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[via AspirinaLight.com ]


Sempre quis escrever uma carta aberta, mas nunca encontrei causa para os meus intentos. Tenho visto algumas cartas abertas pela imprensa escrita e confesso que algumas são verdadeiras pérolas de semântica e bem escrever. Ainda as confundo com o chamado ‘direito de resposta’. Dever-se-íam definir ambos os conceitos, de modo a que quem queira escrever uma carta aberta não acabe por cair afinal no erro de accionar o respectivo direito de resposta.

Estimo que isso não esteja a acontecer comigo, neste preciso momento.


Leio via O Desproposito a carta aberta que escreve. Não possuía destinatário o que me parece lamentável, corre o risco de não chegar ao destino, e assim, não ser lida por quem de direito. Pior, de não ser interpretada com o cuidado que merece.


Bem escrita e assertiva, é uma espécie de herdeira natural do estilo curto e grosso com que a nossa literatura tão bem se tem vindo a tratar desde a revolução de 74. Uma espécie de mal estar permanente que não pressupõe nada de bom, um risco eminente de mudança e exultação do povo. Temo-nos vindo a debater com boas intenções do mesmo género ao longo dos últimos 34 anos, mas pecamos invariavelmente na forma como não conseguimos concretizar o ímpeto inicial e isso conduz-nos a sérios problemas de assumpção de identidade. Acabamos quase sempre por escolher o alvo errado.


O prazo do DL 73/73 desvanece aos nossos olhos, o tempo de discussão e aprovação da coisa começa a esgotar-se, e corremos o sério risco de vir mesmo a conseguir a aprovação do documento. Não me ocorre disparate pior. Uma espécie de catástrofe eminente à qual se não conseguirá escapar. Sobretudo porque esgotará o conceito de “bode expiatório” a que tantas vezes recorremos, é caso para nos questionarmos. E depois, de quem nos queixamos?


A discussão do 73/73 tem servido acima de tudo como um balão de oxigénio para a comunidade de arquitectos portugueses. Caso um dia, um documento idêntico, ou o mesmo, venha a ser aprovado, diz o Pedro, “simplesmente devolverá a competência de projecto àqueles com quem sempre deveria ter estado “, apesar de me sentir lisonjeado com a sua crença, acredito que o problema se encontra a jusante daquilo que defende. E no caso especifico o episódio de Sócrates é mera nota de rodapé no panorama de crimes urbano-paisagisticos com que nos temos vindo a deparar desde que o tema entrou em ponderação.


A aprovação sugerirá que pelo menos a competência no desenvolvimento de projecto estará entregue a quem de direito. Mas a história recente evidência que os arquitectos não perseguem esse objectivo como a maior das prioridades.


Não sou propriamente um acérrimo defensor do Decreto uma vez que acredito que muito boa gente sem formação no âmbito das artes estará dotada de melhor gosto arquitectónico do que a maioria dos licenciados em arquitectura que todos os anos iniciam o seu percurso profissional. E se reconheço culpa a alguém na morosidade do processo, então é dentro da própria classe, e todos os dias me deparo com as torres de Lisboa a lembrarem-me disto mesmo: ‘Que tudo é negociado’, e que dentro das prioridades de uma elite especifica, o 73/73 é episódio de somenos importância.


A parca imagem de cultura nacional que as obras de Sócrates nos transmitem é somente parte de um problema que os arquitectos não fazem questão de resolver acima de qualquer outra questão, e afinal, enquanto durar, é bandeira formidável para a luta da classe, conceito manhoso mas que serve perfeitamente os intentos dos demais. Pelo menos de alguns. Os que podem dar-se ao luxo de se não preocuparem com o passo seguinte.


Assim acontece em tantos outros lugares da nossa sociedade.


