JVS Posted December 9, 2010 Report Posted December 9, 2010 Escrito por João Henriques DC MAGAZINE O que foi quer continuar a ser na Casa da Escrita A inauguração está marcada para o próximo domingo, mas o Diário de Coimbra dá hoje a conhecer a casa que pertenceu ao poeta João José Cochofel. O melhor conselho que podemos dar? Vá, leia, escreva, pense e, sobretudo, surpreenda-se O frio do Outono aperta. O sol, lá bem no alto, brilha, mas não é suficiente para aquecer. Estamos na Alta, em pleno centro histórico de Coimbra. As ruas estreitas em calçada acolhem casas centenárias. Agora, ali mesmo à beira da Sé Velha e da Torre de Anto, uma casa fascina pela candura. Está como nova. A casa e o arco, dupla inseparável. Ou não fosse a antiga residência do poeta João José Cochofel conhecida, também, por Casa do Arco, edifício datado do século XVI. Uma morada das letras, ou melhor, das artes, que, no domingo, será rebaptizada de Casa da Escrita. Assim que se entra, sente-se o lugar com história. Uma história literária, mas não só. Sobretudo das artes. Aqui nasceu o movimento literário do neo-realismo. «Um movimento muito importante na história da nossa literatura, mas também na cultura das outras artes», destaca José Carlos Seabra Pereira, que logo acrescenta que «aqui vinham conviver, mas também trabalhar» escritores como Fernando Namora, Joaquim Namorado, Carlos Oliveira, Rui Feijó, Eduardo Lourenço e Afonso Duarte. No número oito da Rua do Dr. João Jacintho, liam livros, viam revistas, ouviam realizações musicais. Nesta casa nasceram «boa parte dos primeiros livros de toda essa falange de escritores neo-realistas, mas aqui nasceu, também, o projecto colectivo do Novo Cancioneiro e foi, ao longo dos seus primeiros números, a redacção da revista Vértice e da revista Altitude». Um período desta casa, diz Seabra Pereira, curador da Casa da Escrita, «absolutamente marcante». Ultrapassadas as imponentes portas de madeira da entrada, a Casa da Escrita apresenta a recepção e um espaço de livraria. Estamos no rés-do-chão. As escadas de madeira levam-nos ao primeiro andar, onde os armários, antigos e embutidos na parede, por lá continuam, assim como os azulejos que dão cor às paredes do corredor. A sala, que era de jantar, tem cadeiras e mesas. A ideia é centrar aqui, na casa, a escrita. Mas indo mais além. «Queremos que esta casa nos continue a oferecer, como noutros tempos ofereceu a João José Cochofel e à sua geração, espaços de relacionamento, escrita, mas também de leitura, pensamento, transformação e debate de ideias», assume o curador da Casa da Escrita. Biblioteca simbólica O piano musica a sala nobre da casa. O vidro rectangular, ao fundo, obriga a fixar o olhar no exterior. O jardim, visto daqui, já seduz. Mas, por agora, não saímos do interior da casa. O piano, antigo, permite manter a relação que a casa sempre teve com a música, enquanto os tectos trabalhados conservam a memória da casa. Esta vai ser, aliás, uma das vertentes da programação da Casa da Escrita. «A criação da escrita literária com as outras artes», reforça Seabra Pereira. Escrita, leitura, livros. Estes estão na biblioteca, que era e continua a ser. Os livros que hoje aqui estão pertenciam todos a João José Cochofel. Simbolicamente, o espaço assim vai permanecer no dia da inauguração. «Estes livros eram os que a família tinha na casa, têm um bocado de história», sintetiza o professor universitário. Depois, depois do dia, outros livros vão ser colocados na biblioteca. «Não vão faltar livros em toda a casa e, sobretudo, coisas para escrever. A casa vai ser um espaço aberto para a escrita», prossegue o curador. Sem sairmos daqui, do interior da casa, nova “resma” de degraus transfere-nos ao espaço da residência, onde pode ficar um escritor de cada vez. Prontos a receber escritores portugueses e estrangeiros. Um poeta mexicano, em Março, e uma poetisa grega, em Abril, estreiam a residência da Casa da Escrita, mas outros são esperados. «Esses escritores dão a contrapartida da participação em actividades da casa enquanto cá estão e deixam ficar o texto que, entretanto, criaram na