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Mosteiro de Santa Clara-a-Velha tem “alta” daqui a um ano
Uma vasta equipa de especialistas está a trabalhar na recuperação do monumento, esperando “devolvê-lo” à cidade daqui por um ano. Até lá, a arqueologia vai marcando o ritmo da obra, que constitui o maior investimento do IPPAR – 7,5 milhões de euros

Olhando à intervenção que está a decorrer no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha desde Junho do ano passado e que se espera concluída nos inícios de 2008, talvez seja um pouco forte aplicar o termo obra. É certo que por lá existem andaimes, terra, lama e muita gente de roupa suja e capacete de protecção, mas o trabalho, a cargo dos especialistas em conservação e restauro, arqueólogos e historiadores, implica uma precisão quase cirúrgica. E uma grande percepção do espaço que se pisa. Afinal de contas, trabalha-se numa ruína que se pretende manter como tal, embora o uso a dar-lhe quando reabrir ao público seja bem mais abrangente do que aquele a que alguma vez esteve sujeito.
«Defendo que isto seja uma ruína, um espaço em que a magia, a fantasia e a memória arqueológica estejam presentes. Mas sendo um espaço de eventos, de utilização pública, terá que ser mudado. Terá que ter luz, fios, passagens para as pessoas, mas são intervenções de carácter minimalista. A ideia é fazer sentir o monumento enquanto espaço livre», começa por explicar Artur Côrte-Real, coordenador do projecto, avançando com um exemplo: «Olhares mais atentos, vão ver o sistema electroestático de defesa dos pombos, mas olhares gerais não o vão ver».
A intervenção divide-se em três componentes, qualquer delas complexa. «Intervir em património é intervir na complexidade. Por exemplo, nenhum andaime toca nas pedras», sublinha o arqueólogo.
A mais significativa diz respeito à componente arqueológica, presente do primeiro ao último dia da obra. O arqueólogo fala, por isso, numa intervenção em continuidade porque, de facto, muitas novidades vão emergindo à medida que se vai “mergulhando” em cada espaço do monumento, não apenas no que diz respeito a materiais arqueológicos mas também na arquitectura.
«Sempre que intervencionamos com o objectivo de minimizar o impacto da obra, estamos a descobrir novas informações, traduzidas em materiais arqueológicos diversos - cerâmicos, vidros -, mas também na arquitectura. A cada passo que se avança na igreja e no claustro, estamos a renovar as informações que temos», esclarece.
O restauro é outra das áreas em que assentam os trabalhos. Existe uma estratégia bem definida, regras de jogo muito claras, não sendo possível contemplar tudo no caderno de encargos. Cada peça arqueológica que se descobre entra numa cadeia bem definida, desde a investigação à conservação e restauro, até que possa ser exposta no espaço museológico que vai ficar no novo edifício, a terceira e última componente da intervenção. Trata-se de um espaço multidisciplinar, projectado pelos arquitectos Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez, que se pretende que sirva para continuar a desenvolver trabalho de investigação e conhecimento, mas também que divulgue os conteúdos junto do público, através de exposições e outros eventos de índole cultural.
Artur Côrte-Real espera que o tempo seco permita, a partir de agora, imprimir um ritmo cada vez mais acelerado, para que o sítio seja devolvido à cidade no início do próximo ano, afinal de contas o objectivo primeiro desta intervenção, que representa o maior investimento do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) no país – 7,5 milhões de euros.

Viver, morrer e renascer com as inundações

Falar do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha é também recordar as inúmeras inundações a que esteve sujeito ao longo dos séculos. Situado numa bacia de retenção, bem próximo do rio Mondego, o monumento enfrenta, por isso, algumas fragilidades. Que não vão terminar com esta intervenção, esclarece o coordenador do projecto. «Não há ninguém responsável que possa esquecer estas fragilidades. Daí que na nossa perspectiva, o sítio, representando a fragilidade, tem que ser respeitado como frágil. Portanto, devemos encontrar os mecanismos de defesa, não lutando demasiado contra a natureza», explica Artur Côrte-Real.
Por ter vivido e sobrevivido com a água sempre presente, o mosteiro terá que estar preparado para a receber de novo. «É preciso entender que este elemento está sempre presente», reforça, classificando isso como «uma atitude de coerência e respeito pelas fragilidades dos sítios».
O novo edifício está a ser construído a uma cota de segurança, mas nada garante que esteja a salvo de inundações. «Não podíamos estar a aqui a fazer um investimento tão grande e vir uma grande inundação e destruir aquilo que foi objecto de trabalho durante muitos anos», justifica o arqueólogo.
É também esta ligação intensa entre o sítio e o elemento água que se quer dar a conhecer à cidade, sobretudo às gerações mais jovens. Através de instrumentos visuais, pretende mostrar-se que a água está a um passo do mosteiro, «à distância de um ‘click’ da natureza».
Assim, nasce o memorial à água, um espaço informativo sustentado por um pequeno documentário da autoria de Catarina Alves Costa e Catarina Mourão. O coordenador do projecto sintetiza o que se pretende: «Que as pessoas não fiquem indiferentes a esta questão da água. Este memorial é um elemento de respeito».


Fonte: Diário de Coimbra

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