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Isto é para continuar?

Manuel Correia Fernandes, Arquitecto

Ultrapassando tudo quanto seria imaginável, o conjunto do "Palácio do Freixo" está a ser destruído. A história daquele conjunto é conhecida e não há ninguém com um mínimo de cultura que não a saiba. Só para avivar a memória trata-se de um conjunto constituído por um palácio barroco com extensos jardins circundantes, projectados por Nicolau Nazoni nos finais do século XVIII, uma "fábrica" de moagem construída nos referidos jardins já nos finais do século XIX e, ainda, cais de acesso ao Douro em cuja margem se encontra este notável conjunto arquitectónico.

Embora o Palácio seja monumento nacional, embora tenha sido adquirido pelo Estado e posteriormente doado à Câmara do Porto (para sede da Junta Metropolitana?), embora tenha sido conservado e restaurado com fundos europeus, embora o presidente da Câmara do Porto o tenha considerado "de enorme valor arquitectónico e cultural" e "pólo catalisador de actividades culturais e recreativas, aberto à população em geral", embora tenha sido uma das últimas obras de Fernando Távora que nesse trabalho notável usou toda a sua sabedoria e embora a manutenção naquele local ou a deslocação e remontagem das Moagens Harmonia - mas nunca a sua demolição - tenham proporcionado intenso debate na cidade, a verdade é que a Câmara do Porto não teve qualquer rebate de consciência ao entregar tudo ao "Grupo Pestana" cujo negócio nada tem a ver com património ou coisa que o valha. Como era de prever, o resultado está à vista o conjunto do "Palácio do Freixo" está a saque!

E o resto da história é triste em 2005, o "Grupo Pestana" nem quis acreditar na "dádiva" que lhe caía nos braços vindo directamente dos cofres do estado e, do alto da sua "filantropia", decidiu brindar cidade com uma "pousada de luxo" que é a coisa que a "a população em geral" mais precisa! Vai daí, atirou-se ao "património" e longe dos olhares da dita "população" mas, certamente, bem perto dos gabinetes do poder, decidiu dispor a seu bel-prazer do que tinha sido tão apaixonadamente restaurado, conservado e construído. Claro que, a avaliar pelas notícias, está a desfazer tudo mas - note-se - com saudáveis preocupações de "sustentabilidade" que, como se sabe, é um valor moderno e muito produtivo de tal forma que 70% dos resíduos da demolição, serão reaproveitados depois de cientificamente separados em contentores apropriados para serem, depois, reutilizados como "património" reciclado. O que o amor ao património pode fazer!

O facto é que, para já, do belo exemplar de arquitectura industrial dos finais do século XIX que as Moagens eram - ainda que localizadas em lugar de que o arquitecto Fernando Távora não gostava - nada mais resta do que insólitas paredes e tudo quanto era verdadeiramente histórico já foi! Já agora, podiam ter feito o serviço todo e, pelo menos, tinham mudado as ditas paredes para outro local, permitindo que, assim, o jardim e a lógica compositiva do palácio pudessem ser recuperados que, esse sim, era o "plano" pelo qual o arquitecto Fernando Távora se bateu ainda que sem êxito, porque se considerou que as Moagens deviam ficar exactamente ali (tal como eram) em honra da verdade histórica! Mas como o resto também não vai resistir tanto faz! Não é?

A ignorância é sempre atrevida mas quando tem o beneplácito - óbvio - das autoridades que temos torna-se perigosa! Então, os casos de Hotel de New Lanark na Escócia e do New York Hotel em Rotterdam, entre muitos outros, já não dizem nada? Será preciso estar sempre a inventar a pólvora?

in http://jn.sapo.pt/2008/05/09/porto/isto_e_para_continuar.html

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A cidade insegura
adelino meireles

Manuel Correia Fernandes, Arquitecto

A "Carta de Atenas" (concebida em 1933 e tornada pública em 1943), foi - como é sabido - a carta de princípios que serviu de base à construção da "cidade moderna" até finais da década de cinquenta do século passado. O "zonamento" era um dos seus mais (sagrados) princípios que eram, "Habitar, Trabalhar, Recrear e Circular". Duas "formas" (tipologias ou modelos) e dois "acontecimentos" (factos ou fenómenos), foram a tradução construída e a consequência sócio-urbanística desses princípios o "bloco de habitação colectiva" e a "via segregada" (ou isolada) são, por excelência, as "formas" características da cidade moderna e o abandono dos "centros históricos" e a consagração dos "subúrbios", as suas consequências mais comuns. Ou seja: na "cidade moderna", habita-se num lado, trabalha-se noutro, recreia-se ainda noutro e circula-se (intensa, mecânica e ciclicamente) entre todos.
Contudo, este novo cenário, não dura mais do que uma escassa vintena de anos. De facto, em 1958, alguns "arquitectos/urbanistas" e, principalmente, o grupo auto-designado por TEAM X, depois de se afirmarem como convictos "utilizadores" da "cartilha", declaram a falência da "Carta" que tinham ajudado a "redigir" e, com ela, o fim da chamada "cidade moderna", ou seja, da utopia modernista. As razões eram muitas mas, de todas, sobressaía a questão da "guetização" da cidade provocada pelo "zonamento" e, consequentemente, a questão social e de "segurança urbana", que a cidade moderna era suposto garantir, mas que a realidade se encarregou de negar.

