JVS Posted April 13, 2008 Report Posted April 13, 2008 S. João da Madeira - Parque Urbano do Rio Ul “Parque feito em três anos é um prazo excessivamente curto” Sidónio Pardal é arquitecto paisagista e dá aulas na Universidade Técnica de Lisboa O Parque Urbano do Rio Ul deverá ser inaugurado já em Maio, mas o arquitecto Sidónio Pardal, autor do projecto, afirma que ainda vai demorar 20 a 30 anos a ganhar naturalidade. Uma ferida que se transformou em arte. Um tímido fio de água corre hoje em leito abundante, ladeado por muros de granito e espaços verdejantes. São 300 mil metros quadrados no Vale do Rio Ul que ao longo dos últimos três anos, sofreram profundas modificações pela mão do arquitecto paisagista Sidónio Pardal. O rio foi alargado e o percurso desviado, construíram-se cinco açudes, uma zona pedonal relvada, foram instalados sistema de rega semi-automática, bancos, bebedouros, placas informativas e de sinalização e iniciou-se o processo de despoluição das águas. O Parque Urbano do Rio Ul está prestes a nascer. Segundo a Câmara Municipal de S. João da Madeira e o autor do projecto, a inauguração deverá acontecer em Maio, no âmbito das comemorações da cidade. Mas Sidónio Pardal defende que seriam necessários ainda mais 20 a 30 anos para o espaço ganhar naturalidade. De acordo com este sanjoanense, que também projectou o Parque da Cidade do Porto e o Parque da Paz de Almada, este tipo de equipamento “não se faz a correr”. Três anos, tempo que demorou a ser construído o Parque do Rio Ul, “é um prazo excessivamente curto”, defende o arquitecto, que também dá aulas na Universidade Técnica de Lisboa. Orçado em cinco milhões de euros, o Parque Urbano do Rio Ul foi encomendado ao arquitecto Sidónio Pardal, em 2001, pela câmara de Manuel Cambra (CDS-PP). Três anos depois do arranque da obra, em 2005, o Vale do Rio Ul é apresentado com um novo rosto. Em 2001, foi convidado pela Câmara Municipal de S. João da Madeira a elaborar o projecto arquitectónico para o futuro Parque Urbano do Rio Ul, que concluiu em 2005. A inauguração está prevista para Maio deste ano. Foi demasiado tempo para ver o parque concluído? Um parque não se faz a correr. Este foi feito sensivelmente em três anos, o que é um prazo excessivamente curto e, porventura, esse poderá ser o seu problema. Porquê? Porque não dá tempo ao projectista para fazer o acerto da obra. Quanto mais tempo demorar melhor, porque permite ao paisagista definir o seu acabamento e melhorá-lo. A paisagem exige uma definição em obra que não se compadece com empreitadas rápidas. Tem que ser uma obra assistida e artesanal. Por isso, o parque ainda vai demorar 20 a 30 anos a chegar à sua maturidade. Vai sofrer agora uma série de transfigurações. Que tipo de transfigurações? Agora, podemos fruir o parque de uma maneira que as gerações futuras não irão poder. Neste momento, a expressão da paisagem é mais marcada pela modelação do terreno. Mais tarde, o arvoredo vai ser mais expressivo. Inicialmente, comecei por fazer o Jardim Municipal, depois a autarquia [de Manuel Cambra] pediu-me para fazer a recuperação paisagística do Vale do Rio Ul. Fizemos esse estudo em três fases e depois o projecto de execução em quatro fases. Há ainda para o lado Norte umas ideias, mas que ainda não avançaram. “Introduz na cidade uma dimensão paisagística” O que irá oferecer este parque à população? Parque é a antítese de jardim. O jardim é um espaço doméstico, é um complemento da casa, que é um refúgio e um local onde nos protegemos de um exterior selvagem e hostil. Natureza ou “paisagem” são conceitos puros. Não estão relacionados com o mundo exterior, é um mundo imaginário, tal como o conceito kantiano das ideias puras que remete para o imaginário de um paraíso. Um parque tem como referência essa ideia de natureza acolhedora e paradisíaca, antagónica ao espaço selvagem. Mas também não é o espaço doméstico. O jardim está confinado à escala da casa, enquanto que o parque se pode extrapolar para o mundo. É criar dentro da cidade, uma paisagem que ela não tem. A cidade é um lugar com espaços extremamente funcionais, que servem para as necessidades quotidianas. Todo o espaço está organizado e codificado e, nesse sentido, a cidade é um local que resulta de uma arquitectura funcional. Tem uma imagem arquitectónica mas não tem uma paisagem. Este parque introduz na cidade uma dimensão paisagística, que até aqui não tinha. “Era como uma ferida na cidade” Quais foram as principais modificações operadas no vale? A escala foi completamente transformada. O leito foi alargado. E, à medida que foi artificializada, a