JVS Posted May 20, 2009 Report Posted May 20, 2009 Uma Casa da História Europeia por Vasco Graça Moura 06 Maio 2009 Sendo a História uma construção intelectual, a questão política pode pôr em risco a isenção e o equilíbrio do projecto Arrancou esta semana, em Estrasburgo, o projecto de uma Casa da História Europeia (CHE), no seguimento de uma ideia do actual presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Pöttering. Fui designado pela Comissão de Cultura e Educação do PE para o cargo (gratuito) de membro de conselho de administração da CHE, em que serei substituído logo que entre em funções o novo parlamento. Esse conselho entrou ontem (terça-feira) em funções. A minha ligação pessoal ao projecto será pois muito efémera e não de todo isenta de dúvidas quanto à concepção, aos objectivos e aos recursos necessários. Nas palavras de Pöttering, o objectivo é o da criação de "um local em que possa frutificar o ideal europeu" e onde sejam "tratadas a nossa memória da História da Europa e a obra de unificação europeia, que simultaneamente viabilize a construção da identidade da Europa pelos actuais e futuros cidadãos da União Europeia". Mas um dos objectivos principais é político: "a casa da História Europeia deve ser vir o objectivo da educação política de todos", diz o comité de peritos. Sendo a História uma construção intelectual, a questão política, ou da educação política, por muitos méritos que lhe reconheçamos, pode pôr em risco a isenção, a objectividade e o equilíbrio do projecto. É certo que o mesmo comité de peritos entende dever ser conferida "prioridade absoluta à independência cien- tífica e à objectividade da apresentação", assentes em conhecimentos e métodos científicos, embora também diga que a CHE "não deve levar a efeito actividades de investigação fundamental stricto sensu". O comité de peritos começa por apontar como um dos grandes objectivos da CHE o de "aprofundar os conhecimentos dos europeus de todas as gerações sobre a sua própria história e, deste modo, concluir para uma melhor compreensão da evolução da Europa no presente e no futuro". Só que esta orientação é logo condicionada porque a "instituição deve tornar-se um local que dá vida à ideia europeia" e também pela concentração no período que vem de 1914 até hoje. Não consegui descortinar dos documentos se a CHE será edificada em Bruxelas ou em Estrasburgo. Tudo indica que deveria ser Bruxelas, mas nunca se sabe… Sabe-se que o concurso de arquitectura será lançado em 2009 e que a CHE deve ser inaugurada em 2014. E o empreendimento é avultado. A CHE deve acolher uma exposição permanente sobre a História europeia, repartida por uma área de cerca de 4 mil m2, bem como espaços destinados a exposições temporárias", mais um centro de informação com informação complementar sobre o passado e o presente da Europa. Podendo cada deputado convidar até 95 visitantes por ano, isto significa que, actualmente, o PE é visitado anualmente por mais de 73 mil pessoas e que estas serão o alvo preferencial das iniciativas e da exposição da CHE. Neste aspecto as coisas variarão muito consoante a sede da CHE seja Bruxelas ou Estrasburgo… O comité de peritos, de que faz parte o escritor e historiador António Reis, elaborou os fundamentos conceptuais e museológicos do projecto. O documento, aprovado em Setembro de 2008, é muito interessante e aponta, como mensagens prioritárias da CHE, "a ampla rejeição e superação dos nacionalismos, da ditadura e da guerra, bem como a vontade, surgida nos anos 50, de viver em paz e liberdade na Europa e ainda a criação de uma união supranacional de natureza civil", o que é mais do foro da ideologia do que do da História... E fala-se da construção de um verdadeiro museu, com colecção própria e inserção prevista no circuito das permutas internacionais, cujo cerne será a exposição permanente da CHE. Mas, atenção!, será apresentada "essencialmente a História europeia no período compreendido entre a Primeira Guerra Mundial e a época contemporânea" na tal área de 4 mil m2. Os peritos dizem ainda uma coisa de que discordo profundamente: "não é absolutamente necessário, do ponto de vista de uma melhor compreensão do futuro e do presente por parte dos visitantes, fazer remissões para as raízes do continente e a Idade Média, bem como para os tempos modernos". Com este encurtamento da memória, como é que os visitantes hão-de poder conhecer-se mais a fundo como europeus, naquilo que os une e naquilo que os distingue? in http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1223015&seccao=Vasco%20Gra%E7a%20Moura&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco Quote
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