3CPO Posted May 27, 2007 Report Posted May 27, 2007 www.aspirinalight.com _ 27.05.2007 Defende Koolhaas que nos organizamos no caos. Que nos sabemos, antes, que só nos sabemos, organizar na desordem. Passo Delirious New York de uma ponta à outra a procurar entender esta suposta revelação de modernidade. Reconheço a critica social e estimo o importante resultado de um dos mais categóricos ensaios sobre sociedades contemporâneas que a intelectualidade arquitectónica produziu, mas tenho dificuldade em concretizar o resultado prático da tese. Urbanismo é confusão? Profunda descrença a minha. Séculos de evolução acidental comprovam que foi no tempo que o desenho do espaço cravou o seu sentido. Da cidade medieval aos primeiros grandes planos, tudo aquilo, num certo tempo, num certo espaço, fez sentido enquanto noção urbana. De vida e experiência urbana entenda-se. Digo que não é a capacidade de reflexão que nos permite identificar um movimento ou um estilo, essa é característica intrínseca das artes plásticas, da pintura, do cinema, da escultura, da musica e de alguma arquitectura. Mas não reconheço o urbanismo enquanto disciplina pertença da arquitectura. Nem da engenharia. Nem de qualquer outra ciência que ao estudo das coisas se decida dedicar. Tampouco como arte, no sentido lato do termo. O urbanismo é resultado prático imediato, é experiência continua de avaliação justa e precisa, cuja percepção se nos relaciona com a crueldade do falhanço e o deslumbre do resultado acertado. Koolhaas, como Clark, é sensível ao momento da avaliação mas desconsidera o acompanhamento histórico ao comportamento do homem no meio construído que o rodeia, enquanto animal que, como os outros, se guia por estímulos, por referenciais. No extremo, por coordenadas especificas que o localizam num ponto e lhe permitem estimar distâncias e ponderar uma acção no espaço. E é aí, no senso comum, que ao homem é útil o conceito de urbanismo, que no caso se confunde com noções de rua, estrada, avenida, alameda, rotunda, casa. Prédio. Edifício. E é na mediação da sua própria proporção com a da envolvente que o homem se movimenta. Para ele, é tudo quanto importa. Eventualmente, de quantas mais referências disponha, melhor se comporta na relação com o lugar. Certamente, quanto melhor estruturado o mesmo esteja, mais imediata será a resposta que dará à situação. E urbanismo, como a arquitectura propriamente dita, é muito (tudo ?) sobre situação. Mas o urbanismo, como a arquitectura, também é sobre linguagem corporal. E depende muito da linguagem corporal. A maior ou menor escala, é na expressão física das coisas que consideramos a relação que mantemos com elas. No caso, numa cidade, o lugar em que as coisas estão vem por acréscimo e por elementar consequência. Vejo passar de repente na RTP Memória imagem várias da frente oriental da Lisboa ribeirinha há pouco mais de 10 anos atrás, num tímido mas prometedor plano para aquela que viria a ser a Expo’98, mais tarde Parque das Nações, actualmente qualquer coisa que se não sabe bem o que pretende ser, mas que facilmente percebemos aquilo que ali se pretendeu fazer. O resultado é falho porque vem por adição. Uma década de adição kitsh a uma única ideia bem intencionada resulta num lugar de permanência quase única e exclusivamente na dimensão vertical, agressiva. Por fora o profundo desgosto de um patético construir precoce e incipiente. Curioso, um quilómetro para cima mora um dos mais notáveis exemplos de desenho urbano com que Lisboa se pode orgulhar. Nos Olivais há espaço, há distância. Há acontecimento e consequência. Anda muita gente por ali, de manhã à noite. Uma ideia inovadora com 40 anos de existência. A teoria do caos cai por terra, a um quilómetro daquilo que poderia ter sido um tratado contemporâneo, hoje, de desenho urbano. Parece ter-se aprendido com isso, mais a norte surge hoje a Alta de Lisboa com reminiscências salutares ao que foi em tempos a generosa pretensão dos Olivais. Veremos quanto tempo dura o bom senso em favor do também precoce e caótico instinto construtivo, a coisa anda quase sempre de mãos dadas com o capital. É sempre mau sinal. O Arquitectura.pt agradece a colaboração de Aspirina Light. Quote
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