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Filipe Balestra traz a Portugal "uma verdade inconveniente"

Depois de construir uma escola numa favela brasileira com os moradores e de ter dado nova vida a um bairro de lata na Índia, o jovem arquitecto Filipe Balestra vem a Portugal alertar para uma "verdade inconveniente".


Lisboa, 23 Out (Lusa) - Depois de construir uma escola numa favela brasileira com os moradores e de ter dado nova vida a um bairro de lata na Índia, o jovem arquitecto Filipe Balestra vem a Portugal alertar para uma "verdade inconveniente".
"Vamos focar um trabalho que responde a uma das verdades inconvenientes de 2009: um terço da população mundial está a morar em favelas e os arquitectos na sua maioria trabalham para quem paga", disse à agência Lusa o arquitecto, de 27 anos, que juntamente com a sua equipa quer contribuir para inverter esta situação.
"Estivemos na Índia a trabalhar na estratégia de desenvolvimento de bairros de lata", recordou Filipe Balestra, explicando que o conceito aplicado se baseia em trabalhar num processo com moradores, "em que eles fazem parte do design e da construção de novas casas".




http://aeiou.visao.pt/arquitectura-filipe-balestra-traz-a-portugal-uma-verdade-inconveniente=f534413

margarida duarte

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O arquitecto das favelas


Filipe Balestra inicia o seu percurso como poucos. Primeiro, uma escola na maior favela do Rio de Janeiro, no Brasil. Agora, um megaprojecto de 1200 casas num bairro de lata em Pune, na Índia. Com a arquitectura humaniza habitações em locais que não lembram, degradados, sem condições. Não é arquitecto de «controlo remoto», que desenha e pronto. Filipe envolve-se, usa palavras em vez de maquetas e projecta a gosto. Diz que é o seu contributo para melhorar o mundo, o Terceiro.


Vai correr mundo o nome deste arquitecto recém-formado. Filipe Balestra tem 27 anos e uma vontade enorme de «assinar» o mundo, o «Terceiro», com os seus projectos. Não por vaidade nem megalomania, que isso, garante, não é o que o faz mexer. O que o move é o fascínio pela profissão que escolheu – «talvez» por influência dos pais, ele é arquitecto e ela, urbanista – e com ela poder deixar o seu contributo, «fazendo da vida de algumas pessoas uma vida melhor». Podia contribuir de muitas maneiras: tornar-se voluntário numa instituição de caridade, ler para acamados, oferecer comida aos famintos, recolher roupa para os sem-abrigo, servir sopa aos pobres, conversar com os doentes. Podia, mas é na arquitectura que encontra a materialização de «uma missão», porque quem tem um espírito altruísta que atormenta por «não parar de fervilhar» tem uma missão e deve gastar uma parte do seu tempo a realizá-la.


Não foi o acaso que o levou a trabalhar nas favelas e bairros de lata. Foi por opção, ainda antes do diploma. Estava em Estocolmo, capital da Suécia, na universidade, a tirar o master em Arquitectura, e como trabalho de fim de curso decidiu fazer um projecto de uma escola na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro em número de habitantes. Apesar de um trabalho escolar, acabou por ser o seu primeiro grande trabalho, a que chamou Sambarquitectura, e que o levou à Índia, a um bairro social em Pune, onde agora está a desenvolver uma «vila» para 1200 famílias. Mas já lá vamos.

Filipe escolheu o Rio de Janeiro para implementar o projecto que lhe daria o certificado porque foi lá que nasceu e viveu até aos quatro anos. Escolheu uma escola, porque o Brasil tem 11,1 por cento de analfabetos (dados de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Escolheu uma favela, porque ficou-lhe a imagem dos morros apinhados de construções quando passeava por Copacabana, onde residia, que o fascinava. A Rocinha, por ter apenas duas escolas: «Aconteceu tudo muito depressa. Lembro-me de estar uma noite a pensar no que faria para o meu trabalho de fim de curso e a ideia surgiu-me de repente e não mais saiu da minha cabeça. Fui ao Google procurar duas ou três ONGs [organizações não governamentais] que trabalham em favelas e apareceu-me logo o Instituto Dois Irmãos [www.2bros.org/portuguese/]. No dia seguinte enviei-lhes um e-mail a dizer que gostaria de desenhar uma escola na Rocinha.»



