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Arcosanti é um fracasso mas também é um sucesso. Porque a cidade ecológica sonhada por Paolo Soleri ainda não está pronta. Por Andrea Sachs.
Mal cheguei a Arcosanti, uma eco-cidade experimental no meio do Estado do Arizona, tive a perfeita consciência da minha falta de sensibilidade ecológica. Tinha passado a manhã a lançar carbono para a atmosfera, durante o meu voo para Phoenix. O meu carro de aluguer estava cheio de garrafas vazias de refrigerante e de sacos de plástico e havia até uma casca de banana que eu não tinha nenhuma intenção de reciclar. A folha de papel onde eu tinha tomado nota de algumas indicações tinha voado pela janela fora e estava agora a sobrevoar uma zona de cactos eriçados. Com este tipo de atitude será que os servidores da Terra-Mãe ainda me deixariam entrar?
"Venha cá!" grita-me um homem trajado com um vestido, um cinto à volta da cintura e de modos joviais. "Venha beber uma cerveja".
O homem do vestido é um artista gráfico californiano e uma das 80 pessoas que vivem e trabalham em Arcosanti, uma comunidade-piloto utópica que defende o desenvolvimento sustentável. Depois de um longo dia de trabalho nos equipamentos solares , na jardinagem e a fazer pão, o grupo estava a descontrair à volta de umas cervejas. Quanto a mim, depois de um longo dia a lançar carbono para a atmosfera e a desperdiçar gasolina, um bate-papo com ambientalistas radicais era mesmo do que eu estava a precisar.
"Ponha as garrafas vazias aqui antes de se ir embora", disse um dos homens. Enfiei a minha garrafa de vidro num tubo de ferro disposto para o efeito. Já estava a contribuir para o ambiente.
Arcosanti foi fundada nos anos 1970 pelo arquitecto italiano Paolo Soleri, um entusiasta que tenta encontrar uma alternativa à nossa sociedade hiperconsumista e dominada pelo automóvel. Com este seu "laboratório urbano", Soleri, hoje com 88 anos, espera conseguir eliminar o automóvel, promover a frugalidade e criar um centro metropolitano que consiga viver dos recursos locais da terra: alimentos produzidos em hortas biológicas, energia do sol, ar condicionado da sombra, materiais de construção locais. Apesar de se tratar de um projecto ainda em fase de construção, Arcosanti já consegue oferecer aos seus moradores, em teoria, as mesmas comodidades de Manhattan: habitação, comércio, cultura e alimentação. Para o visitante, uma estadia em Arcosanti é uma oportunidade de misturar uma experiência de militância ecologista com uma fantasia tipo Blade Runner. Enquanto a maior parte das estâncias turísticas convencionais já exibe lâmpadas de baixo consumo, refeições orgânicas e passeios dedicados à conservação da tartaruga marinha, Arcosanti vai um pouco mais longe. O seu objectivo é mudar os comportamentos através de workshops, excursões, conversas, passeios e aperitivos com os locais.
"Arcosanti é, ao mesmo tempo, um sucesso e um fracasso. É um fracasso porque é muito menos do que o seu fundador esperava que fosse, mas é um sucesso extraordinário porque existe, está habitado e consegue mudar a vida das pessoas", diz Susan Piedmont-Palladino, conservadora do National Building Museum de Washington, que está a organizar uma exposição sobre comunidades verdes. "O seu maior sucesso tem sido a sua capacidade de se antecipar ao que tem acontecido no campo da arquitectura e ambiente."
Arcologia
Arcosanti foi fundada com base nos elevados conceitos da "arcologia" - uma expressão inventada por Soleri e imaginada por muitos autores de ficção científica que funde "arquitectura " e "ecologia". O movimento defende superstruturas que fornecem espaço residencial e comercial para as massas, mas com um impacto ambiental mínimo. São colmeias feitas para pessoas.
