nandombf Posted October 24, 2007 Report Posted October 24, 2007 ola.... gostava de saber se alguem conhece algum trabalho, alguma publicação ou outro tipo de informação sobre a historia da arquitectura das bibliotecas, ou sobre a sua evolução... obrigado.. Quote
3CPO Posted October 24, 2007 Report Posted October 24, 2007 Olá, Poderás consultar os seguintes números da revista Arquitectura Ibérica: A biblioteca: construção de Babel Jorge Ferreira O primeiro número da revista Arquitectura Ibérica foi, como este, dedicado às Bibliotecas, nele se incontrando um testemunho precioso sobre o tema, assinado por Diogo Pires Aurélio, então Director da Biblioteca Nacional, de Portugal. Nesse texto, tal como Umberto Eco numa conferência proferida em 1981, Aurélio cita o texto fantástico de Jorge Luís Borges sobre a Biblioteca de Babel. De igual modo, outros escritos recentes têm mostrado como o texto de Borges se tornou incontornável para quem deseja tratar este tema, sendo uma das razões a imagem de infinitude que transmite, relatada de forma tão poética: «O universo (a que outros chamam Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente». Local de uma magia invulgar, espécie de santuário, a biblioteca conheceu profundas transformações ao longo da história, especialmente ao nível da sua organização. O próprio termo biblioteca foi assumido na transição do século XVIII para o século XIX, numa época em que se começam a esboçar os fundamentos da designada biblioteca pública. Anteriormente, a expressão que encontrávamos era livraria. Diz Rafael Bluteau, em 1716, no seu Vocabulário Português e Latino que «ao lado dos templos colocavam os Antigos as livrarias, como capelas, ou sacristias, pegadas ao corpo do edifício». Para acrescentar: «Entre outros foi isto praticado no templo de Alexandria, dedicado a Augusto César, (segundo escreve Filo) e na cidade de Atenas, (segundo escreve Pausanias) mandou o imperador Adriano pôr a sua livraria». Este carácter sacralizado do espaço e do conhecimento que ele comporta manteve-se inequivocamente até aos nossos dias. Mostram-no, por exemplo, as abordagens que a arquitectura recente tem feito edificar. Mas, voltemos à literatura, território fértil em imagens, imagens a que o arquitecto recorre, sobre as quais trabalha e que são parte incontornável do seu arquétipo mental. Em O Nome da Rosa, Umberto Eco faz desenvolver o romance num convento medieval, sendo a biblioteca e o bibliotecário a chave para a resolução da trama. Tempos depois explica-nos, em Porquê «O Nome da Rosa» sob o título «O romance como acto cosmológico», que gostaria de ter situado a história no século XII ou no século XIII em vez da centúria seguinte, no ano de 1327. Mas, diz: «precisava de um investigador (…) que tivesse um grande sentido de observação e uma sensibilidade particularmente apurada para a interpretação de indícios. Qualidades essas que não se encontram senão no âmbito franciscano, e depois de Roger Bacon». Ora, se toda a trama é desenvolvida a partir do labirinto que era a biblioteca, não é menos verdade que o autor se inspirou na maior fonte que motivou a criação e a ordenação das bibliotecas até ao século XVIII: um conjunto de pensadores franciscanos, entre os quais se contam Bacon, Ockham, Lull ou o cardeal Cisneros para apenas citar alguns. De igual modo em Portugal tal influência se fez sentir, sendo exemplos conhecidos a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e a Biblioteca Pública de Évora, esta criada por frei Manuel do Cenáculo. Mas o erudito romance de Eco levanta outras questões de grande premência. Por exemplo, a propósito dos labirintos temos dois aspectos a equacionar. Um, que se prende com a organização do saber medieval e que em muitos aspectos se prolonga até ao Iluminismo, os conhecidos trivium e quadrivium. Por outro lado uma visão cosmogónica do mundo, que per passa para a organização do saber e, por consequência, da biblioteca – ou não fora ela o espelho do conhecimento e da sua organização em determinada época. A conhecida ANGLIA da biblioteca do convento que Umberto Eco nos revela pode ser vista quase em paralelo, sendo o labirinto de outro tipo, com a organização que encontramos descrita em Mafra. Um saber que se submete em primeiro lugar ao conhecimento de Deus e da Bíblia, da Patrística e, a partir destes, das várias Ciências e Humanidades. E aqui regressamos a Borges: Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha quase duas folhas de linhas homogéneas. Mostrou o seu accado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros disseram-lhe que era iídiche. Em menos de um século conseguiu-se estabelecer o idioma (...). Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Estes exemplos permitiram que um bibliotecário de génio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Ou do Universo, acrescentamos nós, dado o paralelismo inicialmente feito por Borges. Ora, com efeito, é a análise combinatória ou arte combinatória que encontramos em Ramón Llull, esse contemporâneo de Bacon a que alude Umberto Eco, e que tanto influenciou vários pensadores e filósofos e de forma tão clara o pensamento biblioteconómico. Somente Llull e Bacon se atreveram a uma verdadeira classificação do saber. Parece, pois, que tanto Borges como Eco nos pretendem mostrar que, tal como na biblioteca medieval, a biblioteca do futuro tem uma raiz cosmológica, uma vez que a orientação é uma atitude que implica uma relação com o Universo. Sendo, então, a lei fundamental da biblioteca o acesso ao Ser, ele só pode ser atingido pela via do conhecimento e do saber. Para tal, torna-se crucial a organização, permitindo que o mesmo se torne acessível, de modo cómodo, versátil, eficiente, veloz. A moderna biblioteca terá, então, que desenvolver e investir cada vez mais na designada área de “referência”, como área de preparação, de acesso a um pré-conhecimento. Espécie de antecâmara de acesso à escada da Subida e da Descida proposta por Llull: o entendimento ascende construindo a ciência e desce aperfeiçoando-a. A descida é apenas verificação. Assim, a biblioteca do futuro será cada vez mais um corpo misto. De um lado, a caixa-forte, residência do acervo documental, com todas as condições de preservação que tal exige: segurança, preservação de temperatura e de humidade estáveis, controlo da luz, fácil de acesso e organização. De outro lado, uma espécie de «futuroscópio», como lhe chamou George Steiner. Com a digitalização das espécies documentais e a sua disponibilização na rede, a biblioteca será cada vez mais a Babel, uma Babel cada vez menos física e cada vez mais memória.A rede nacional de bibliotecas públicas Constantino Piçarra Em 1987, no seguimento das conclusões do Grupo de Trabalho criado no ano anterior por despacho da então Secretaria de Estado da Cultura e cuja função era definir as bases duma política de leitura pública, surge, pela primeira vez, em Portugal, um projecto destinado a instituir uma Rede Nacional de Bibliotecas Públicas tendo por base o concelho. O objectivo é dotar cada sede de município duma biblioteca capaz de se ramificar pelas freguesias, através dum programa de apoio específico, tutelado pela administração central.O Programa de Ap oio às Bibliotecas Públicas O “Programa de Apoio às Bibliotecas Públicas”, que visa instituir esta Rede Nacional de Bibliotecas, cuja primeira versão data, justamente, de 1987, assenta na definição de três tipologias de bibliotecas em função do número de habitantes de cada concelho. Uma tipologia 1 (BM1) para os municípios com menos de vinte mil habitantes, uma tipologia 2 (BM2) para os municípios com mais de vinte mil, mas menos de cinquenta mil habitantes e uma tipologia 3 (BM3) para os que ultrapassem esta fasquia de residentes. Este “Programa”, que teve ao longo do tempo diversos ajustamentos, sofrendo, inclusivamente, uma pequena revolução em 1997, caracteriza-se por definir para cada tipo de biblioteca os diferentes espaços a criar, com a explicitação das respectivas áreas e funções, o equipamento e o fundo documental mínimo, os recursos humanos também mínimos e a sua inserção no tecido urbano, assinalando com estas indicações, algumas delas obrigatórias, não só o funcionamento futuro da biblioteca, mas também a sua arquitectura, embora só nas vertentes volumétrica e de localização na malha envolvente, pois em termos estéticos sempre existiu total liberdade de criação, aspectos que se têm mostrado decisivos no êxito deste projecto. Marcando decisivamente as bibliotecas delineadas no âmbito desta Rede, quer em termos dos objectivos pretendidos, quer em termos do seu impacto estético, elemento fundamental na atracção de público, encontramos os espaços públicos onde se destacam o átrio e as secções de adultos e infantil. O átrio é o local onde se estabelece a relação entre o exterior e o interior do equipamento e se distribui o público pelas diferentes áreas do edifício o que, em termos funcionais, significa ser este o espaço destinado ao acolhimento, informação e orientação dos utilizadores. É aqui, portanto, que se encontra o balcão de atendimento por onde passa todo o serviço automatizado de empréstimo e de devolução de documentos, bem como toda a informação relevante referente à vida da biblioteca e da comunidade onde está inserida. A secção de adultos é concebida como um espaço amplo destinado a albergar diferentes zonas, delimitadas entre si apenas pela disposição do mobiliário. Embora grande parte desta área esteja ocupada por estantes contendo diverso tipo de documentação