JVS Posted October 25, 2008 Report Posted October 25, 2008 Perfil de José Horta Correia José Eduardo Horta Correia cedo abraçou a carreira de investigação e docência no domínio da História da Arte. Iniciou os seus estudos em Coimbra, onde também leccionou, estando depois muitos anos ligado à Universidade Nova de Lisboa. Em 1996, tornou-se professor na Universidade do Algarve, assumindo, em 1999, as funções de Professor Catedrático. Na instituição foi um dos fundadores do curso de Património Cultural (1999), primeiro no género em Portugal, e foi o responsável pelo Mestrado em História da Arte Portuguesa. No seu percurso, destaca-se o olhar sobre o urbanismo da sua cidade natal, objecto de estudo da sua tese de doutoramento «Vila Real de Santo António. Urbanismo e Poder na Política Pombalina». A investigação foi galardoada em 1997 com o Prémio Gulbenkian de História da Arte. 23 de Outubro de 2008 | 07:04 Filipe Antunes Horta Correia: «O turismo foi a desgraça do Algarve» José Horta Correia Zonas verdes no interior da região têm sido «oferecidas» pelo Ministério da Economia, através dos chamados Projectos de Potencial Interesse Nacional (PIN), alerta o académico José Horta Correia, em entrevista ao semanário «barlavento». b- Referiu que, em Itália, foi a abertura dos centros históricos ao turismo que contribuiu para a sua prosperidade. No Algarve, o turismo também teve esta dinâmica? JHC- Acho que o turismo foi a desgraça do Algarve, em todos os aspectos. Sobretudo o turismo de massas dos anos 60. A Praia da Rocha, por exemplo, era das mais belas do mundo e tivemos o azar de, à data, ter um presidente de Câmara que era arquitecto. Depois da Revolução de Abril, ficaram célebres as suas declarações a vários jornais, onde afirmava que era ambição transformar a Praia da Rocha numa Torremolinos… b- Há outros exemplos? JHC- O que se fez em Albufeira é semelhante. Durante os anos pré e pós 25 de Abril, assisti à degradação da vila e do campo frente ao mar. São os casos da praia da Coelha ou mesmo de São Rafael, que estavam cheias de casas de lavradores pobres, a que depois se juntaram as moradias de estrangeiros. Mas não foi isso que estragou. Veja-se o caso da célebre moradia do Cliff Richard, junto ao mar, mas que ainda assim não perturbava. b- Então quais foram os verdadeiros problemas? JHC- O problema começou depois, na generalidade do Algarve, com os aldeamentos turísticos que começaram a degenerar. Depois veio a especulação imobiliária, que é a santa aliança entre o autarca e o construtor. Simplesmente, agora temos uma pior: o que restava de grandes zonas verdes, no interior da região, tem sido oferecido pelo Ministério da Economia, através dos Projectos de Potencial Interesse Nacional (PIN), e com a abstenção do Ministério do Ambiente. O resultado é o aparecimento de estruturas externamente sofisticadas do ponto de vista económico-financeiro, com uma arquitectura na maior dos casos terceiro-mundista ou a imitar o estilo do resort oriental. b- Significa isso que no Algarve se estão a cometer os mesmos erros dos anos 60? JHC- Exactamente os mesmos. Só que agravados pelo facto de os investimentos serem agora definidos através de uma política nacional e não regional. O Algarve tem uma escala muito pequena e tudo o que se faça causa muita pressão. b- Quer isto dizer que turismo e património são duas realidades impossíveis de conviver? JHC- Não. b- Mas que exemplos se podem apontar, pela positiva? JHC- Veja-se o caso da Vila-a-dentro, em Faro. É um núcleo espantoso, que não está estragado, porque foi orientado por um gabinete de coordenação que funciona muito bem. Os edifícios principais da cidade estão ali e a zona tem sido estudada. b- E quanto à arquitectura contemporânea… JHC- No caso de Faro, pode considerar-se má e, no resto do Algarve, péssima. b- No Algarve, há concelhos que, em termos de arquitectura, são casos perdidos? JHC- Devem, por exemplo, questionar-se situações como a Marina de Albufeira, em que uma zona fértil agrícola como a várzea dourada foi inundada. Mas, em geral, tudo o que se faz de novo no Algarve é de má qualidade. b- Isso poderia resolver-se com uma entidade regional que desse orientações rígidas sobre o que pode ou não ser implementado em termos urbanísticos e arquitectónicos? JHC- Penso que sim, mas o problema das novas construções é sobretudo a má qualidade. No Algarve, continuamos a ter os mesmos dois níveis de destruição patrimonial: a construção e a demolição. A construção é uma forma de destruição patrimonial quando aparenta falta de qualidade… b- Os Planos Directores Municipais também não têm sido eficazes neste aspecto? JHC- Temos tido pouca sorte nessas situações. 