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"O tempo foi o grande arquitecto do Chiado"

Álvaro Siza Vieira considera a zona "hoje muito saudável e com vida"

RICARDO PAZ BARROSO

Vinte anos após o incêndio, o mentor da recuperação do Chiado, Siza Vieira, recordou a empreitada em zona "sagrada" de Lisboa. O arquitecto diz que "o tempo é que dá a complexidade própria das cidades vivas".

Álvaro Siza Vieira, um dos mais reputados arquitectos da actualidade, responsável pela recuperação do Chiado após o grave incêndio em Agosto de 1988, não tem qualquer tipo de dúvidas: "O Chiado está hoje em dia a funcionar. Está saudável, vejo muita gente a circular por lá, noto muita vida e muita dinâmica, ao passo que, quando foi do incêndio, o comércio e a habitação da zona já estavam em plena decadência, a zona estava a morrer há já algum tempo, o que até terá favorecido as circunstâncias do incêndio e não só os canteiros na Rua do Carmo, que impediram a subida de mais carros de bombeiros para o combate às chamas".

No decorrer de um debate, anteontem, no Centro Nacional de Cultura, moderado por Guilherme de Oliveira Martins, o "mestre" portuense - como é chamado pelos seus pares - aproveitou para desabafar que "o grande arquitecto é o tempo", admitindo que não vale pena ao arquitecto julgar que resolve todas as coisas com régua e esquadro pois "é preciso um tempo de intervenção, de emendas, as zonas recuperadas precisam de tempo para ganhar a complexidade própria das cidades que estão vivas". Siza Vieira reconhece que os Armazéns do Chiado, e a FNAC que lá está, são os grandes chamarizes da zona.

Mas "as pressões então foram enormes", recordou. A linha de pensamento de Siza Vieira para a recuperação do Chiado foi "manter o espírito da zona, o que surpreendeu alguns", sendo por essa razão que Siza Vieira imagina ter sido convidado por Krus Abecassis, então presidente da Câmara de Lisboa. "Não via legitimidade em introduzir nova arquitectura no local", resumiu.

Por exemplo, "uma das grandes polémicas foi o facto de eu ter rejeitado
desenhar garagens, sugerindo antes uma rede de parques de estacionamento na zona, que acabou por não ser cumprido na totalidade", explicou Siza Vieira. Houve também várias pressões para "fazer de cada prédio um mini-centro comercial", tendo Siza Vieira cedido apenas num, na Rua do Carmo, "cujo exemplo mostra hoje que tal não funciona, as pessoas vão ao Chiado por causa das lojas com entrada directa da rua, o tempo deu-nos razão".

Álvaro Siza Vieira fez também questão de desmentir uma eventual imagem de conservadorismo em relação ao seu trabalho no Chiado: "Não defendo que um arquitecto deva ser discreto, depende das circunstâncias, a nova arquitectura enriquece as cidades, mas em casos como o do Chiado sou bastante conservador".


in http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Lisboa&Concelho=Lisboa&Option=Interior&content_id=1060005

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