em livre acesso, a maioria para empréstimo domiciliário, aqui cabem ainda uma zona de publicações periódicas, um espaço sempre atractivo pelo que, em regra, fica situado à entrada da secção, uma zona de referência / consulta local e de informação à comunidade, – constituída por documentos em diferentes tipos de suporte, desde o formato electrónico até ao suporte de papel, passando pelos documentos sonoros, audiovisuais e multimédia –, e uma zona de autoformação onde os utilizadores possam realizar as aprendizagens consideradas necessárias à adaptação a um mundo em constante mudança, com recurso às novas tecnologias aí instaladas (computadores com acesso à Internet, impressoras, etc.). A secção infantil, autónoma da secção de adultos, é formada por uma zona destinada ao empréstimo e à consulta local constituída por computadores com acesso à Internet e por diferentes tipos de documentos e, uma outra, fisicamente separada desta, a chamada “hora do conto”, vocacionada para a realização de actividades de animação de leitura. A estas zonas juntam-se, na tipologia BM3, um atelier de expressão plástica e, nas tipologias BM2 e BM3, um espaço destinado às crianças com menos de três anos.O Salto Qualitativo de 1997 Tomando em consideração as novas tecnologias de informação e comunicação que, na altura, se iam afirmando cada vez mais, primeiro nos Estados Unidos da América e, depois, na União Europeia, e a tendência para o incremento do registo da informação em suporte digital, bem como a expansão da Internet enquanto rede crescentemente utilizada para a disponibilização de produtos e serviços de informação, a versão do “Programa de Apoio às Bibliotecas Públicas” de 1997 teve o grande mérito de colocar as bibliotecas públicas portuguesas dentro deste movimento de modernidade. Para tal apontou a necessidade de colecções e serviços incluírem “todos os tipos de suporte e tecnologias modernas apropriadas, assim como fundos tradicionais”, conforme o estipulado no “Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas” de 1994, estabelecendo instruções claras no sentido da sua informatização e da criação de espaços que possibilitassem aos utilizadores o acesso à Internet e à consulta de documentos multimédia. A receptividade dos municípios A esta concepção física de biblioteca pública, tendo subjacente uma filosofia de funcionamento que privilegia o livre acesso dos leitores aos documentos e o primado do empréstimo sobre a consulta, e onde a disponibilização de serviços de informação à comunidade coexiste com uma acção bastante forte de animação cultural nas suas múltiplas vertentes, irão responder os municípios duma forma bastante positiva. Assim, de 1987 a 2006, foram apoiados pelo IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas) duzentos e sessenta e dois concelhos (85% da totalidade), entre os quais seis dos Açores e quatro da Madeira, regiões que a partir do ano de 2004 puderam, pela primeira vez, apresentar a sua candidatura a este programa. Embora destas bibliotecas só cento e cinquenta e nove é que estarão abertas ao público em final de 2006, o que ripresenta 60,7% da totalidade das apoiadas, pode-se afirmar que a Rede de Bibliotecas Públicas em Portugal é uma realidade inquestionável, a qual poderá, em parte, explicar a revitalização do mercado editorial português dos últimos anos e o incremento dos hábitos de leitura no país.O futuro da rede de bibliotecas Após dezanove anos de existência e num contexto onde se prefigura, senão a curto, pelo menos a médio prazo, a dotação de cada concelho com uma biblioteca pública, outros saltos qualitativos terão que ser equacionados, os quais deverão passar pela instituição de redes concelhias de leitura e pelo estabelecimento de diferentes patamares de cooperação entre as bibliotecas da rede e entre estas e outras unidades documentais, com o recurso às tecnologias de informação e comunicação hoje disponíveis. Serviços de referência on-line criados a partir da cooperação entre diferentes bibliotecas, constituição de catálogos colectivos por região e sua disponibilização na Internet, desenvolvimento de programas cooperativos capazes de consolidarem a vertente de animação das bibliotecas são, entre outros, alguns dos caminhos que importa seguir no futuro. Não deixar cair, a pretexto da conclusão do projecto de edificação duma biblioteca em cada concelho, a Rede de Bibliotecas Públicas que temos, uma das realidades culturais mais marcantes no país nos últimos anos– e que não tem tido a divulgação que merece em função da sua importância – é, não só um desafio colectivo a que não podemos fugir, mas também, e sobretudo, uma exigência democrática. Quote
Recommended Posts
Join the conversation
You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.