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Entrevista a João Mendes Ribeiro
“Não pode­mos pen­sar
ape­nas em edi­fí­ci­os”


O arqui­tec­to João Men­des Ribei­ro, cuja expo­si­ção “Arqui­tec­tu­ras em pal­co”
está de pas­sa­gem por Coim­bra, defen­de que na arqui­tec­tu­ra «é mui­tís­si­mo
impor­tan­te inves­tir no espa­ço públi­co», não esque­cen­do as pes­so­as. O ven­ce­dor
da meda­lha de ouro na Qua­dri­e­nal de Pra­ga acre­di­ta que a cri­a­ção de um pólo cul­tu­ral
na zona do Pátio da Inqui­si­ção «está a ser uma rea­li­da­de», mas «o cami­nho tem sido mui­to len­to»


Está inti­ma­men­te liga­do ao pro­jec­to da Esco­la da Noi­te e é autor de algu­mas das mais emble­má­ti­cas ceno­gra­fi­as do per­cur­so da com­pa­nhia. Como enca­ra a rela­ção entre a arqui­tec­tu­ra e o tea­tro?
A arqui­tec­tu­ra e o tea­tro são duas dis­ci­pli­nas dis­tin­tas, mas exis­tem pon­tos de liga­ção. Am­bas tra­ba­lham com o espa­ço. A ceno­gra­fia estu­da como fazer uma casa para acto­res. Tra­ba­lha­mos com os acto­res e ten­ta­mos orga­ni­zar o espa­ço em pal­co que sir­va a inten­ção dos intér­pre­tes. E a ideia de orga­ni­za­ção de espa­ço a par­tir de uma ideia de uso é tam­bém comum na arqui­tec­tu­ra.

O Tea­tro da Cer­ca de S. Ber­nar­do aco­lhe, até 28 de Fe­ve­rei­ro, a expo­si­ção de ce­no­gra­fia “Arqui­tec­tu­ras em Pal­co”, ven­ce­do­ra da meda­lha de ouro na Qua­dri­e­nal de Pra­ga, o mais im­por­tan­te pré­mio mun­di­al na área da ceno­gra­fia. O que nota­bi­li­zou este seu pro­jec­to?
Tem a ver com a auto­no­mia dos objec­tos, o fas­cí­nio da pos­si­bi­li­da­de de uma máqui­na céni­ca que está rela­ci­o­na­da com a pos­si­bi­li­da­de de cri­a­ção que exis­te no tea­tro. É a impor­tân­cia do “ence­na­men­to”, o objec­to mul­ti­fa­ce­ta­do, que se des­do­bra e que pre­ci­sa da acção dos acto­res. Mas, às vezes, o objec­to céni­co pode ser tam­bém um géne­ro de actor do pró­prio espec­tá­**­lo.

Esta­mos a falar de uma gran­de capa­ci­da­de de par­ti­lha real, com um géne­ro de pal­co den­tro do pal­co.
Sim. Outra carac­te­rís­ti­ca do meu tra­ba­lho é a ideia do uso dos mate­ri­ais: objec­tos ver­da­dei­ros, reais, que se auto-estru­tu­ram e podem des­lo­car-se para outros luga­res que não o pal­co. Ganham uma medi­da para a sua pre­sen­ça atra­vés dos intér­pre­tes. É a ideia de geo­me­tria e estru­tu­ra de espa­ço, que é o arqui­tec­tó­ni­co. Nun­ca con­se­gui core­o­gra­far os mate­ri­ais: se é uma pedra é uma pedra, não a vou fazer de esfe­ro­vi­te.
O pro­jec­to de requa­li­fi­ca­ção da zona do Pátio da In­qui­si­ção tem 12 anos, data de 1997. A ideia pas­sa­va por cri­ar um pólo cul­tu­ral nes­ta zona da cida­de. Exis­tem actu­al­men­te dois equi­pa­men­tos de peso: o CAV e o Tea­tro da Cer­ca de S. Ber­nar­do, mas o pro­jec­to está lon­ge de estar com­ple­to.
O pólo cul­tu­ral está a ser uma rea­li­da­de, é um cami­nho mui­to len­to, mas algu­ma coi­sa mu­dou. Pen­so que era pos­sí­vel abrir mais luga­res, cri­ar outra dinâ­mi­ca e espa­ços cul­tu­ra­is com­ple­men­ta­res a esses dois núcle­os. Na altu­ra falou-se de cri­ar uma gale­ria de arte e um café-con­cer­to. A nível de en­qua­dra­men­to, acho com­ple­ta­men­te neces­sá­rio recu­pe­rar a ala nas­cen­te do Colé­gio das Artes, por­que tem uma rela­ção mui­to for­te com o Pátio da In­qui­si­ção. O pro­jec­to ini­ci­al in­clu­ía tam­bém uma liga­ção à Rua da Sofia, com­ple­ta­men­te neces­sá­ria de for­ma a ter estes inte­rio­res de quar­tei­rão pró­xi­mos da cida­de, em arti­**­la­ção com o espa­ço públi­co.

Não é a pri­mei­ra vez que fa­la na impor­tân­cia do espa­ço públi­co.
É mui­tís­si­mo impor­tan­te inves­tir no espa­ço públi­co. Nós, arqui­tec­tos, não pode­mos pen­sar ape­nas em edi­fí­ci­os. É uma ambi­ção re­qua­li­fi­car o espa­ço públi­co e edi­fí­ci­os anti­gos, mas para abrir a cida­de e cri­ar espa­ços de qua­li­da­de para as pes­so­as.

O pro­jec­to do pólo cul­tu­ral é viá­vel do pon­to de vis­ta arqui­tec­tó­ni­co. Então para o com­ple­tar fal­ta um empur­rão de quem? Da autar­quia?
Sim, a ini­ci­a­ti­va deve par­tir da Câma­ra Muni­ci­pal de Coim­bra.

A nível de desen­vol­vi­men­to arqui­tec­tó­ni­co como está a cida­de de Coim­bra quan­do com­pa­ra­da a outras capi­tais de dis­tri­to?
Há edi­fí­ci­os e espa­ços públi­cos com algu­ma qua­li­da­de. Por exem­plo, o Pavi­lhão de Por­tu­gal de Álva­ro Siza Viei­ra e as mar­gens do rio são espa­ços de qua­li­da­de.
A Uni­ver­si­da­de de Coim­bra tam­bém tem desen­vol­vi­do alguns pro­jec­tos de gran­de qua­li­da­de, quer no Pólo II, quer no Pólo III. A Pon­te Pedro e Inês é outro belo tra­ba­lho. E ain­da há expec­ta­ti­vas em rela­ção a novos pro­jec­tos. Ain­da há mui­tas coi­sas a fazer.


in http://www.diariocoimbra.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=810&Itemid=135

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