aborto possa diminuir.