A partir da autoestrada, Arcosanti é invisível. No entanto, à medida que me aproximava do parque de estacionamento, o seu desenho foi-se tornando evidente: uma mistura de construções de cimento cor de terra com grandes janelas circulares, absides abobadadas e cheias de cuidados pormenores. Algo como um bunker para a Terceira Guerra Mundial construído por um diletante rico.
A propriedade ocupa 6 hectares de terrenos cobertos de cactos, uma pequena fatia dos 350 hectares que são propriedade da Fundação Cosanti, uma organização sem fins lucrativos que ainda aluga mais 1300 hectares ao estado do Arizona. A fundação é financiada pela venda de obras de Soleri, workshops e outras iniciativas.
Apesar da sua pequena extensão, Arcosanti contém tudo o que é necessário à vida de uma aldeia: um café, uma padaria, uma galeria de arte, apartamentos e dormitórios para residentes e visitantes, jardins e estufas, uma fundição, estúdios de carpintaria e cerâmica, um anfiteatro e uma piscina com vista para um mar estático de areia e rochas.
Os moradores com quem me cruzei eram uma curiosa mistura: frequentadores de um workshop com uma duração de várias semanas que ensina arcologia e outros tópicos artísticos e ecológicos; estagiários que faziam a sua formação prática nas mesmas especialidades; e residentes fixos que, em muitos casos, se instalaram aqui definitivamente.
Há quem tenha descrito Arcosanti como uma "comuna", mas seria uma melhor descrição dizer que são uma "comunidade unida". Poucos minutos depois de me instalar, num quarto sem luxos com uma vista desimpedida sobre o deserto, fui convidada para uma festa que teria lugar na noite seguinte. O tema era o cubo Rubik: devíamos levar roupa de três cores do cubo e, no fim da noite, devíamos estar vestidos de uma só cor. Divertido. Arcosantis Gone Wild. (Não cheguei a ir à festa mas disseram-me que a roupa tinha começado a voar depois da meia-noite.)
Conheci os meus vizinhos do lado, pais de Anna Greenberg, uma residente permanente de 23 anos, originária de Washington.
Greenberg, que trabalha na fundição e na padaria, foi a colorida guia da nossa visita, vestida com um fato-macaco púrpura, Crocs cor-de-rosa e um piercing prateado por cima do lábio. À frente de cada edifício, ia-nos apontando as características inovadoras: o calor da fundição, por exemplo, é usado para aquecer os apartamentos que ficam por cima. A evaporação da água de um canal que rodeia o palco do anfiteatro refresca os espectadores. Oliveiras que foram recuperadas de Phoenix produzem sombra e dão um sabor mediterrânico às refeições.
"Isto não é a arcologia perfeita, mas é um sítio onde podemos fazer experiências" diz Greenberg, admitindo que a cidade ainda está ligada à rede eléctrica, tem de comprar alimentos do exterior e ainda só está construída a 5 por cento. "Foi desenhada à escala humana, enquanto Phoenix foi construída à escala do automóvel".
É verdade: durante as 48 horas seguintes não precisei de usar o carro.
A influência de Wright
Durante a sua juventude Soleri estudou com Frank Lloyd Wright, tendo frequentado a famosa escola do arquitecto em Taliesin West. Acabaria por ser expulso devido ao seu comportamento indisciplinado, mas não antes de ser conquistado pelas ideias de Wright sobre a arquitectura orgânica.
Durante um passeio por Taliesin West, a cerca de uma hora de Arcosanti, para sul, em Scottsdale, um subúrbio de Phoenix, a nossa guia leva-nos a visitar a casa e o atelier de Wright. "Ele ia buscar as suas ideias à Natureza", explica. "A Natureza era a sua religião, com um N maiúsculo".
Alguns dos temas preferidos de Wright, que reaparecem em Arcosanti, são o uso de materiais locais e de elementos multifuncionais: uma piscina serve para nadar, mas a sua água também é usada para apagar fogos e refrescar o ar.
