JVS Posted August 19, 2008 Report Posted August 19, 2008 A hora de Pequim A capital chinesa está a descobrir tudo a alta velocidade, num processo sem precedentes na História moderna. É muito mais do que o lema dos seus Jogos Olímpicos promete - "um mundo, um sonho". Reportagem de António Caeiro (textos) e Jorge Simão (fotografias), enviados à China 2:30 | Sexta-feira, 8 de Ago de 2008 Manhattan de Pequim. O novo centro de negócios de Pequim, o China Business District A capital chinesa "está a descobrir tudo a alta velocidade" , num processo sem precedentes na História moderna. É mais do que o lema dos seus Jogos Olímpicos ("um mundo, um sonho") promete. Ma Yansong responde a tudo com uma espécie de palavra de ordem. Pequim está a ser descaracterizada pela vertiginosa construção de torres de escritórios e altos blocos de apartamentos? - "Pequim será sempre Pequim. Não é copiando fórmulas antigas que se respeita o passado." Os projectos encomendados a Rem Koolhaas, Zaha Hadid, Paul Andreu e outras estrelas mundiais da arquitectura violam a identidade de Pequim? - "O intercâmbio é muito importante. Manhattan também começou de forma internaciona.l" A irreverência do discurso condiz com os sapatos, uns ténis de plástico, às bolinhas brancas e pretas... Ma Yansong, 33 anos, é considerado um dos mais inovadores arquitectos chineses. Nasceu e estudou em Pequim, fez o mestrado em Yale, nos Estados Unidos, e antes de regressar à China trabalhou em Londres. O seu atelier, chamado MAD, foi o primeiro do país a ganhar um concurso no estrangeiro: um edifício de linhas curvilíneas, com 50 andares, em Toronto, que a imprensa canadiana baptizou Torre Marylin. "A arquitectura deve ser sensual", diz Ma Yansong. Ele é, também, o autor do projecto "Pequim 2050", que propõe a transformação da Praça Tiananmen - a catedral do estado socialista - numa grande zona verde. A longa marcha da construção. No novo centro de negócios de Pequim, o China Business District, os arranha-céus surgem a um ritmo vertiginoso Em apenas uma geração, e sobretudo na última década, a China tornou-se uma das sociedades mais dinâmicas do mundo. "O que levou 200 anos a urbanizar na Europa, leva 20 anos aqui na China", afirmou Norman Foster, o arquitecto que desenhou o novo terminal do aeroporto de Pequim (o maior do planeta, com 3,2 quilómetros de comprimento). Jasper Becker, um conhecido "China Watcher" britânico, radicado há mais de 20 anos em Pequim, escreveu que "nada tão rápido ou em tão larga escala foi feito em qualquer outro país (...) Só uma ditadura com os recursos humanos e industriais da China conseguiria isto". Ao mesmo tempo, "a capital do maior Estado autoritário do mundo é um lugar surpreedentemente permissivo", realça James Kynge, antigo correspondente do "Financial Times". "Em Pequim, há de tudo, incluindo bares gay!", estranhou um diplomata europeu (até 2001, a homossexualidade fazia parte da lista oficial das doenças mentais estabelecida pela Associação Chinesa de Psiquiatria). Quarteirões inteiros de "hutongs", os típicos becos de Pequim, cuja origem remonta ao domínio mongol (séculos XII e XIII), foram arrasados. Alguns tinham pouco mais de dois metros de largura. Dezenas de famílias partilhavam a mesma casa de banho pública e o aquecimento era a carvão, mas as ruas conservaram uma atmosfera especial. O geógrafo francês Pierre Gentelle, que estudou em Pequim há meio século, conhece bem a história: "Era uma cidade muito pobre." Pelas suas contas, havia então cerca de 4000 "hutongs", concentrados em torno do Palácio Imperial. Em 2004 restavam 1400 e hoje apenas 350. Alguns foram, entretanto, recuperados e as suas acanhadas habitações substituídas por cafés, bares, restaurantes, lojas de design, galerias e boutiques. A discoteca Mao Livehouse, um santuário da cena rock local, faz parte desse novo circuito urbano, cuja oferta inclui ainda pequenos hotéis, albergues de juventude, acesso à Internet sem fios e caixas de multibanco. Em vez de "made in China", a etiqueta das t-shirts à venda na Nanluoguxiang, o mais concorrido dos novos "hutongs", diz "made in Beijing" (fabricado em Pequim). "Os chineses estão