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Cidade e cidadania
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Estamos a viver um período difícil, nas finanças e na economia, mas com evidentes implicações na vida social das famílias e comunidades.

Todos os dias, vemos notícias de indústrias que se deslocalizam e deixam atrás desemprego e incógnita, de serviços públicos que seguem a mesma lógica deslocalizante por motivos de reestruturação e deixam os cidadãos mais desapoiados, para não falar de cortes de verbas em investimentos públicos a que correspondem menos apoios periféricos e maior centralização de meios e decisões.

Tudo em nome da racionalidade e da redução de custos e melhor aproveitamento de meios, da modernização de estruturas e sistemas funcionais, da competitividade e excelência a que "o mercado global" nos obriga.

Ora, isto tem implicações na funcionalidade e no equilíbrio das cidades e obriga, em alguns casos, a repensá-las com maior critério e humanidade, sob risco de se tornar imparável tal movimento de perda.

Acontece com aquelas onde se anuncia ou já concretizou a perda de valências hospitalares, escolares, judiciais, empresariais ou são marcadas por acelerado envelhecimento etário das suas populações e fuga dos mais preparados e activos.

Acontece mais a Norte e no Interior e Alentejo e deve ser motivo de preocupação de muitos e muitos autarcas, porque arrasta perda de receitas e de influência e paralisação urbana ou mesmo recuo.

Dirá o leitor, conforme o local em que lê a crónica, que isto é o "retrato" da sua cidade, dos acontecimentos mais polémicos e relevantes que por aí se passam, um mau sinal dos tempos futuros e tal é um facto, pois há uma crise mais profunda do que aquela que os olhos vêem e que atinge a estrutura e o futuro da nossa sociedade urbana, uma vez que a rural é uma imagem que já foi.

Veja-se o exemplo do Porto, "capital do Norte" qual o mês em que não salta aos olhos mais um sinal de perda, produtiva, de investimento que deveria ser feito e se adia, de influência numa decisão que escapa, de saída de gente activa, de tomada (ou falta dela) de decisões desestruturadas e de pequeno alcance que deixam frustrados os cidadãos?

É demasiado notório e evidente para ser contestado, mas é-o também tanto que precisa de ser invertido com objectivo e coragem, ou seja, com um projecto de alternativas largamente consensual para ser galvanizante.

O que quer dizer que as cidades não se podem deixar abater, mas terão de ser repensadas e geridas em novos moldes, mantendo a sua personalidade específica mas despindo velhos pergaminhos e preconceitos que a realidade presente e, sobretudo, o seu desenho futuro, exigem seja feito.

É aceitável que se grite "Ó da guarda", porque nos estão a levar parte daquilo que nos habituámos a ver como património urbano consolidado e indiscutível, mas é um erro ficarmos por aqui, porque há movimentos irreversíveis e estamos a sentir alguns, que podem ser fatais se não forem contrariados com novas ideias e diferentes iniciativas.

As cidades estão a mudar e este movimento vai às suas estruturas e sistemas de vida e só se controlará com ideias novas, projectos mais ambiciosos e inventivos, contributos geracionais capazes de gerar novas linhas de força de uma cultura urbana diferente.

Nas exigências e nos compromissos responsabilizantes, na capacidade de risco e aventura, no sentido crítico de afirmação da cidadania.

A perturbação e a crise da cidade são um sinal de pouca saúde da cidadania, a começar no grau de preparação e cultura dos políticos e a terminar no alheamento e na indiferença do geral dos cidadãos.

Mas convém lembrar que por este caminho não iremos a lado nenhum; poderemos mesmo perder a oportunidade de reformar a cidade e afirmar a cidadania.

gomes.fernandes@europlan.pt


in http://jn.sapo.pt/2006/11/15/porto/cidade_e_cidadania.html

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