Filipe não podia ter melhor sentido de oportunidade. E não é que o Instituto Dois Irmãos só estava à espera de um arquitecto? «Já tinham o local e o dinheiro para construírem uma escola, mas faltava-lhes quem fizesse o projecto. Creio que tinha passado por lá um arquitecto amigo de um amigo, que entretanto desistiu porque achou difícil fazer qualquer coisa de jeito em tão exíguo espaço».



Filipe fez as malas e atravessou o Atlântico, pensando que chegava, via o local, tirava as medidas, desenhava e entregava o projecto ao engenheiro e aos construtores; quando muito, passaria pela obra uma vez por outra para acompanhar os trabalhos. Não é, afinal, o que «faz a maioria dos arquitectos»?. A maioria, talvez, mas não Filipe. Fez parte da obra do princípio ao fim.



Na favela não podia ser de outra maneira. «Fui preparado para desenhar, para fazer maquetes. É isso que aprendemos na universidade. Os arquitectos não se envolvem nas diferentes fases da construção.» O que encontrou na Rocinha não encontrou em nenhuma sala de aula. E o que a Rocinha lhe deu nenhum professor lhe dará: «Quando cheguei percebi logo que as pessoas não tinham qualquer interesse pelos desenhos. A comunicação através do papel não tem lugar ali. Ali são as palavras que contam, a comunicação oral é a única que faz sentido. Então coloquei a caneta e o papel de lado e comecei a falar com as pessoas, a ouvi-las.



As conversas, achei-as tão interessantes que decidi filmá-las para um documentário que apresentei no meu trabalho de fim de curso.» Também nisto Filipe pontuou pela diferença: «Estava com medo de chumbar. Os suecos são muito respeitadores das regras e não é habitual um aluno finalista apresentar o seu trabalho em vídeo. Em todo o caso, para me proteger, apresentei-lhes também as maquetes. Passei.» Com que nota não sabe, que na Suécia ou se passa ou se reprova. «Os professores ficaram muito emocionados.» Trinta minutos de filme, a que a nm teve acesso, mostram o ambiente que se vive na mais lotada favela do rio, onde moram 200 a 300 mil pessoas em apenas 0,8 quilómetros quadrados.



Se Filipe tivesse mostrado aos professores apenas as maquetes da escola – uma escola de três andares que ocupa um total de oitenta metros quadrados mas somente trinta de implantação –, não teriam oportunidade de ver e sentir o que à volta se passa. Não saberiam o que realmente representa o projecto de Filipe para aquelas pessoas, porque na maquete não aparece a voz e o rosto e as mãos de Guilherme, mestre de obras, a cimentar os tijolos enquanto desabafa para a câmara de Filipe, queixando-se da negação da favela por parte dos «outros», os que vivem fora das favelas, os que nascem e envelhecem sem nunca pôr os pés na favela. Não é ficção tirada de um filme de Meirelles [realizador de Cidade de Deus].



O Brasil parece mesmo negar a existência das suas favelas, de outro modo como entender que a maioria dos morros esteja mapeada como áreas verdes? Fala Guilherme, pele negra luzidia, suada: «A Rocinha é um bom sítio para viver, mas é também um lugar esquecido pela sociedade, pelos políticos. As pessoas que aqui vivem têm de lutar: as crianças têm de lutar para aprenderem e os adultos têm de lutar para crescerem.»