orgulhosos da sua capital", afirma Pierre Gentelle. Ma Yansong, o primeiro arquitecto chinês a ganhar um concurso no estrangeiro, com um dos seus projectos, a Torre Marylin (em fundo), em Toronto "Na economia, nas mentalidades, no trabalho... tudo está a mudar muito depressa", diz um director da administração pública. "A China mudou muito desde 1979 (o ano 1 da política de Reforma e Abertura), mas só agora está verdadeiramente a descolar." Uma das mudanças mais evidentes, além da arquitectura, é o trânsito. Numa cidade onde até há pouco tempo as bicicletas eram o principal meio de transporte privado, circulam hoje quase 3,5 milhões de veículos. ("Há mais pessoas a andar de bicicleta em Copenhaga do que em Pequim", diz Ma Yansong). O preço dos combustíveis subiu quase vinte por cento em Junho, mas um litro de gasolina ainda custa apenas seis yuan (60 cêntimos). Todos os dias, em média, há mais 1300 novos automóveis nas ruas de Pequim - ao fim de um ano são quase 500 mil! A 5ª Circular, que passa no topo norte da cidade olímpica, tem 98 quilómetros de comprimento e a 6ª, em construção, chegará aos 300. Em menos de uma década, os automóveis duplicaram. A China já é o segundo maior fabricante do mundo, à frente do Japão, e os industriais do sector esperam que o mercado continue a crescer 26 por cento ao ano. Começar bem o dia. Um casal a dançar, de manhã, no parque Beihai, um dos mais concorridos da cidade Para 80 por cento dos condutores chineses, o automóvel que acabaram de comprar é o primeiro da sua vida. Isso muda muita coisa. À entrada da maior livraria de Pequim, as prateleiras alinhadas à direita continuam a ser dedicadas ao antigo Presidente Mao Zedong e aos "clássicos do marxismo-leninismo (Marx, Engels, Lenine e Estaline)". Ainda se vê um ou outro cliente a folhear um livro de Mao, mas nada que se compare ao movimento da nova secção, ao fundo da sala. É aqui que se vendem os mapas das estradas e os guias turísticos, incluindo as edições em chinês da Michelin e da Lonely Planet. Pequim tornou-se também mais cosmopolita, com restaurantes e centros culturais de diversos países. Os residentes estrangeiros ultrapassarão os 200 mil (o quádruplo de há dez anos!) e já podem alugar casa onde querem - e não apenas nos condomínios indicados pelas autoridades. Os hotéis "reservados a chineses", situados normalmente nos bairros populares, também acabaram. "Pequim é uma cidade dinâmica", diz Sónia Câmara, uma designer gráfica da Madeira que já viveu em Lisboa, Berlim, Salónica, Atenas e Barhein. Sónia trabalha há um ano e meio numa empresa sino-dinamarquesa e às sextas-feiras à noite é "disc-jockey" num bar de Sanlitun. "Todos os dias se pode fazer uma coisa diferente." O direito ao lazer. A área de Sanlintun tornou-se um dos principais centros da animação nocturna. O bar onde Sónia Câmara é DJ às sextas-feiras João Albuquerque, um arquitecto de 26 anos, formado em Coimbra, chegou em Outubro passado: "É muito fácil aprender a gostar de Pequim." O entusiasmo é particularmente flagrante na sua profissão: "Aqui não há falta de trabalho. De seis em seis meses muda-se de atelier." João começou por ganhar 10 mil yuan (mil euros) por mês, mas no mês seguinte já lhe pagaram 15 mil (1.500 euros) - o triplo do que ganha um professor chinês. Outra nota de consolação: entre as centenas de arquitectos estrangeiros que trabalham em Pequim, "todos conhecem o Siza Vieira" - ou "Xiza Vieira", como diz o japonês Yosuke Hayano, do atelier de Ma Yansong. A construção - ou reconstrução - estende-se ao próprio passado. Três feriados abolidos após a instauração da República Popular, em 1949, e que continuaram a ser observados em Taiwan, Macau e Hong Kong, foram restaurados este ano. E as comemorações do 1.