23 de Outubro de 2008 | 07:03 Filipe Antunes Horta Correia: O Algarve nunca dispôs de um inventário patrimonial José Horta Correia b- É errado dizer que há pouco património no Algarve, ou o que há não está visível? JHC- Esse foi o erro de sempre e já remonta à constituição do inventário artístico nacional. Quando se fez esse documento, dividiu-se por distritos. Só que o de Faro, entregue à Academia de Belas Artes, nunca se concretizou. Ficou essa falha, no caso do Algarve, e isso ajudou a fomentar a ideia de que a região não tinha património. Tinha bom clima, sol e praia e estabeleceu-se a convicção de que seria óptimo para o turismo de massas e para a construção. Nós temos imensas coisas, mas a arquitectura algarvia tem uma escala diferente, em que a monumentalidade não existe. A escala algarvia é diminuta e há uma relação proporcional diferente das outras regiões. Tudo isso contribui para que nem sempre se perceba o seu valor… b- A Universidade do Algarve tem capacidade para, futuramente, fazer esse levantamento? JHC- A Universidade tem trabalhado muito ao nível do património. Neste momento, está já capacitada para fazer um trabalho sistemático, mas a academia atravessa uma fase difícil em que não há contratações, nem professores e torna-se difícil propor coisas que excedem a nossa capacidade. É muito mais fácil a colaboração pontual com as Câmaras e organismos. b- No que toca ao património recuperado, que dizer de casos como o Convento do Carmo, em Tavira, ou do Palácio de Estoi? JHC- No caso do Convento da Graça, há que apontar duas situações: a parte nova é desajustada e a pintura amarela não tem qualquer sentido. A cor amarela deriva do facto de aquele edifício ter acolhido um quartel, mas é necessário frisar que o edifício foi sempre pensado para funções religiosas e foi quartel apenas durante um episódio de 20 ou 30 anos. O Algarve é, na sua génese, branco. Havia, aliás, um slogan turístico, dos anos 60, que fazia referência a esta particularidade e que deu muitos resultados. É um erro que se resolve com umas latas de tinta, mas o princípio está a desenvolver-se em obras de muitos arquitectos famosos. Ao que parece, o erro vai voltar a repetir-se na intervenção desenvolvida por Souto Moura, no Convento das Bernardas… Quanto à recuperação do Palácio de Estoi, conheço o projecto assinado por Gonçalo Byrne e creio que há um grande respeito pelo edifício. b- Nestes casos, o Igespar não tem uma palavra a dizer? JHC- Colaborei muito com a instituição quando ainda era composta por duas direcções gerais. Agora, seja por falta de verbas, seja por falta de vontade política, não me parece que o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) esteja a cumprir a missão que herdou. Só tratar de objectos classificados demonstra inclusivamente um certo laxismo. b- O que vai fazer no futuro? JHC- Neste momento, estou a juntar um conjunto de textos dispersos, muitos ainda manuscritos, que serão publicados pela editora algarvia Gente Singular. A universidade também vai colaborar na edição, que deverá encerrar com o texto que preparei para a minha jubilação. De qualquer forma, está prestes a iniciar-se um mestrado de História do Algarve, onde vou colaborar a título póstumo (risos) e ministrar uma cadeira sobre a história da arte no Algarve. 23 de Outubro de 2008 | 07:03 Filipe Antunes Horta Correia: «A preservação do património é uma decisão política» José Horta Correia Aos 70 anos, e depois de quase três décadas dedicadas ao estudo do património do Algarve, José Eduardo Horta Correia lamenta que o turismo tenha delapidado a arquitectura tradicional da região, mas acredita nas potencialidades das zonas históricas das cidades e até em algumas vantagens do automóvel. Em entrevista ao «barlavento», o académico e investigador volta a abordar temas da sua última lição na Universidade do Algarve e mostra-se céptico em relação ao papel das autarquias e do Igespar. barlavento ( - Agora que se jubilou, continuará com um olho clínico para a forma como o património e a arquitectura são tratados no Algarve? José Horta Correia (JHC) - Agora tenho obrigação de continuar a minha luta pelo património do Algarve. Os últimos dois anos foram trabalhosos na Universidade do Algarve, repartidos entre aulas e muitas orientações de tese. O facto de me ter reformado no dia 1 de Outubro foi providencial, na medida em que eu não