Pallet Shelter Filipe Melo e Oliveira | Arno Geesink Memória Descritiva Quando se pensa em cidades há a tentação de reflectir-se sobre cidades europeias, desenvolvidas, industriais, mas muitas das cidades mundiais são aglomerados populacionais caóticos, perigosos e, acima de tudo, sem condições de habitabilidade, muito menos de um modo temporário. A nossa reflexão sobre um espaço temporariamente habitável dirige-se para cidades em que os conflitos sociais são mais profundos, em que o desespero pela sobrevivência é mais patente. Propomos, por isso, um abrigo temporário – cerca de dois a três dias –, com 19,44 m3 úteis habitáveis, para comerciantes ambulantes, mercadores e agricultores, que constantemente se deslocam entre cidades, em mercados semanais locais ou regionais, em cidades africanas em desenvolvimento, como o Zimbabué, Moçambique, Quénia e Tanzânia. O abrigo foi pensado para ser montado em praças públicas onde normalmente já ocorram mercados, podendo agrupar-se em bandas, traseiras com traseiras, com um espaçamento de cerca de dois metros entre bandas, para que essa pequena “rua” seja apenas de acesso e de serviço aos abrigos. O abrigo é de fácil construção, reciclando paletes de carga em madeira (modelo Euro Palete 1,2m x 1m), muito utilizadas no transporte de ajuda humanitária, e aproveitando folhas de árvore como a borracheira, a bananeira ou a palmeira para cobertura. Cada espaço pode ser ocupado até 2 pessoas e inclui uma banca de exposição de produtos amovível – cujo vão que ocupa é fechado à noite e quando o abrigo é desocupado – e duas camas em beliche que servem também como elementos de travamento estrutural. As paletes de madeira que definem o espaço permitem a criação de jogos de luz e sombra, com a entrada de luz natural pelas paredes, e a ventilação e salubridade do interior do abrigo, nos climas quentes africanos. A ideia subjacente ao uso é a de que o abrigo não é de ninguém, é de todos. Cada indivíduo abre, entra, fecha, usa, abre e deixa. Só há forma de trancar o abrigo pelo interior – exclusivamente por razões de segurança e de protecção dos bens –, na porta e na bancada que se transforma em parede, com trincos simples de deslizar. Não é por isso possível exercer posse sobre o espaço. O espaço é de todos os que o usem! Deste modo, os mercadores ambulantes poderão ter um sítio mais digno para pernoitarem temporariamente, para salvaguardarem os seus bens e exercerem a sua actividade mercantil ambulante mais facilmente, em cidades em vias de desenvolvimento, em África.