As estratégias de desculpabilização adoptadas pelo nosso Primeiro atestam apenas o provincianismo nacional. Não justificam mais nada que não seja a incapacidade de reconhecimento do erro, preconceito fundamental para a manutenção de uma série de lacunas de principio que minam a nossa forma de estar e que assim comprometem o desenvolvimento sustentado de um país à beira da falência, que falha pela total descoordenação entre as partes, e dentro das partes em si. Quando não conseguimos concertar uma estratégia que sirva a todos dentro de uma ordem profissional, de que modo conseguiremos um dia vir a justificar o direito à defesa da classe que se representa?


Considero muito útil a carta que escreve, desde que remetida à Travessa do Carvalho, números 21 a 25, com meia dúzia de aditamentos.
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Fazendo juros à utilidade da carta, aproveito a deixa (não muito curta, mas também grossa) para deixar ainda mais umas coisitas, bem ao nosso estílo (e digo nosso por cortezia). E não vai com destinatário - é só pra quem apanhar. Que a revogação dessa lei anda a ser travada/dificultada pelos engenheiros que alegam, em igual ordem de ideias, que também apenas eles deveriam ter a exclusividade de determinadas assinaturas que o arquitecto pode, igualmente, passar, penso que não é segredo nenhum. Que a corrupção urbanística vai muitíssimo além da delapidação da paisagem (coisa que os arquitectos tampouco iriam evitar, como disse muito bem Sales Costa), é um assunto muito menos estudado, e até tabu. E para que se perceba a real dificuldade do animal que é a corrupção urbanística, dir-vos-ei sem mais tardança, que é uma questão de lavagem de dinheiro. Os narcotraficantes adoram pagar impostos! É a forma preferencial de "lavar" dinheiro adquirido de forma ilegal. O Estado agradece a sua fatia. Os meios de comunicação estão implicados, ou temem represálias. A linguagem burocrática tornam os processos imperceptíveis para o comum dos mortais. Os edifícios não de derrubam. As multas são insignificantes. Não havendo acusação, não há julgamento, e pagamos todos.

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Indo ao encontro do vosso raciocínio, que estou de perfeito acordo, cabe-me apenas acrescentar que se deveria "esquecer" o 73/73. Que quero com isto dizer, acho que cabe a cada um de nós, se calhar não como arquitectos mas como membros de uma sociedade tentar incutir nos restantes que a arquitectura é uma necessidade. Para muito cidadãos a arquitectura é um luxo, sei que custa muito assumir desta forma o problema, mas o grande ponto essencial esta aí. Isto no meu ponto de vista. Quando falo, provavelmente já aconteceu o mesmo convosco, com alguém a quem se tenta promover a arquitectura como uma necessidade de uma país, de uma sociedade, somos logo vistos como o tipo do lado que comprou um Porche, em que toda a gente critica mas no fundo todos queriam um igual. Resumindo, cabe a cada um tentar fazer passar esta necessidade, porque meus amigos, se estamos a espera que o decreto de lei venha resolver o problema, acho que nem nas próximas 5 gerações o problema vai acabar.

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"incutir nos restantes que a arquitectrura é uma necessidade?!... Hum... Acho que nunca tentei fazer outra coisa na vida. Sempre que me aparece um cliente com personalidade tento entusiasmá-lo o máximo possível, através do meu próprio entusiasmo: ir junto com ele ao terreno; visitar a sua casa e perceber quais os seus problemas diários. Ele envolve-se de tal maneira no projecto, que é como se estivessemos "dançando" juntos... Só aconteceu uma vez. De resto são coisas para vender, baratas e consensuais. Tenho a convicção que, para as pessoas, o arquitecto é um técnico que só tem de desenhar o que eles querem. Aliás, é pior do que um técnico, porque o técnico não questiona, limita-se a fazer, a passo que o arquitecto vai tentar lhes impingir o que ele quer, o que ele acha bem, a sua assinatura, à custa do suado dinheirinho que eles ganharam. Muitos apenas nos consultam para resolver problemas de legalidade, para ultrapassarmos a imensa linguagem borucrática, processos e leis. Só querem que a coisa seja aceita na Camara à primeira e sem chatíces. Quantos processos de loteamentos de coisas que já existiam... Isto é tanto cverdade que só nos pagam depois do projecto aceite, como é evidente.

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