JVS Posted December 9, 2010 Report Posted December 9, 2010 Sobre o Forum Arganil + Cerâmica Terça, 23 Novembro 2010 13:19 Miguel Pinheiro "Se por um lado é positiva a organização destes momentos de participação pública, é fundamental não se perder este capital de intervenção, escolhendo mal o timming de o fazer. Este Forum poderia e deveria ter acontecido antes da definição do conceito estratégico de intervenção e antes da definição final do programa de ocupação". No Forum Arganil+ Cerâmica, do passado dia 20.11, foi apresentada a nova estratégia de ocupação e novas funções a conferir ao futuramente renovado edifício da antiga Cerâmica Arganilense, bem como a (generosa) arquitectura financeira que enquadra a intervenção e a futura gestão. Desde logo, seria importante perceber até que ponto se pode discutir um projecto ou uma estratégia quando já está no terreno (e avançada) a sua concretização física. Não pode. Se por um lado é positiva a organização destes momentos de participação pública, é fundamental não se perder este capital de intervenção, escolhendo mal o timming de o fazer. Este Forum poderia e deveria ter acontecido antes da definição do conceito estratégico de intervenção e antes da definição final do programa de ocupação. Mais ainda se enfatiza esta questão, no sentido em que foram apresentadas no Forum Arganil+ Cerâmica, novas alterações aos usos iniciais previstos, sem aparente discussão prévia, sequer nos órgãos de gestão autárquica (leia-se Executivo e Assembleia Municipal). As alterações referem-se ao programa para o bloco C (edifício original), concretamente ao abandono da localização de espaços comerciais (solução de fraca aceitação pública e de difícil sustentabilidade económica, desde o início) e sua substituição por espaço multiusos. Da mesma forma, foi apresentada a intenção de instalar três espaços de cariz museológico ou expositivo-informativo, dedicados ao Turismo, ao património histórico-etnográfico e ao rally de Portugal. A estas funções junta-se um supermercado, o Auditório e a Piscina, nos restantes blocos. Neste momento, que as obras avançam e apesar da irrelevância de discussão em termos do projecto, interessa aflorar aspectos ainda assim importantes: - Desde logo a evidente estratégia de concentração de valências culturais e sociais assumida em oposição a uma desejável polinucleação de intervenções, distríbuidas pela Vila, aproveitando património público expectante (casos óbvios do antigo Quartel da GNR e do Teatro Alves Coelho entre outros) que, reabilitando, contribuisse para a animação do centro histórico, para a valorização da paisagem urbana e até para o estimular da economia local. - Para além disso, importa referir que a aparente multifuncionalidade (no bloco C) apresentada como um aspecto positivo da intervenção, indicia não um conceito, mas a falta dele. Uma referência que se quer regional ou nacional mais do que meramente local, obriga a atitudes diferenciadoras. Obriga à definição de orientações estratégicas e conceitos claros de programação. Um investimento desta escala obriga a imaginação, criatividade e arrojo. Quando tudo cabe no espaço multiusos, como foi referido, a conclusão óbvia é que faltam ideias concretas do que se quer. E sobretudo do que não se quer. É, quanto a mim incompatível o uso simultâneo de um (ou neste caso três...) espaço museológico e a ocorrência de um casamento a decorrer no espaço sobre os fornos. E não é só pela eventualidade de me cair um croquete na minha esparsa cabeleira... Importa lembrar que ideias anteriores houve, para a Cerâmica, que poderão ter parado por falta de verbas, mas não por falta de ambição no conceito (caso do Centro da Cultura da Terra). - Por fim, a intenção de instalar os espaços museológicos referidos, não tiveram, no meu entender, reflexo na projecção de custos apresentada. E este é um aspecto fundamental. Por exemplo, para criar um espaço museológico de relevância proporcional à relação Arganil - Rally de Portugal, os custos associados à sua instalação, promoção e gestão e à criação de conteúdos multimédia, suportes e equipamentos são evidentemente bastante avultados e fundamentais para o sucesso. Como fundamental é prever espaço e condições dignas para o património arqueológico disponível e sobretudo o potencial! Isto custa muito dinheiro e não está ainda contabilizado. O Fórum Arganil + Cerâmica encerra na sua denominação a questão-chave: Arganil + o quê? O que ganha Arganil com esta intervenção e com este investimento? Desde logo, inegável, ganha património recuperado e uma piscina que é determinante para a qualidade de vida das pessoas. E mais? Ganha um novo espaço comercial de interesse e sustentabilidade questionáveis? Ganha um espaço de auditório que duplica programa e funções que podem ser clara e dignamente concretizados por um renovado Teatro Alves Coelho? Ganha um conjunto de espaços museológicos ainda sem projecto nem conceito expositivo, sem espólio totalmente definido, sem ideia de ocupação no espaço, sem custos de instalação e equipamento contabilizados e sem estratégia de gestão e promoção definida? Ganha um espaço multiusos onde tudo pode acontecer aparentemente sem critério, sem conceito cultural arrojado e sem programa diferenciador? Todas estas respostas serão dadas com o tempo. Só com a maturidade de vida do conjunto edificado e com o enraizar da dinâmica que eventualmente produza no quotidiano dos Arganilenses, poderemos ponderar o que realmente ganhou Arganil. Espero que sim, que ganhe. Sempre. O que perde ou que deixa de fazer com um volume de investimento desta escala será mais difícil de aferir, mas perfeitamente possível de imaginar. Miguel Pinheiro Arquitecto Paisagístico e Professor Universitário in http://arganil.eu/index.php?option=com_content&view=article&id=1859:sobre-o-forum-arganil-ceramica&catid=57:opinioes&Itemid=100014 Quote
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