Wright achava detestáveis as entranhas da indústria e ameaçou arrasar Taliesin West quando instalaram torres para a rede de alta tensão, poluindo a sua vista. Acabou por simplesmente lhes voltar as costas e virar-se para as montanhas, mesmo atrás do que passou a ser o seu pátio da frente.
Arcosanti também tenta desvanecer as marcas menos atraentes da nossa sociedade industrializada e dependente do automóvel. A auto-estrada não é visível da propriedade, nem os arcos dourados do McDonalds que está ao pé de Cordes Junction. E, à noite, o brilho das luzes de Phoenix não empalidece o céu cheio de estrelas.
Apesar da sua preferência pelos cenários naturais, Soleri passa uma parte do tempo em Cosanti, a sua casa, estúdio e galeria perto de Paradise Valley. O resto da semana é passado num apartamento em Arcosanti.
Construído nos anos 1950 e classificado como Sítio Histórico, Cosanti é uma propriedade de dois hectares que se estende por sete estruturas surreais que incluem as instalações dos aprendizes - onde Steven Spielberg parece ter ido buscar a inspiração para o habitat dos Ewoks, no Regresso do Jedi. Cosanti é também uma gigantesca exposição dos característicos sinos de Soleri, de bronze e cerâmica, que pendem de todos os sítios possíveis e imaginários. Quando o vento da tarde varre Cosanti, o som é mais feérico do que o de uma peça de Philip Glass.
Como Arcosanti é uma cidade de trabalho e não uma estância de luxo, os visitantes são deixados entregues a si próprios e têm de encontrar com que se entreter. As distracções mais óbvias são a excursão de uma hora (que eu fiz), a padaria (também) e a galeria (vi os sinos todos e toquei alguns). O café serve três refeições por dia e de vez em quando exibe trabalhos dos residentes (cobicei a mesa baixa feita de um anúncio de Marlboro). Depois disto, estava por minha conta - apesar de ter pedido sugestões.
Uma delas veio de Clifford Hersted, o antropólogo residente e o melhor explorador de gravuras rupestres da região. Durante os quinze anos que passou em Arcosanti, encontrou centenas destes vestígios rabiscados em rochas e identificou paredes de pedra construídas por índios pré-históricos por volta de 1300 AD.
Partimos a pé numa quente manhã de domingo, com Cliff vestido dos pés à cabeça em roupa especial para o deserto. O nosso grupo incluía Colleen, de Michigan, que fazia sinos; Alessandro, um fotógrafo italiano; e Peter, um chefe de cozinha de Wisconsin que me tinha deixado ajudá-lo a preparar o jantar na noite anterior. (Quando se quer ajudar nalguma coisa, basta dizer. Os moradores agradecem sempre.)
Seguimos todos atrás de Cliff, numa fila irregular, como patinhos recém-nascidos atrás da mãe. Ele levava um cajado na mão para afugentar víboras.
É preciso algum tempo para treinar o olho a distinguir construções feitas pelo homem dos elementos naturais, explica o antropólogo. Apesar de estar com a máxima atenção, foi preciso que me chamassem a atenção para as gravuras que estavam mesmo ao pé do meu cotovelo: figuras de caçadores com pouca carne sobre os ossos e antílopes que não davam mostras de ter medo de se transformarem numa refeição.
"Não sei se os encantavam ou se os drogavam", diz Cliff, "mas as caudas dos animais estão caídas, o que significa que não estão com medo. Isto é um relato verídico".
Depois de regressar, era tempo de fazer uma coisa que não fazia há dois dias: guiar.
Antes de partir para Phoenix, atei um pequeno sino Soleri ao meu espelho retrovisor. O enfeite de bronze tilintou docemente durante todo o caminho até à auto-estrada, mas depois começou a balouçar perigosamente em direcção à minha cabeça. Nessa altura decidi tirá-lo e guardá-lo num sítio seguro.



Fonte: Público / The Washington Post

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