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Suspeita de fogo posto no prédio da Avenida
Moradores garantem que já tinham alertado a Polícia para a presença de intrusos
00h00m

Gina Pereira, Ana Paula Correia e Cristiano Pereira

Fogo posto, com interesses imobiliários. Os moradores do prédio contíguo ao edifício devoluto que, ontem de madrugada, foi devorado pelas chamas na Avenida da Liberdade, em Lisboa, apontam o dedo à Câmara e ao proprietário do prédio.

"Provas não tenho, mas não duvido que este incêndio tem mão criminosa e intencional. Depois de ardido, é fácil deitar abaixo para construir de novo", acusava Luís Botelho da Costa, morador no 3º esquerdo do número 21 da avenida desde que nasceu, há 34 anos. Os moradores do prédio, propriedade da Junta de Freguesia de Galveias, em Ponte de Sor, no Alentejo - ao todo 15 pessoas, atiradas para fora de casa e sem saber quando poderão regressar - asseguram que o edifício vizinho, devoluto há cerca de oito anos, pertence a uma sociedade anónima espanhola, dona de mais dois imóveis na zona, que os pretendem transformar num hotel, num processo que alegadamente esbarrou na burocracia municipal.
António Ramalho, morador no 5ºdto, aponta o dedo à "ineficácia da Câmara Municipal de Lisboa (CML) que permite que a cidade de Lisboa esteja a ser destruída" e admite que a "desgraça" da madrugada de ontem estava há muito "prevista". "Este prédio ou caía ou era incendiado", dizia o morador, empenhado em responsabilizar criminalmente a autarquia e o proprietário do edifício por não terem acautelado este cenário. Calcula em cerca de 500 mil euros os livros e as obras de arte que o fogo e a água lhe destruíram. Diz que o prédio vizinho acumulava "entulho" e que aparecia frequentemente de porta escancarada, razão por que, durante a tarde de domingo, Iñaki Paiva de Sousa foi de novo à esquadra.
"Ao longo dos últimos seis meses, informámos várias vezes a PSP da Praça da Alegria e a Polícia Municipal de que o prédio de vez em quando era aberto e entrava gente. Ontem [anteontem], cerca das 16 horas, dei por alguém estar no interior e voltei a informar a polícia. A resposta foi sempre a mesma, ou seja, nada", queixou-se, ao JN, o jovem morador do 5º esquerdo, que ficou sem casa: as chamas destruíram totalmente o telhado do prédio que abateu, ameaçando os andares restantes.

Paulo Costa mora com a mãe, de 80 anos, no 3º dto. Assegura que o fogo começou ao nível do 2º andar e que não foi provocado por toxicodependentes. Passavam pouco minutos das 23 horas quando lhe cheirou a borracha queimada, foi à janela traseira e, olhando para o prédio ao lado, viu "um novelo muito grande de fumo preto". Chamou os bombeiros e tratou de tirar a mãe de casa. Quando chegaram à rua, as chamas já devoravam o edifício contíguo. "Foi tudo muito rápido".

Além dos números 21 e 23 da Avenida da Liberdade, o fogo alastrou ao número 6 da Rua da Glória, nas traseiras, desalojando um casal e três estudantes. Segundo a Protecção Civil Municipal, estão todos realojados em casas de familiares, amigos ou em pensões.

Numa visita ao local, ontem à tarde, o presidente da CML, António Costa, garantiu que já está em curso um inquérito ao incêndio e que a PJ está a investigar. Segundo o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, a vistoria ontem efectuada permite garantir que "não há qualquer risco de colapso das fachadas".

Em relação ao número 23, Salgado confirma que há dois processos pendentes na CML há vários anos em nome da empresa "Libertas" - um deu entrada em 1995, visando uma operação de emparcelamento de edifícios, e, no ano seguinte, um projecto de arquitectura para um hotel de quatro estrelas com 96 quartos - que estão "em fase muito adiantada de apreciação". Mas dependem da apresentação de um documento de registo de propriedade que a empresa aguarda há um ano. Segundo o vereador, o IPPAR deu parecer favorável ao projecto, desde que mantenha a fachada.

Nas operações de combate ao incêndio participaram mais de 100 bombeiros de várias corporações da cidade e arredores. O fogo foi dado por circunscrito às 3.03 horas, mas o rescaldo prolongaram-se até meio da tarde de ontem e a vigilância iria manter-se toda a noite.

in http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Lisboa&Concelho=Lisboa&Option=Interior&content_id=965780

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