JVS Posted March 23, 2009 Report Posted March 23, 2009 Júlio Quaresma desenha santuário angolano de Muxima Hoje O arquitecto e artista plástico Julio Quaresma apresentou ao Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, e ao Papa Bento XVI o seu projeto para o Santuário da Nossa Senhora da Muxima, próximo do Rio Kuanza e centro do mais importante culto mariano em Angola. Assumido como um diálogo entre a velha capela do século XVII e a modernidade, o novo templo, com vitrais de artistas angolanos, tem capacidade para 4600 pessoas sentadas e estrutura-se a partir de três formas geométricas básicas: o quadrado (Terra), o circulo (céu) e o triângulo (Santíssima Trindade) . Anexo ao corpo principal desenvolve-se um outro, que funcionará como residência para religiosos e acolherá alguns serviços de apoio. “Uma enorme cruz em bronze marca, na projecção dos seus braços, as entradas e simultaneamente na cobertura em circulo, como que atravessa o céu, rompendo-o e delineando o elemento como um símbolo do caminho da luz”, pode ler-se no comunicado enviado à imprensa. A praça do santuário, delimitada pela antiga capela e pela nova igreja, está preparada para receber os cerca de 1200 mil fiéis que costumam assistir às festas da Senhora da Muxima. De acordo com os promotores, “se o plano do santuário foi construído na óptica da harmonia entre o homem e Deus, a sua inscrição num espaço urbano levou à requalificação de toda a estrutura existente, em que a génese informal e a construção sem qualidade dará lugar a um master plan, que pensado em termos de sustentabilidade, respeito pela tradição e movimentos de ocupação e uso do espaço urbano e pelos edifícios históricos existentes, trará a toda esta população o acesso a uma habitação condigna, um novo lar”. Acesso a água canalizada, rede eléctrica, rede de esgotos e equipamentos (como escola e centro médico são valências contempladas nesta obra de grande envergadura, que “dignificará e projectará o culto da Nossa Senhora da Muxima em todo o território angolano enquanto referência em África e no mundo”, acrescenta o comunicado. in http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1179457&seccao=Arquitectura Especial Bento XVI recebe uma basílica como prenda dos angolanos por FERREIRA FERNANDES, em Luanda21 Março 2009 Bento XVI retribui a primeira visita de um embaixador da África Negra a Roma, a do angolano António Manuel ne Vunda, em 1608. O presidente angolano referiu a velha ligação histórica: Angola e Igreja Católica, duas velhas conhecidas. Em Luanda, onde foi recebido por José Eduardo dos Santos, pediu o fim da corrupção. O padre Aurélio Bemba acabou de se ordenar há um mês. A irmã Maria de Fátima está na igreja que foi sempre a sua, onde se baptizou em 1935, e à qual se dedica desde que, adolescente, se encantou com uma missa dos capuchinhos. Ele tem jeans e uma T-shirt azul eléctrica marcada no peito com pins metálicos dourados que dizem "V. ROM". Alguma sigla em latim? Ele ri: não, comprou-a na rua, gostou. A irmãzinha olha-o como uma velha tia. No recreio onde estão, há um cartaz fotocopiado: "Estão suspensas as actividades desportivas no pátio e no Boulevard Bento XVI, para poder manter limpos os ambientes para a visita do Papa à nossa paróquia." É quase um pecado suspender as actividades desportivas naquele pátio. Ali, aprendeu a jogar futebol Jacinto João, o maior driblador da história do futebol português, que passou pelo Benfica nos anos 60 e tem estátua no estádio do Vitória de Setúbal. Ali era o campo pelado do São Paulo, anexo à velha igreja e ao lar dos frades capuchinhos, os das sandálias e batina de castanho grosseiro. A nova igreja (não tanto assim: é de 1959), erguida ao lado, é a que hoje vai receber o Papa Bento XVI que ontem chegou a Luanda. Bento XVI vem retribuir uma visita. Na verdade, vem retribuir mais uma vez. Já João Paulo II estivera em Angola, em 1992, vivia o país um intervalo de paz de uma guerra civil que durou quase trinta anos. Dessa vez, João Paulo II chegou pelo cacimbo, antes do Setembro das primeiras eleições, desceu as escadas do avião e beijou o solo. "Agora, se o Papa quiser ajoelhar e beijar o chão, lhe agarro, traz azar", é uma anedota que corre em Luanda. Há 17 anos, depois daquela visita papal, seguiram-se eleições turbulentas e Angola recaiu na guerra que durou mais uma década até à morte de Savimbi. Hoje, é pouco provável que o MPLA, partido do Governo, e a UNITA, de amansada oposição no Parlamento, voltem às armas. Mas a piada corre porque o luandense prefere provocar o destino a perder a oportunidade de uma anedota. Em todo o caso, Bento XVI retribui uma visita. Em 1608, o Papa Paulo V recebeu António Manuel ne Vunda, marquês do Congo, do reino que é hoje província do Norte de Angola - a primeira embaixada da África Negra recebida em Roma. António ne Vunda ia a mando do rei Afonso II, bisneto desse Afonso I que os portugueses encontram em 1491 na capital do reino, em Mbanza Congo, evangelizaram e se tornou o maior missionário entre o seu povo. Igreja Católica e Angola, duas velhas conhecidas, apresentadas uma à outra há mais de meio milénio. Daí a honra da repetição de visita papal em curto prazo, além dos 8,6 milhões de católicos fazerem mais de metade da população (55,6%, segundo