paisagem parece mais natural. O vale também está preparado para resistir às cheias. Há dois anos, houve uma cheia terrível, quando o parque ainda estava em obra. Houve uma ligeira cedência junto a um açude, mas o problema foi rapidamente resolvido em duas horas. Antes, era um espaço feio, degradado, ocupado por uma geometria de campos agrícolas e com uns maciços arbóreos aleatórios. Era como uma ferida na cidade. Não tinha uma expressão paisagística. Hoje, tem uma expressão naturalista que lhe foi dada pela arquitectura da paisagem. Antes era uma coisa mais ou menos em bruto, hoje é uma obra de arte. “Faço uma criação livre e independente” O que é paisagem de expressão naturalista? É uma construção da mente que se concretiza. Mas paisagem é um conceito que se consciencializa só a partir do século XV. A apropriação estética do território é recente, enquanto que a arquitectura tem milhares de anos. O conceito de paisagem ainda se presta a muitas confusões, nomeadamente entre parque e jardim. Um parque deve ser um espaço descodificado, ele não tem uma função própria. E um dos problemas dos parques é quando não se percebe essa dimensão. O importante é o seu despojamento, a entrega como espaço livre, sem nenhuma actividade que condicione as pessoas, a tal ponto que é normal ver uma pessoa deitada ao sol em fato de banho, a correr ou jogar à bola, a ler ou simplesmente passear com uma toilette de cerimónia. É o projecto que adapta ao meio ou, pelo contrário, o espaço que se modifica para acolher o parque? O meio foi modificado para albergar o parque. O curso normal do rio, em alguns troços, foi deslocado. Construíram-se açudes de regularização, procedeu-se ao alargamento do leito e à estabilização das margens. As diversas larguras do leito assumem, sempre que possível, a escala da paisagem. Em que linha arquitectónica se insere este parque? Toda a história da arquitectura paisagística me influencia… seria grave se não houvesse obras de grandes mestres que não me influenciassem. Mas cada caso é um caso. Não tenho a mínima noção do que me influencia. Não me preocupo com essas matérias. Faço uma criação muito livre e independente e não estou preocupado em seguir escolas ou movimentos. Por: Salomé Pinto As preocupações do arquitecto Por uma questão deontológica, Sidónio Pardal não se pronuncia sobre o planeamento urbano da cidade. Mas não se imiscui quanto ao parque do Rio Ul, cuja dimensão poderá ser insuficiente para atingir o objectivo a que se propõe: separar o tecido urbano do espaço livre. Durante a concepção do projecto do Parque Urbano do Rio Ul, quais os pontos que lhe exigiram mais atenção? Um dos problemas fundamentais era dar um enquadramento ao rio e ao vale, dar-lhe uma autonomia, de modo a ter uma naturalidade própria, de tal modo que as pessoas se sintam longe do edificado, daquela presença geométrica e pesada da cidade, não obstante ela estar ali a dois passos. Era explorar o contraste entre o espaço livre do parque, com a sua expressão naturalista, e o espaço construído e edificado e formalmente organizado do tecido urbano. Preocupa-me imenso se as pessoas se vão sentir lá bem. Vamos ver como é que os utentes se apropriam do parque, como o usam, se conseguem descodificá-lo. Mas receio que este parque seja demasiado reduzido para isso. Não teme que a poluição possa gorar as expectativas para este parque? A poluição é sempre algo profundamente terrível, desagradável, mas os municípios estão a trabalhar intensivamente para a despoluição. Creio que, em S. João da Madeira, o rio está praticamente despoluído. Agora, é preciso que a Câmara Municipal da Feira e o INAG [instituto da Água] façam a sua parte. Durante a construção foram efectuadas alterações ao plano original? Há sempre simplificações. Quanto mais despojado mais interessante. No papel, complica-se mais. No terreno, simplifica-se. É a materialização do belo natural. Enquanto arquitecto paisagista, como avalia o planeamento da cidade, sobretudo no que diz respeito à paisagem e espaços verdes? Geralmente, não me pronuncio sobre as políticas e acções da câmara, enquanto estou a trabalhar para ela. Se disser bem, pensam que estou a ser simpático com o cliente, se disser mal não fica bem. Por uma questão ética e deontológica, prefiro não me pronunciar enquanto estiver a trabalhar para a autarquia. S. João da Madeira é uma cidade bonita? É confortável e acolhedora. Tem uma excelente centralidade. Por: Salomé Pinto in http://www.labor.pt/noticia.asp?idEdicao=128&id=6024&idSeccao=1252&Action=noticia Quote
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