casa», avança Seabra Pereira, acrescentando que os “homens da escrita” vão vir «por iniciativa nossa, graças a determinadas circunstâncias ou por parceria com outras entidades ou programas». Mas nem só da residência se faz o segundo andar. Também tem algumas salas de trabalho, necessárias para quando a simultaneidade de actividades obrigar a procurar alternativas. Neste piso, uma sala maior serve de arquivo aberto. Com um duplo sentido. Por um lado, «porque está permanentemente a fazer-se, é o local onde a progressão da vida da Casa da Escrita vai ficando». Por outro lado, «esperamos que os frequentadores possam lá estar, ter acesso a essas produções surgidas na vida da Casa da Escrita e, quem sabe, até alargar esse arquivo, deixando outras produções». Mas esta é, de facto, uma parte muito bonita, já junto ao telhado, com grandes janelões e sítios propícios à leitura e à escrita. Jardim da criação O projecto de recuperação do imóvel, adquirido por 750 mil euros, pela Câmara Municipal de Coimbra aos herdeiros de João José Cochofel, é da autoria do arquitecto João Mendes Ribeiro. Obras que incluíram o jardim. Um espaço privilegiado da casa, referido, várias vezes, na obra de João José Cochofel e de alguns dos seus companheiros. Um poço, uma estufa, uma cisterna. Tudo isto está no jardim da Casa da Escrita. «Pode ser o ponto de partida para a criação literária individual ou em grupo», antevê Seabra Pereira, que pretende realizar «actividades dirigidas, especialmente, a explorar o jardim». Mas a casa, designada da Escrita, «espaço aberto a quem a frequentar», vai estar «cheia de locais» onde os visitantes vão poder «estar sentados a ler, mas, sobretudo, a escrever». «A criação em grupo, a escrita a várias mãos», em que o texto é começado por uma pessoa e continuado por outra, tem a «porta aberta» e é, segundo o curador, «uma prática a estimular». Depois da visita guiada à Casa da Escrita, o Diário de Coimbra pediu a José Carlos Seabra Pereira para revelar o que mais o encantaria se ali estivesse pela primeira vez. «O que mais me impressionaria era esta articulação de uma casa, do fogo do lar, que sempre foi a escrita, com o jardim e aquilo que já conhecia de ler em Cochofel e noutras referências ao jardim, ao bispo de pedra que é uma estatueta que existe e se torna quase uma obsessão simbólica para Cochofel e outros contadores da casa», confessa o curador da Casa da Escrita, que, «antes de a visitar, quase que já existia na minha memória cultural, de ler sobre ela, dos testemunhos de escritores que frequentaram esta casa e de falar até com um ou outro». Aberta à criatividade em torno da escrita A Casa da Escrita «não quer ser um projecto académico, não vai ser mais um departamento académico», nem tão pouco «uma casa de conferências», até porque «já temos muitas em Coimbra». José Carlos Seabra Pereira não esconde a ambição de ter «uma casa diferente, sempre ligada à escrita, à cidade e aos vários extractos sociais do concelho e da região», prestando «um serviço mais largo à comunidade». O curador realça o «espaço aberto à criatividade em torno da escrita», mas que pretende «estimular a relação com as humanidades, não só com a literatura, mas com as artes». Para tal, a Casa da Escrita vai organizar, «sempre que possível, encontros com a presença de um escritor, com um só texto, para, em relação com a música, a fotografia, o cinema, a pintura, a escultura, poder demonstrar como é que se gerou e se foi compondo aquele texto». «Aberta» é uma palavra sempre presente no discurso de Seabra Pereira. «Abertos para a sociedade e literalmente aberta no sentido em que funciona de modo a que as pessoas possam entrar e utilizar os vários espaços para ler, pensar e, sobretudo, escrever», garante o curador da Casa da Escrita, que vai ter «papel por todo o lado», mas também computadores para os visitantes escreverem, podendo «deixar os textos no arquivo aberto». IN http://www.diariocoimbra.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=10083&Itemid=135 Quote
Recommended Posts
Join the conversation
You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.