º de Maio, que davam direito a três dias de feriado, ficaram reduzidas a um. O objectivo é "promover as tradições chinesas", explicou o Governo. Um salão de beleza na zona da Rua Wang Fujing O caso de Confúcio, um dos sábios chineses da Antiguidade, que viveu há 2500 anos, é especialmente simbólico. Durante a Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76) houve uma "campanha de massas" para criticar Confúcio, que era então identificado como "um encarniçado defensor do sistema esclavagista". Hoje, ele é "o pilar da cultura tradicional chinesa" e "permanece importante para a Humanidade devido à sua promoção da ideia de uma coexistência harmoniosa". Já há quem fale, até, numa "República Socialista Confuciana"! "Quando andava na escola nunca estudei Confúcio. Só depois de trabalhar aqui é que começei a aprender umas coisas", conta uma empregada do restaurado Templo de Confúcio. Na loja do templo, os "souvenirs" incluem reedições do pequeno livro vermelho de Mao em inglês, francês e alemão. Cá fora, um pintor amador vende uma peça de caligrafia com três caracteres desenhados num rolo de papel de arroz: Felicidade, Prosperidade e Longevidade - tudo por apenas 100 yuan (10 euros)! Mas convém sempre regatear o preço, que acabará por descer para metade... (Um funcionário do templo, vestido com uma bata azul escura, vem, entretanto, à porta e cospe para a rua... É uma atitude pouco harmoniosa - e incorre numa multa de 50 yuan (5 euros) - mas há hábitos difíceis de mudar). Uma família a comer na Rua Wang Fujing "Sociedade sem classes"?! A "nova prioridade" do Partido Comunista, adoptada em 2006, é a construção de uma "sociedade harmoniosa". A autoria do conceito tem sido atribuída a Feng Ning, um professor de Ciências Políticas que num artigo publicado em 1998 já defendia que o "socialismo é um tipo de harmonia". Dez anos depois, no "lobby" do hotel da Academia Chinesa de Ciências Sociais (sim, a Academia também tem um hotel!), Feng Ning esclarece: "Não fui eu o inventor do conceito, mas concordo com ele." Na sua visão, a harmonia aspira sobretudo a "equilibrar as contradições". "Pensávamos que o socialismo resolveria as contradições básicas do capitalismo, mas não só não as eliminou como também gerou outras. Entre o partido e o povo também há contradições e as diferenças sociais agudizaram-se." Tradição e modernidade. No novo Pequim Business Center, tradições como cortar o cabelo no meio da rua podem coexistir com o último modelo da Mercedes No campo, onde vive a maioria da população, o rendimento anual per capita (cerca de 3600 yuan, 360 euros) não chega a um terço do valor apurado nas zonas urbanas e, dentro das cidades, os salários pagos nas províncias do interior ficam muito aquém do que se ganha no litoral. Pequim é a terceira cidade da China com melhor nível de vida, depois de Xangai e Zhengjiang. Segundo um destacado funcionário, o salário médio na capital ronda os 3000 yuan por mês (300 euros). É quase quatro vezes mais que o salário mínimo, mas para comprar, por exemplo, uma casa de 80 metros quadrados dentro da 3ª Circular seriam necessários 30 anos de trabalho. E, tal como a tão apreciada carne de porco e outros produtos alimentares, o preço das casas tem subido em flecha, muito acima do índice oficial da inflação (8,5 por cento). Feng Ning, 51 anos, é considerado um dos representantes da "nova esquerda". "Já não faz sentido falar de esquerda e de direita", corrige. Ele reconhece, contudo, que "no fundo do coração", continua a ser "socialista" e "marxista-leninista". "Se isso está à esquerda - acrescenta - então sou de esquerda." Feng Ning é também um nome associado ao chamado "novo nacionalismo chinês". "Há dois nacionalismos: o das elites e o popular, que se manifesta sobretudo entre os jovens. Talvez o nacionalismo popular fale agora mais alto", diz. "Os jovens pensam que a China hoje é mais forte e não é bem tratada pelos poderes ocidentais." Feng Ning não duvida que "num futuro não muito distante, a China será uma grande potência", mas afirma que "o mundo beneficiará com isso". "A imprensa e os intelectuais ocidentais esquecem que já não estamos no século XIX. O futuro será muito diferente do passado e a emergência de novas potências não terá os mesmos resultados." O que preocupa Du Shaozhong, um gestor da geração de Feng Ning, é o presente. O serviço que dirige tem "mais de 700 funcionários", mas a sua missão é "uma tarefa para muitos anos", porque "a consciência ecológica da população não está suficientemente desenvolvida". Vice-director do departamento