Mas nem todos os que vivem fora da favela são como os que vivem fora da favela. Filipe residiu até aos quatro anos em Copacabana e também não havia entrado nesse «submundo» com vida paralela à das cidades grandes, ao mesmo tempo marginal. «Em Copacabana não se vê a Rocinha, mas vêem-se outras favelas», que no Brasil em todos os montes se constrói até à sobrelotação. Uma construção sem arquitectos, «intuitiva e criativa», como a vê Filipe, um estranho, porque quem está dentro, como Guilherme, diz que é feita de «muito suor e lágrimas» – mais do que madeira, mais do que tijolo, mais do que cimento, mais do que areia, as construções que proliferam como cogumelos morro acima são feitas de «matéria-prima» que sai do corpo: suor e lágrimas.



É uma construção sem arquitectos, sim, «mas com arquitectura», onde Filipe aprendeu a melhor lição sobre «costumização de casas». Que é como quem diz, desenhar uma casa apropriada às necessidades de quem a vai habitar. «Se é uma pessoa solteira, apenas precisa de um quarto, uma cozinha, uma sala; se é um casal com filhos, precisa de mais quartos... Ali o espaço é gerido de uma forma mais racional: se o homem é carpinteiro, faz uma oficina na parte debaixo da casa, se a mulher faz bolos para fora, tem um espaço pequeno para os poder vender...


Cada metro quadrado não pode ser desperdiçado» – esta lógica de ocupação terá sido uma herança dos escravos, que quando foram libertados no Rio de Janeiro, em 1888, e à falta de um pedaço de terra para se estabelecerem, ocuparam os montes; nessa altura não havia tecnologia adequada a terreno rochoso, as cidades construíam-se nas partes planas e eram habitadas pelos mais favorecidos.


Além de Guilherme, os professores também viram e ouviram Rogério, Daniel, Erik, Washington, Andrea, Marc, moradores na favela, a explicar a Filipe o que é o «gato», um termo que no Rio se usa para designar a maneira de «desviar» electricidade da rede pública e fazê-la chegar às habitações na favela. Os professores viram e ouviram ainda os testemunhos de três «meninos dos telhados», crianças que como muitas na Rocinha passam o tempo a correr por cima dos telhados das casas da favela e como muitas mais não andam na escola; as que andam, algumas ainda não aprenderam a ler nem escrever. «Talvez possas estudar nesta escola que estamos a construir», pergunta o arquitecto ao primeiro. «Sim.»



Os professores viram e ouviram as pessoas que vivem perto da escola e ficaram emocionados. E admirados com o empenho do aluno, porque Filipe também acartou tijolos, misturou água e cimento, quem o visse parecia um trabalhador da construção civil como os outros. «Sou um arquitecto que põe as mãos na massa. Aprendi a importância desse envolvimento aqui. Acho que está na altura de os arquitectos deixarem de ser arquitectos com controlo remoto. A obra tem de ser acompanhada no terreno.» Filipe passou na avaliação final, mas não por ter chegado ao coração dos mestres. «Foi porque fiz um bom trabalho.» Diferente, mas bom. Um ano e meio depois de inaugurada, a «sua» escola recebe diariamente 66 alunos – durante o dia enche-se de crianças e à noite de adultos; os professores são todos voluntários, de diferentes países. É difícil disfarçar o orgulho quando fala do resultado: «Sinto que fiz ali qualquer coisa que vai perdurar. Sabe, o segundo andar estava a ser construído e já o rés-do-chão e o primeiro andar estavam ocupados com crianças a terem aulas. Acho isso fantástico, porque revela a vontade enorme que aquela gente tem de aprender. O governo brasileiro devia dar mais educação às pessoas desfavorecidas em vez de pactuar com os investidores imobiliários para as escorraçarem das favelas, sobretudo as que têm vista de mar. As favelas com vista de mar têm uma paisagem muito apetecível e estão sob constante pressão imobiliária».