A verdade é que a cidade moderna não só não resolveu a questão dos "centros históricos" como os deixou à sua sorte e condenou à desvitalização por pretensa inadequação a qualquer tipo de vida moderno. Muitos, foram destruídos para isolar "monumentos" ou desumanamente abandonados a estratos sociais de menores recursos, atirando, simultaneamente, outros, para novos bairros periféricos, atraídos por novas e monofuncionais "unidades de habitação", aí implantadas em generosos (mas enganadores) espaços verdes; as "grandes massas" passaram, assim, a chegar a "casa" apenas para dormir e para, na madrugada seguinte, regressar maçissamente ao "trabalho" no outro lado da cidade, repetindo, sem cessar, este circuito infernal todos os dias, todo o ano e anos atrás de ano.

Por isso, todos estes lugares se foram tornando progressivamente "menos seguros". Ou porque estavam dramaticamente vazios de dia nos "bairros dormitório", ou porque estavam, igualmente, desertos à noite, nas zonas industriais; circular era igualmente pouco seguro porque os transportes circulavam em vias próprias (e, portanto, segregadas) a abarrotar de gente condenada a viajar sempre nos mesmos sentidos e às mesmas horas, passando a consumir aí, horas de descanso, de recreio e de convívio.

Naturalmente que, neste quadro, tudo concorria para a rápida degradação da qualidade de vida nas novas cidades e, portanto, para a "reposição" da questão urbana, a que havia que acrescentar o consequente crescimento demográfico das zonas urbanas que já se desenhavam como metrópoles sem um "princípio" que as contivesse e sem um sentido que as sustentasse, condenadas a crescer indefinidamente de modo clandestino, informal ou marginal, "em mancha de óleo" e sem fim.

Hoje, voltamos a ver barracas, bairros de lata, clandestinos e casas sobreocupadas, e os cenários (político-sociais) do século XIX reeditam-se, perante a incapacidade da "cidade moderna". Hoje, temos a sensação ter regredido no que já pensávamos ser uma etapa ganha na modernização das cidades e das sociedades! E voltámos aos tempos das "cidades inseguras"!

in http://jn.sapo.pt/2008/01/11/porto/a_cidade_insegura.html

  • 2 months later...
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Habitação social: "O que resulta é o diálogo"
Professor catedrático da Faculdade de Arquitectura do Porto
2008-07-19
HUGO SILVA
Manuel Correia Fernandes, professor catedrático da Faculdade de Arquitectura do Porto, não tem dúvidas: mais do que as questões urbanísticas, são as questões sociais que estão na origem dos problemas nos bairros municipais.

Os problemas nos bairros de Lisboa e o anúncio da demolição do Aleixo, no Porto, voltaram a colocar na ribalta a habitação social. Correia Fernandes lembra a importância do diálogo com os moradores.

Ainda assim, Manuel Correia Fernandes entende que os empreendimentos devem estar abertos à cidade e sublinha a importância dos equipamentos de apoio às populações. Que não devem ser confrontadas com "soluções autocráticas", sem qualquer tipo de diálogo. Correia Fernandes considera ainda que juntar comunidades inteiras de hábitos muito diferentes não é, definitivamente, uma boa estratégia. Poderá ser sinal, até, de uma grande "insensibilidade".

As construções em altura, para habitação social, são potenciadoras de problemas?

À partida sim. Mas, no caso do Aleixo, é preciso termos atenção ao momento particular em que as torres foram construídas. Eram habitações volantes, temporárias, para as pessoas desalojadas da zona da Ribeira/Barredo. As torres são edifícios muito exigentes do ponto de vista dos serviços e de segurança.

Há bairros com blocos baixos, mas também com problemas.

É preciso distinguir duas épocas. Os bairros construídos nas décadas de 50 e 60 são de uma arquitectura pouco durável e de uma construção frágil. Os espaços são exíguos, os serviços reduzidos ao mínimo e as paredes muito fininhas. Depois do 25 de Abril foram feitas algumas correcções. Nos bairros anteriores, só se entrava por um lado e só se saía por outro. Os próprios transportes públicos não circulavam no bairro.

Mas como se pode resolver a situação dos bairros mais problemáticos?
Há bairros que não têm grandes problemas. Mas mesmo naqueles que são mais problemáticos, as situações estão sobretudo ligadas a questões sociais. Questões sociais muito importantes, como desemprego, que depois arrasta uma data de coisas. O que resulta, nestes casos, é a negociação, o diálogo, a organização em torno das associações de moradores, que vão tomando em mãos a missão de resolver alguns problemas. No entanto, há casos de associações que sem o apoio municipal ou da junta de freguesia têm que fechar os seus 'cafézitos' e locais de convívio. Há bairros com condições, mas sem equipamentos. E outros em que se vão fechando alguns os existem. Os moradores não podem ser confrontados com soluções autocráticas.

Mais do que uma questão urbanística, trata-se, então, de uma questão social?
Sim. É claro que os bairros construídos nas décadas de 50 e de 60 precisam de muitos melhoramentos nos edifícios. Mas não chega. Vão parar aos bairros comunidades inteiras com hábitos completamente diferentes. Só quem nunca andou na rua é que não sabe que uma comunidade cigana não tem nada a ver com uma comunidade africana.

Como é tantas vezes dito, será preciso abrir os bairros à cidade, para que deixem de ser guetos, por onde só passam mesmo os moradores...
A cidade tem camadas - horizontal e vertical -, que muitas vezes não se tocam. É preciso criar pontes entre quem está em baixo e em cima, à esquerda e à direita, no meio e no centro. É muito complicado, mas é um trabalho que tem de ser feito. É um processo longo, demorado, não tem resultados imediatos.

in http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=969570

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