municipal de Ambiente, Du Shaozhong foi entrevistado no último ano por "jornalistas de 22 países". A razão salta à vista: Pequim é considerada uma das capitais mais poluídas e dois meses e meio antes do início dos Jogos Olímpicos parecia ainda um enorme estaleiro, com taipais metálicos, pó, guindastes e escavadoras por todo o lado. Outro símbolo da mudança - a desinibição no namoro em público, algo impensável há poucos anos O recordista mundial da maratona, o etíope Haile Gebrselassie, já disse que se retirava daquela prova por recear que a poluição prejudique a sua saúde. "Durante os Jogos, o nível ambiental satisfará as exigências do Comité Olímpico Internacional", garante Du Shaozhong. Todas as obras relacionadas com os jogos estarão, entretanto, concluídas. As fábricas mais poluentes - em Pequim e nas províncias circundantes - vão parar ou reduzir a produção. A circulação automóvel será condicionada para metade. A Shougang - a siderurgia local, com milhares de trabalhadores e o imponente conjunto de chaminés que domina a paisagem na zona ocidental de Pequim - vai ser transferida para Tangshan, a 250 quilómetros da capital. Pouco depois da proclamação da República Popular, um prestigiado arquitecto, Liang Sicheng, sugeriu ao novo Governo o encerramento da Shougang. Mas segundo recordaria o seu filho, Liang Congjie, Mao Zedong "pensava precisamente o contrário" - "A China é um país operário e sem fábricas não há operários, respondeu o Presidente Mao." A Fábrica de Máquinas n.º 1, outra grande empresa estatal, também fechou. No terreno que ocupava, junto ao novo Central Business District, na zona oriental da cidade, erguem-se agora as três torres do Yintai Centre, uma das quais com 65 andares e 250 metros de altura. É o mais alto edifício da Chang'An - a principal avenida de Pequim, que atravessa a cidade de leste a oeste e passa no topo norte da Praça Tiananmen -, mas a 200 metros de distância há outro ainda maior, com 330 metros de altura. "Fábricas no meio da cidade?! Isso hoje não dá", diz um gerente do Yintai Centre. J.B., um gestor nascido e criado em Pequim, trabalha numa grande empresa privada chinesa. Gosta de citar Barack Obama - "yes, we can" - e conta que muitos dos seus antigos colegas "converteram-se ao cristianismo". Em Junho de 1989, quando o exército esmagou o movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, ele estava a preparar-se para os exames de admissão à universidade: "Hoje, acho que o governo agiu bem". Centenas de pessoas morreram, milhares de outras foram presas ou exilaram-se. "Também defendo a liberdade de expressão, mas, na altura, a situação estava descontrolada". Muitos Maos. A revolução em bonecos no Panjia Yuan, um dos maiores e mais típicos mercados da capital chinesa A palavra "descontrolo" soa como um alarme: "A China não pode ficar descontrolada, isso seria o caos." É também o que diz o Governo, mas J.B. não é militante comunista: "Para quem trabalha numa empresa estatal ou na administração pública, pertencer ao partido é importante. No sector privado, o que conta é a competência profissional. Também há empresários que se filiam no partido, mas muitos preferem ser neutrais." Tiananmen, uma expressão que na Europa evoca logos os dramáticos acontecimentos de 1989 (quando uma concentração pró-liberdade e pró-democracia foi esmagada pelo regime e fez dezenas de mortos), significa Porta da Paz Celestial. A construção data do século XIV, mas a enorme praça em frente e os austeros edifícios que a rodeiam foram construídos em 1959. É uma área de 40 hectares, no centro físico da cidade, e que Ma Yansong gostaria de converter num jardim. O projecto "Pequim 2050" foi apresentado na Bienal de Veneza há dois anos, mas, entretanto, um deputado da Assembleia Nacional Popular já contactou o arquitecto: "Talvez se concretize antes de 2050", diz Ma Yansong. "Uma China madura e democrática" deverá então "emergir" e "espaços para grandes manifestações políticas e paradas militares talvez já não sejam necessários". in http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/387575 Quote
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