Filipe está agora na Índia, em Netaj Nagar (em Pune, a duzentos quilómetros de Bombaim), num bairro de lata que precisa de renovação profunda. O entusiasmo com que fala do seu trabalho em locais de aparência degradante e sem condições sanitárias e materiais revela uma entrega tão grande que transporta quem o ouve até ao terreno; é como se as suas palavras fossem acompanhadas de fotografias a três dimensões. Filipe fala e as imagens formam-se umas a seguir às outras na nossa cabeça, com todos aqueles elementos perceptíveis apenas quando estamos no local: o ambiente, as cores, os sons, o modo de vida.



Ao contrário da favela brasileira, onde tinha de ouvir os moradores e seguir as lei do bom senso e do respeito pelos vizinhos – «não se pense que quem vive nas favelas aceita uma construção qualquer e não aprecia a paisagem que vê a partir de casa» –, na favela indiana Filipe obedece a regras e a burocracias – é dinheiro do governo indiano que vai financiar o seu projecto de 1200 casas para 1200 famílias. E desta vez, não procurou, foi procurado pela Sparc (www.sparcindia.org/), uma ONG indiana que actua em favelas no sentido de encontrar soluções baratas para construir casas e saneamento – um dos mais graves problemas na Índia. «Pediram-me para desenhar uma estratégia para “habitação incremental”». Significa «desenhar casas que mais tarde possam ser incrementadas, aumentadas. Casas estruturadas para três andares e, se houver necessidade, no futuro poderem crescer em altura com mais um ou dois andares». Cada habitação custa aos cofres públicos cinco mil euros e cada família terá de pagar, para a habitar por um período de cinquenta anos, cerca de dez por cento desse valor. Findo esse tempo, poderá renovar o «contrato» com o governo.



O dinheiro disponibilizado pelo governo destina-se exclusivamente às casas, não abrange o espaço exterior, mas Filipe quer estender a sua intervenção à rua. «Estamos a fazer as casas um nadinha mais baratas, bastando para isso juntar as paredes de duas casas. Juntando, em vez de duas paredes só precisamos de fazer uma. Fazendo isto com as 1200 casas vamos conseguir dinheiro para plantar umas árvores, colocar uns bancos de jardim e criar pequenos espaços de lazer ao ar livre.»

Neste projecto Filipe não está só. Com ele estão a mulher, Sara Göransson, também arquitecta, e meia dúzia de amigos e colegas de curso. A jovem equipa de arquitectos apresentou três modelos de moradias – o A, o B, e o C –, pensadas para responder às necessidades de quem as vai ocupar (ver imagem dos protótipos). Filipe tem sempre a preocupação de fazer arquitectura para as pessoas: «São elas que escolhem o modelo de casa que precisam e são elas que escolhem a cor. É importante que se reconheçam no seu espaço.» Uma intervenção como esta é difícil num bairro cheio de gente e é por isso que nesta fase, a primeira de três, irão ser construídas apenas cem habitações – o termo certo é «renovadas», porque ao contrário da maior parte das localizadas em favelas, em que se «deita tudo abaixo e se constrói tudo de novo», neste bairro Filipe está a «melhorar» as casas existentes. Dar-lhes o conforto que não têm e acrescentar-lhes uma rede de saneamento. Por fases, será mais fácil deslocar as primeiras cem famílias para casa de familiares ou de amigos enquanto as obras se fazem. Começaram em Maio e se os cálculos de Filipe estiverem certos deverão terminar daqui a cinco ou seis meses.



Filipe Balestra é de ambição versátil. Não se importa de ser conhecido como o arquitecto das favelas, mas seria «uma honra conseguir fazer uma ponte entre o Terceiro e o Primeiro Mundo, o que só conseguirá se deixar a sua marca em países desenvolvidos, sem deixar os bairros de lata. Porque a coexistência é possível. Um dia poderá estar numa favela a implementar um projecto de cariz social e no outro a pensar num hotel luxuoso numa ilha paradisíaca, e, pelo meio, a imaginar o esboço de uma Casa da Música numa qualquer cidade europeia. Lisboa, quem sabe.