me reconheço nesta universidade a partir da reforma de Bolonha. Mas continuarei atento, até porque houve sempre uma relação muito grande entre o património e a universidade. b- Mas o seu percurso académico não começa na área do património, nem sequer na região… JHC- Quando fiz a minha passagem da História das Ideias para a História da Arte, foi para trabalhar a este último nível. A minha tese de doutoramento centrou-se inclusivamente na história do urbanismo e sobre o caso particular de Vila Real de Santo António. Mas a perspectiva não era nesse momento a defesa do património. Isso era uma carolice à parte. b- Como se cruza então com a defesa do património? JHC- Em 1985, o José Lamas estava a fazer o Plano de Salvaguarda de Tavira e pediu-me para o ajudar. Foi um trabalho prático muito interessante, que não tinha nada a ver com Vila Real de Santo António, nem com a estrutura de uma cidade iluminista. Tratava-se do património real de uma cidade que teve episódios históricos complicados. Ainda conheci Tavira em muito bom estado e assisti à chamada fase de travagem [da destruição do património]. Havia uma ideia que era fazer com que Tavira fosse igual às outras localidades: as pessoas tinham vergonha de ter uma terra atrasada, isto é autêntico! Mas o trabalho do José Lamas foi muito bom: estudou-se a cidade, a salvaguarda e fez-se todo o seu levantamento. A partir daí, tive um contacto directo com uma realidade diferente. b- Em Tavira, mudou muita coisa nos últimos anos? JHC- Mudou muito! Quando conheci Tavira, primeiro houve uma fase de constituição do plano de salvaguarda e depois houve uma fase de descuido, que se saldou na demolição de uma casa do século XVI. Agora, estamos numa fase intermédia. Por um lado, há muita actuação em termos do património; por outro, uma terra que está a crescer como Tavira tem o perigo do pastiche. De qualquer forma, Tavira está bem preservada e o Palácio da Galeria constitui um bom exemplo. b- Há esta simetria no caso de Vila Real de Santo António? JHC- Vila Real tem sofrido altos e baixos. Houve uma altura em que houve um gabinete coordenado pelo arquitecto João Manuel Horta, que fez um trabalho importante e lançou as bases da actual intervenção. Agora, o facto mais importante de todos é efectivamente a intervenção na Câmara Municipal. Foi um acto de grande coragem, porque é uma atitude efectivamente polémica. b- É uma intervenção demasiado arrojada? JHC- Eu sabia que isto havia de acontecer, porque as pessoas vão-se apercebendo do valor da cidade. Mas é muito difícil sacrificar um edifício do princípio do século XX. Houve, no entanto, uma série de situações favoráveis. Por um lado, o imóvel estava em completa ruína e era muito difícil mexer nele; por outro, as paredes pombalinas estavam todas lá. b- A adulteração que o edifício sofreu, após o incêndio de 1908, justificava uma intervenção de fundo? JHC- Quando ocorreu o incêndio, no princípio do século XX, não se pensou de imediato fazer aquilo. Houve um projecto, que desconhecemos, e que não chegou a ser executado, porque entretanto foi proclamada a República. Segundo consta, a Câmara foi recuperada por um engenheiro dos caminhos-de-ferro e é por isso que se assemelhava à arquitectura das estações, alta. O interessante foi [à data] terem preservado o edifício e mantido as paredes grossíssimas do século XVIII. Foi esse facto que tornou a actual recuperação justificada do ponto de vista patrimonial, já que os vãos estão no mesmo sítio onde foram encontrados. Mas o mais importante é que a obra permite a recuperação de um conjunto. Vila Real é pensada como uma única casa e, ao refazer aquele quarteirão, toda a praça ganha a dimensão original. b- Cem anos depois, as pessoas estão preparadas para o que está a fazer? JHC- Em geral, as pessoas parecem gostar, mas há duas reservas populares. A primeira é o relógio, já que esta geração gostaria de o continuar a ver na frente do edifício. Eu até costumo dizer, por brincadeira, que antigamente o relógio não servia de nada, porque ora atrasava, ora adiantava, conforme o vento estava de Sul ou de Norte. Há outro dado que as pessoas não gostam e que tem a ver com cobertura de metal na antiga parte do mercado que estava anexo ao edifício. Uma, é uma questão sentimental; a outra, tem a ver com as expectativas. b- Como estudioso da arquitectura de Vila Real de Santo António, foi contactado pelo arquitecto Walter Rossa quando foram definidos os moldes do Plano de Salvaguarda do núcleo pombalino da cidade? JHC- Nós falamos há muitos