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David Chipperfield
Museu Literatura Moderna
Marbach, Estugarda

Em Junho deste ano foi oficialmente inaugurado o Museu da Literatura Moderna situado na pequena cidade de Marbach, perto de Estugarda, na Alemanha. O museu encontra-se situado no parque da cidade, no topo de um plateau rochoso sobranceiro ao vale do rio Neckar. O parque da cidade que é berço do dramaturgo Friedrich Schiller, alberga também um museu nacional com esse nome datado de 1903 e ainda o Arquivo de Literatura Alemã construído em 1970.



O edifício do Museu da Literatura Moderna apresenta-se como um templo neo-palladiano e ao mesmo tempo, um ensaio de minimalismo austero. Embebido na topografia, o novo museu revela-se ao visitante em diferentes níveis conforme o ângulo de visão. O aproveitamento do declive acentuado da escarpa através da criação de plataformas permitiu a criação de diferentes ambientes – uma entrada sombreada e intimista na fronte da encosta de frente para o Museu Nacional Schiller e o seu jardim e depois uma série de terraços descendentes de frente para a encosta e para o vale abaixo. Um volume em forma de pavilhão localiza-se na plataforma de cota mais elevada, oferecendo e induzindo ao visitante a entrada para o museu.



Chipperfield explica que o seu trabalho está a adoptar características diferentes consoante o país em que se encontre a projectar. ‘Algumas questões no atelier de Berlim são muito diferentes das do atelier de Londres’, diz ele. ‘Estamos claramente a jogar com diferentes linguagens arquitectónicas’.

Os interiores do museu vão-se revelando à medida que se faz o percurso descendente desde a loggia, foyer e núcleos de escadas, preparando o visitante para as galerias de exposição revestidas a madeira de tom escuro, apenas iluminadas com luz artificial devido à fragilidade das peças expostas. Ao mesmo tempo, cada um destes ambientes controlados dá para uma galeria com iluminação natural para equilibrar o mundo interno dos textos e manuscritos com a paisagem cénica para lá do vidro.

O conceito adoptado para a escolha dos materiais a usar baseou-se também na austeridade e na pureza da linguagem dos materiais em bruto (betão à vista, pedra calcária, madeira e vidro), acompanhando a linguagem calma, racional e sensitiva da forma do edificio. Para o pavimento foi usada pedra calcária local, para a estrutura e paredes internas foi usado betão com inertes do mesmo tipo de pedra e para as paredes da galeria e caixilharia da fachada de vidro no piso da entrada foi usada madeira de ipê. Para melhoramento do comportamento acústico foi usado tecido para alguns revestimentos interiores.

O aspecto mais marcante do edificio é o seu aspecto austero, em forma de templo e apesar de parecer relativamente simples, a geomorfologia do lugar permite ao edificio assumir um aspecto monumental quando observado de sudoeste, onde a fachada de dois pisos é visível.

A ortogonalidade é vincada com uma estrutura em betão atrás da qual se esconde uma pele de madeira. Apesar da austeridade dos materiais, o resultado final é bastante despretensioso e até descontraído incitando ao movimento pelo espaço do museu em vez de apresentar uma imagem estática e definitiva ao visitante. Ao aproximar-se pelo lado da praça até ao lado nordeste do edificio, a primeira impressão do visitante é a de um paralelepípedo com uma colunata. Contudo existem duas hipóteses de aproximação ao edifício.

A primeira é descer a escadaria pelo lado este do museu ao longo da colunata e depois rodar 180º até à área de recepção. A segunda (e mais provável) seria continuar na direcção poente em direcção ao Museu Schiller, virar em diracção a sul, andar um pouco até ao espectacular terraço antes de virar novamente em diracção a nascente e entrar. A segunda hipotese de percurso é claramente aquela que se quis induzir como sendo a principal e culmina na entrada propriamente dita, sinalizada simplesmente pela ausência de 5 colunas no lado noroeste do edificio. Este gesto é pura retórica mas é parte de uma sequência de percurso fabulosa.


A área de recepção é uma mistura de superficies de betão e de vistas através do edificio novamente para o exterior. As galerias situam-se num piso subterraneo, dada a necessidade de preservar os manuscritos e outros documentos da luz natural. As obras expostas incluem o manuscrito original de ‘The Trial’ da autoria de Franz Kafka e muitas outras relíquias da literatura alemã do século XX.

A planta desta galeria é uma sequência assimétrica quase palladiana dos diversos espaços que a compõem, com diferentes áreas e pés-direitos. Todos os espaços da galeria menos um têm acesso directo a um espaço naturalmente iluminado no perímetro do edificio, onde o visitante pode desafogar a vista. Um destes espaços percorre um dos flancos do museu, revelando a sua escala apenas com um relance, uma experiência única num edifício enterrado. O outro espaço que dispõe de luz natural é o mais espectacular. Tem-se acesso a ele directamente das áreas de exposição e oferece uma vista tão fantástica para o vale do rio Neckar quanto o terraço que situa acima.

O único espaço que não tem acesso às vistas é, curiosamente, o único que é iluminado por luz natural e albergará exposições temporárias. O duplo pé-direito do espaço permite a entrada de uma luz zenital não agressiva de norte, criando uma atmosfera semelhante à de uma capela.<br>
A escolha dos materiais funcionou perfeitamente nas galerias e é resultado da larga experiência de Chipperfield no projecto de museus. Contudo, pelo facto do objecto de exposição ser tão sensível (manuscritos e livros delicados) o nível lumínico máximo permitido é de 50 lux. Na galeria principal, a luz emana apenas das vitrinas, algo que a madeira de ipê aguenta perfeitamente sem perder o seu efeito estético.

Algumas críticas acusaram este edifício de se parecer superficialmente com arquitectura fascista mas as referências nasceram sim dos cânones da arquitectura clássica. O projecto foi influenciado pelo arquitecto Schinkel no seu ecletismo e neo-classicismo urbano e pelos arquitectos alemães que antecederam o modernismo da Bauhaus - Hans Poelzig e Peter Behrens que usaram referências classicistas fazendo uso de materiais industriais. É um edificio cheio de subtileza e humanismo com influências minimalistas e zen próprias de Chipperfield. Não poderia existir vencedor mais merecedor do Stirling Prize este ano.

Edição Construlink.com
Arq. Ana Rita Remourinho

IN http://www.construlink.com/Homepage/verDestaqueArquitectura.php?id=36
  • 10 months later...

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