dados do Vaticano), facto raro em África. Para o Vaticano, Angola pode ser a melhor ponte para o único continente (tirando a Oceania) em que o catolicismo cresce mais (3,1%) do que o crescimento da população (2,1%, dados de 2007). Angola ser ponte é o que está habituada. Há 17 anos, recebeu este elogio de João Paulo II, precisamente em Mbanza Congo: "Angola tem quinhentos anos de encontro de culturas. Isso faz do vosso povo um povo distinto." O angolano, e o luandense em especial, tem um jeito seu de ficar dengoso quando lhe passam a mão pelo pêlo. O Papa elogiou, o Papa seguinte recebeu prenda. Destapar a maquete Ontem, Bento XVI foi ao palácio presidencial ao fim da tarde, nessa Cidade Alta onde se guardam os últimos sobrados do séc. XVIII, que fazem também de Luanda uma cidade distinta em África. No salão de honra, o Presidente destapou uma maquete, enquanto os assessores distribuíam um folheto prateado, em português e italiano, com os desenhos da nova basílica da Nossa Senhora da Muxima, oferta do Estado angolano à principal religião do seu povo. Em Março do ano passado, o arquitecto luso-angolano Júlio Quaresma recebeu um emissário de José Eduardo dos Santos. Quaresma tem atelier em Lisboa, na Rua Braancamp, mas nasceu em Saurimo, no Leste de Angola, bisneto de madeirenses que fundaram Sá da Bandeira, hoje Lubango. Convidaram-no a fazer uma basílica no maior lugar de culto angolano, na Muxima, na margem esquerda do rio Quanza, a 130 km de Luanda. Tinha de ser coisa em grande - a Muxima recebe nas festas da Nossa Senhora Conceição, em Agosto, 150 mil peregrinos -, tinha de ter prazo de construção breve, quatro anos, e tinha de haver já alguma coisa para mostrar na visita do Papa, a começos de 2009. Quanto ao resto, que não se preocupasse, dinheiro havia - a construção da basílica e a requalificação de toda a zona, com a velha igreja de 1645, o forte português e os belos morros na curva do rio, poderiam ficar por cem milhões de dólares. Ontem, quando o Papa Bento XVI viu a maqueta, o Sol punha-se por trás da Cidade Alta, para o lado da Samba, dourando as ilhas, a de Luanda, a do Mussulo, línguas que apontam a Norte, empurradas pela corrente e trazidas da barra do Quanza. A meados do séc. XVII, os portugueses, que tiveram de fugir da sua cidade, ocupada pelos holandeses, fizeram o percurso inverso. Subiram o rio e nas terras da Kissama fizeram um forte e uma igreja, ambos de paredes grossas, para durar. Quando puderam regressar a Luanda, libertada pelos brasileiros comandados por Salvador Correia de Sá, deixaram semente de alguma coisa. A igreja dedicada à Nossa Senhora da Conceição passou a ser frequentada pelas mulheres que chamaram à santa "Muxima", que em quimbundo quer dizer "coração". Reza-se de braços abertos, de joelhos, e com suficiente retorno para Mamã Muxima se tornar a mais querida santa da Kissama, primeiro, e, depois, de Angola inteira (e já há peregrinos dos dois Congos, Brazzavile e Kinshasa). As oferendas trazidas à santa, depois da reza, são levadas em procissão para o sopé do forte. Foi deste lastro, desta inexplicável teia que João Paulo II falou, e o levou a classificar os angolanos - filhos de encontro mais do que secular - de "distintos". Um bairro popular O bairro de São Paulo que hoje Bento XVI visita é espelho do país feito por aluviões sucessivos. Bairro popular, quem quiser saber o que ele significou para os portugueses de 1940, 50, 60 e 70 tecle as palavras "igreja de São Paulo + Luanda" na Internet e comova-se com as centenas de comentários nos sites. São geralmente de filhos da terra que regam uma saudade de anteontem. "És filho do velho Setas?", "lembras-te dos montinhos de maçãs-da-índia?..." Lá para trás dos muros em meia-lua do Cemitério Velho, o bairro fez fronteira com os muceques. Essa a linha determinante: entre a cidade e o muceque. Certamente que no tempo colonial a diferença aparente era a da cor, mas se havia dois mundos era o dos urbanos e os do mato. Os últimos tinham uma geração para virarem luandenses; exactamente o mesmo que precisavam os colonos portugueses para se tornarem filhos da terra. O bairro de São Paulo era o laboratório dessas transformações. A irmãzinha Maria de Fátima, de 73 anos, pertence à raça dos eleitos que é luandense há séculos. Ela é Vieira Lopes e Vieira Dias - que como os Van Dunem e os Galiano são castas locais -, ela é de famílias que começaram onde começou Luanda, na ilha do Cabo (onde fica a mais antiga igreja luandense, de 1575), a sua freguesia era a do Carmo (com igreja seiscentista) e veio inaugurar o baptistério da igreja de São Paulo, onde também o Presidente José Eduardo dos Santos se baptizou em 1948. O padre Aurélio Bemba, de 35 anos, é filho de camponeses da província do Kwanza Sul e está a transformar-se em luandense. Em São Paulo, a torre do lar dos capuchinhos tem quatro relógios parados encimados pelas cinco quinas portuguesas. A igreja já não é dos missionários capuchinhos, é dos salesianos e o poder português já se foi. Angola parece deixar tudo passar mas é cadinho. E quem bem percebe isso é a Igreja Católica. in http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1177708 Quote
Recommended Posts
Join the conversation
You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.