O regresso a Portugal é um desejo que alimenta: «É o meu país, é a minha casa.» Dessa vez não encontrará o ambiente com que cresceu em Miraflores, onde viveu dos cinco aos 17 anos. Aí jogava futebol num pequeno campo da bola «esmagado» pelos prédios, com os amigos do seu bairro, outros do bairro da Pedreira dos Húngaros e do bairro do Gato Preto e outros de Algés. Amigos que ainda mantém. Mas talvez vá surfar, como antes, nas praias de Carcavelos e da Costa de Caparica, que as ondas ainda lá estão, ao contrário dos bairros dos seus amigos de infância, onde agora existem condomínios fechados. Talvez Filipe possa um dia «melhorar» os bairros sociais em Portugal e torná-los bonitos, mais funcionais, mais tudo. Talvez o seu contributo acabasse de vez com aquele mal-estar de viver paredes meias com um bairro social. Um preconceito que tolhe especialmente aqueles que se fecham em condomínios de luxo. Com a sua arquitectura, humana, Filipe era capaz de conseguir esse «milagre».





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margarida duarte

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ESTRATÉGIA PARA HABITAÇÃO EVOLUTIVA – ÍNDIA

FILIPE BALESTRA
2009-10-01

Estava frio em Estocolmo. O orador era um senhor indiano, ícone incontornável do desenvolvimento do terceiro mundo. Jockin Arputham [www.tinyurl.com/y89u8mz] contou histórias sobre morar em Dharavi - o maior bairro de lata do planeta, situado no centro de Bombaim - e descreveu como é que se cresce num espaço onde é necessário dividir uma sanita com quatrocentas pessoas. No fim da palestra, apresentei-me a Arputham e desenhámos paralelos entre o Brasil e a Índia. Contei-lhe a história de Sambarquitectura, o meu projecto de fim de curso de arquitectura que consta de um processo participativo de arquitectura e construção de uma escola e centro social na Rocinha, uma das favelas do Rio de Janeiro. Arputham convidou-me a ir para a Índia ajudar a sua ONG, chamada SPARC [www.sparcindia.org], para desenvolver projectos de habitação.

Meses mais tarde, e com Sara Göransson, conheci Sheela Patel [www.tinyurl.com/yd7v58v], partner de Arputham, na conferência Informal Cities, que se realizou em Setembro de 2008. Foi Patel quem nos deu a luz verde para viajarmos até Bombaim para desenvolvermos uma estratégia para habitação evolutiva destinada aos bairros de lata no centro de cidades. A estratégia teria que ser implementável em diversas cidades para beneficiar o maior número de pessoas possível. Segundo Patel, a estratégia não teria qualquer valor se precisasse dos arquitectos para sobreviver; teria sim, de ser suficientemente simples para ser levada a cabo pelas comunidades, sem ajuda de arquitectos.

Eu já tinha passado pela experiência de desenhar e construir a tal escola na Rocinha, num processo participativo que envolvia membros da comunidade local. Sara Göransson trabalhara exaustivamente numa estratégia que controla e estrutura o crescimento de Estocolmo, unindo subúrbios segregados, fintando florestas, lagos e outras riquezas naturais. Göransson chamou a esse trabalho Lo-Glo, o qual é, neste momento, referência pelas autoridades locais, para o corrente Plano Director de Estocolmo.

Projectos anteriores de melhoramento de bairros de lata em todo o mundo envolveram a demolição de bairros inteiros, seguidos ou de uma construção de blocos de habitação social repetitivos e impessoais, ou do expulsar das comunidades do local onde sempre moraram para subúrbios distantes da sua zona de trabalho. Esta forma de extirpar comunidades que residiram no mesmo local durante décadas traz aos moradores, não só o desemprego, como também o fim de alguma segurança construída a longo prazo com a amizade entre vizinhos.

Quem vê de fora, tende a olhar os bairros de lata como uma parte infectada da cidade, um erro que deve ser apagado com medo de um contágio aparente. O antropólogo Rahul Srivastava e o urbanista Matias Enchanove explicam este fenómeno em “Mess is More” constatando que a psicologia humana rejeita o que não consegue compreender.