anos, pela simples razão de que fui professor dele na Universidade Nova de Lisboa, a nível de mestrado, além de orientador da tese de mestrado, onde ele abordou questões relacionadas com a Baixa de Lisboa. Estive muito anos em contacto científico e não sei concretamente que conversas tivemos, mas falámos sobre todos estes aspectos. b- Mas a recuperação de Vila Real é uma decisão política ou urbanística? JHC- Ultimamente, tudo tem estado nas mãos das autarquias e as intervenções dependem da posição que tem a autarquia. Vila Real não foi excepção. b- Portanto, o que se constrói ou recupera tem sempre um cunho político? JHC- Toda a gente sabe que há uns anos, no Algarve, as autarquias eram dirigidas por pessoas com grandes complexos de inferioridade. Pode escrever à vontade, porque assumo o que digo: havia muitas pessoas que pensavam do mesmo modo como na Itália dos anos 60. Há episódios muito célebres, a propósito da salvaguarda das cidades italianas, em que os autarcas da década de 50 e 60 tinham vergonha de não viverem em Nova Iorque. Só que a Itália é hoje considerada um modelo na recuperação de cidades antigas e com isso retirou milhões e milhões de liras de lucro… Se tivessem efectivamente evoluído para um modelo americano, hoje não ganhariam nada em termos económicos. Mas o pior é que essa mentalidade dos anos 60 ainda hoje existe no Algarve. Nas pequenas cidades e nas aldeias, há ainda pessoas que têm uma certa vergonha. b- Em que sentido? JHC- As aldeias tinham ficado praticamente todas preservadas nos anos 90. Agora o que se vê é que essas mesmas aldeias estão a ser tratadas como cidades. Deixaram de passar carros porque os responsáveis políticos entendem que, tal como na cidade se estão a vedar ruas ao trânsito, o mesmo tem de ser aplicado às aldeias. Mas a vantagem de se viver numa aldeia ou numa cidade pequena é precisamente a de ainda poder usar o carro e colocá-lo à porta. Se as pessoas vão viver para lá, é porque na cidade já não podem ter esse gesto. b- Pode dar um exemplo concreto? JHC- Vejamos o caso de Vila Real, que tem as ruas mais amplas de todo o Algarve. Se num centro histórico de raiz medieval, com ruas estreitas, não há outro remédio senão condicionar o trânsito, numa terra com ruas daquele tamanho não faz sentido cortar a circulação e empedrar o tecido urbano. O resultado é os residentes irem abandonando essas zonas, enquanto se verifica uma terciarização progressiva dos edifícios. Está a seguir-se um mal de que Lisboa hoje tem consciência: é o exemplo de como se trata mal uma cidade antiga, não valorizando a residência. b- Mas a generalidade das cidades algarvias tem seguido essa prática… JHC- De uma forma errada… Eu comecei pelas aldeias, mas a verdade é que os problemas são os mesmos nas cidades. b- Mas pode voltar a trazer-se as pessoas aos centros históricos das cidades? JHC- Pode, desde logo retirando-se as limitações de circulação no centro histórico aos moradores. Eu resido na zona histórica de Vila Real e, neste momento, sou das poucas pessoas que vive na minha rua. Quando partilhava o prédio com outras pessoas, fui confrontado com a limitação de circulação e, desde essa altura, pude assistir às dificuldades que as pessoas mais idosas enfrentam. b- Mas a desertificação nos centros históricos só se combate à custa do automóvel? JHC- É claro que há uma tendência natural para a desertificação e uma tendência correlativa para a terciarização. Tenho tido várias discussões, mas há quem pense que em Vila Real a terciarização é a salvação do centro histórico e que os comerciantes e industriais vão comprar os edifícios que estão degradados. Mas isso é ilusório. Sem pessoas não há cidade e começa a haver droga, prostituição, assaltos e tudo aquilo de que todas as grandes cidades se queixam das zonas antigas. A tendência para atomizar o carro, quando é feita sem pés nem cabeça, tem efeitos perversos. Depois, o argumento de que há transportes alternativos não pode ser utilizado senão em cidades como Lisboa ou Porto. Também verifico esse facto negativo em Tavira, embora Faro se destaque pela positiva e tenha tratado muito bem a Vila-a-dentro, ao fazer um grande estacionamento no Largo de São Francisco. Agora, há moradores que podem continuar a circular na zona histórica e isso está a trazer novos residentes àquela zona. 23 de Outubro de 2008 | 15:02 Filipe Antunes in http://www.barlavento.online.pt/index.php/noticia?id=27793 Quote
Recommended Posts
Join the conversation
You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.