Só estando no terreno, a ouvir os moradores, conseguimos desenrolar, processar e compreender todas as camadas de informação justapostas e este contexto de hiper-densidade social. Este compromisso de humildade, amizade e confiança crescente são as raízes do processo de arquitectura participativa.

O projecto-piloto começou em Netaji Nagar, uma fatia de um grande bairro de lata chamado Yerawada, situado dentro da cidade de Pune, a 180 quilómetros de Bombaim. Netaji Nagar nasceu quando uma comunidade foi forçada a sair de um terreno onde se havia decidido que iria nascer um hospital. Netaji Nagar tem hoje 40 anos de idade.

Dentro destas aldeias urbanas, as casas podem ser ou Kacchas ou Puccas. As Kacchas são estruturas frágeis de carácter temporário, construídas com chapas metálicas, tijolos de baixa qualidade e outros materiais improvisados. Nelas há falta de iluminação e de ventilação natural. A atmosfera interior é brutalmente quente durante o dia, sistema que se inverte durante a noite devido à falta de isolamento térmico numa chapa metálica que faz simultaneamente de parede e telhado. Estas casas, com cerca de 12 metros quadrados de implantação, também não têm nem casa de banho, nem água. Mesmo assim, numa delas, podem morar várias pessoas, apertadas num só compartimento. As Puccas são casas de carácter permanente, bem construídas, com betão armado e tijolos de boa qualidade. Estas casas podem ter ocasionalmente casa de banho e cozinha. No Netaji Nagar, existem 106 Kacchas e 109 Puccas.

Famílias sem instalações sanitárias dentro de casa têm que usar “casas de banho comunitárias” - um edifício com sanitários de senhoras, homens, e um apartamento para o encarregado de limpeza e sua família. No Netaji Nagar, há pessoas que tomam duche todos os dias de manhã em plena rua, porque não existe nem espaço nem condições para o tomar em casa. A água é aquecida no fogo, que por sua vez é feito com ramos secos e lixo. As mulheres cozinham e lavam a roupa no chão em frente às suas casas, transformando meras ruelas em espaços intensamente sociais, nos quais múltiplas funções coexistem. Estas ruas são demasiado estreitas para passar um carro, mas suficientemente largas para passar um rickshaw, uma moto ou uma vaca. A maior parte das pessoas tem empregos temporários, sem contrato. Ganham para o dia, para a semana ou, mais raramente, para o mês. Aqui, não se sabe como vai ser o Futuro. Devido à falta de programas de integração e à densidade da população indiana, no contexto do êxodo rural, as famílias que migram do campo para a cidade acabam por repetir os padrões de comportamento que anteriormente tinham: trazem cabras, vacas e galinhas para morar naquelas ruas estreitas, adicionando assim mais uma camada de vida naquele espaço conturbado. Os animais famintos mastigam, engolem e digerem o lixo local, que é uma mistura de orgânicos e recicláveis. Vi uma galinha a fugir de um cão. Os animais passam fome. As pessoas também.

Dois meses depois de termos caminhado nas ruas de Bombaim e Pune, e de iniciarmos o processo, uma equipa internacional de arquitectos, urbanistas, um arquitecto paisagista e uma designer gráfica juntaram-se a nós para, voluntariamente, trabalhar para essas comunidades carentes, dedicando, tal como nós, uma fase das suas vidas para aqueles que não podem pagar o serviço de arquitectos. Ao Martinho Pitta, Carolina Cantante, Guilherme de Bivar, Rafael Balestra, Remi Turquin e Marta Pavão, agradecimentos eternos. Os moradores locais aceitaram a nossa presença, acreditaram no nosso trabalho e foram muitíssimo positivos durante todo o processo: convidavam-nos constantemente a entrar em suas casas para beber chai e conversar um pouco mais sobre o projecto, os seus problemas e soluções.

Após termos começado em simultâneo a pesquisa e a arquitectura participativa, o governo central da Índia lançou uma bolsa denominada Basic Services for the Urban Poor (BSUP) para apoiar a reabilitação in situ dos bairros de lata localizados dentro de cidades, em terrenos do estado. Esta bolsa nasceu parcialmente de negociações entre o governo central, Jockin e Sheela, com membros de Mahila Milan (Mulheres Unidas), uma rede social de grupos de poupança dirigida por mulheres, moradoras de bairros de lata. O foco de trabalho de Mahila Milan é também a habitação social e a infra-estrutura. Um subsídio de 4500€ seria dado a famílias que morassem em casas Kaccha, interessadas em melhorar as suas habitações. Os beneficiários elegíveis teriam que contribuir com 10% do valor da casa. O governo comprometeu-se a fornecer serviços básicos como água, esgoto, drenagem de água da chuva e electricidade, antes de começar a construção das casas propriamente ditas. Com esta atitude, o objectivo do governo é melhorar os bairros de lata de maneira a que estes possam ser aceites como bairros formais e permanentes, dentro da cidade. Numa primeira fase, na cidade de Pune, cerca de 4000 famílias beneficiarão desta bolsa.

Um processo sustentável como este, para o melhoramento de habitações existentes, só é possível com a participação dos moradores. Esta colaboração é mobilizada pelas mulheres líderes comunitárias do grupo Mahila Milan, que informam todas as famílias sobre a bolsa, fazem pesquisas, inquéritos, levantamentos, conduzem workshops de arquitectura em hindi e ensinam métodos de construção aos moradores.

“Na ausência de um grupo como Mahila Milan, os arquitectos estariam limitados a falar com homens, particularmente aqueles com poder local, que iriam optar por questões de interesse financeiro. Não seria possível para arquitectos organizar uma comunidade de uma forma que possibilita a sua própria participação profunda, os locais não teriam capacidades ou sistemas para completar mapas e inquéritos, receber contribuições dos beneficiários e administrar a construção. Quando o arquitecto saísse, no fim do projecto, o processo iria acabar em vez de aumentar de escala.” (Katia Savchuk)

A nossa proposta é o resultado de inúmeras reuniões e workshops com os moradores e políticos das comunidades, durante as quais ideias foram formuladas, desenvolvidas e aprovadas. Neste diálogo, usaram-se instrumentos tradicionais como desenhos em perspectiva e maquetas. O processo da equipa envolveu apresentações diárias a moradores, líderes comunitários, políticos, engenheiros e construtores. A estratégia desenvolvida abrange não só o interior das habitações e o respectivo exterior, mas também a aldeia urbana como um todo. Incluiu-se o ajuste das implantações de algumas casas para serem criados mais espaços abertos - para a descompressão e a união - ou para que ruas, demasiado estreitas, pudessem ser alargadas para desasfixiarem-se os fluxos pedonais de motos, de rickshaws, de bicicletas e de gado.

Observando as tipologias existentes em Yerawada, e com algumas memórias e aprendizados de meses a “ler” a arquitectura informal da favela da Rocinha, desenvolvemos três protótipos. Estes deviam, para além de ser apropriados à realidade local, oferecer estruturas que pudessem ser aumentadas legalmente no futuro e customizadas pelas necessidades específicas de cada família. De acordo com as regras da bolsa BSUP, a área mínima para cada casa teria que ter 25 metros quadrados.

A casa A é uma casa tradicional em dois pisos, cuja estrutura está preparada para receber três pisos. Esta casa permite, à família que lá mora, aumentar verticalmente um andar sem risco de colapso. A casa B é uma casa de três pisos, cujo rés-do-chão está propositadamente vazio. Este vazio pode ser usado para guardar animais, como garagem de rickshaw, como lavandaria, ou pode ainda ser fechado para dar lugar a uma loja ou mais um quarto. A casa C é também uma estrutura com três pisos; esta, porém, tem o vazio no segundo andar. Este vazio serve de varanda social, oficina ao ar livre ou espaço para secar roupa, até ao dia em que a família quiser construir quatro paredes para transformar o vazio em mais um compartimento.

Estes conceitos foram desenvolvidos numa “técnica de quatro pilares“ para estruturar cada casa. Assim, depois da demolição da casa Kaccha, inicia-se a construção da nova Pucca. Depois de construída a fundação, cada coluna é colocada num dos cantos da implantação, que tem quase sempre uma forma de trapézio irregular. Se existirem, lado a lado, mais de uma casa Kaccha, partilhar-se-ão a estrutura, as paredes e a infra-estrutura, reduzindo-se assim o custo de construção de cada casa. Os fundos poupados neste processo serão calculados de um modo transparente para melhorar as instalações do bairro de acordo com a vontade da comunidade.

Depois de serem construídas instalações sanitárias em todas as casas, os edifícios de casas de banho comunitárias poderão ser demolidos, por já não haver necessidade de uso. Consequentemente, propusemos a manutenção desses espaços, como novos pátios, tão necessários para a reunião de moradores, para as crianças jogarem cricket, para casamentos e outros eventos.

Porque existem famílias sem possibilidade de contribuir financeiramente com os 10% necessários para ganhar a bolsa BSUP, foram criadas alternativas para este pagamento. O envolvimento das famílias na demolição da Kaccha existente, no processo de construção, na escolha da cor da tinta e da pintura da casa, assim como a escolha da cerâmica do piso e sua colocação, são possibilidades de alternativas de pagamento. Particularmente na Índia, o poder escolher a cor é, para as famílias, algo de muito importante. Esperamos que este processo de construção participativa leve a arquitectura a ser personalizada - dentro dos restritivos parâmetros de espaço e budget que caracterizam o projecto - e que o carácter tradicional da arquitectura informal e criativa das aldeias urbanas se mantenha: que as casas sejam todas diferentes.

Para as pessoas que não podem contribuir com trabalho durante a obra ou com dinheiro, ser-lhes-á proporcionado um empréstimo bancário. Os beneficiários serão ensinados pelas Mahila Milan a monitorarem a construção: a contar o número de ferros em cada pilar de betão armado, a testar a qualidade do betão e dos tijolos, para terem a certeza de que os construtores fazem um trabalho correcto.

Durante este período, os moradores serão alojados em instalações temporárias. No caso do projecto-piloto em Netaji Nagar, já foi autorizado por Praveen Pardeshi, o uso de um armazém abandonado no bairro. Depois do projecto ter terminado, os beneficiários irão receber um certificado de ocupação pela Câmara Municipal de Pune. O projecto-piloto desta estratégia para habitação evolutiva está, neste momento, a ser implementado formalmente pela SPARC e Mahila Milan, com o suporte técnico do arquitecto local e director da Universidade de Arquitectura de Pune, Prasanna Desai.

Desde a universidade, em Edimburgo, eu e a Sara Göransson defendemos a vivência no terreno como a verdadeira fonte de ideias autênticas: para aprender neste contexto é essencial trabalhar fora do escritório. Se os pintores impressionistas tiveram a necessidade de inventar uma nova técnica por terem resolvido sair dos estúdios para pintar ao ar livre, talvez os arquitectos possam também descobrir novos horizontes fora do atelier…

A rua é o espelho da cidade.


Filipe Balestra
Arquitecto (Rio de Janeiro, 1981). Mestre pelo Royal Institute of Technology em Estocolmo, Bacharel pelo Edinburgh College of Art. Depois de ter tido experiência profissional em Sandellsandberg, Office for Metropolitan Architecture (OMA+AMO), Neutelings-Riedijk, NL architects e Regino Cruz Arquitectos, Filipe Balestra é co-fundador da empresa Urbanouveau [www.urbanouveau.com].

in http://artecapital.net/arq_des.php?ref=53

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