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Francisco Caldeira Cabral, cujo centenário agora se celebra, fica na História como o primeiro arquitecto paisagista português. Reconhecido pelos pares como um mestre e um visionário, foi também um ambientalista convicto, um homem de invulgar cultura, pensador e pai extremoso de nove filhos. "É manifestamente um homem do século XX, que atravessa todo o século, um visionário que viu mais depressa e mais à frente do que todos os outros e uma referência para todos nós, arquitectos paisagistas", afirmou à Lusa Teresa Andersen, com obra publicada sobre Caldeira Cabral, ao elogiar a escola deixada pelo arquitecto. Caldeira Cabral especializou-se em Arquitectura Paisagista na Alemanha, um dos poucos países da Europa em que existia o curso e é recordado por um dos seus mais célebres alunos, Gonçalo Ribeiro Telles, como "um mestre". "Fui um dos primeiros alunos dele, após se ter formado na Alemanha. Foi um pioneiro extraordinário", disse Ribeiro Telles, enaltecendo os 70 anos de trabalho activo daquele que considera ser ainda uma referência para os jovens que abraçam a profissão. "É necessário pensar na sua herança, quer quanto a princípios, quer quanto a modelos de desenvolvimento e até de criação, que estão neste momento muito postos em causa", defendeu Ribeiro Telles. O legado que Francisco Caldeira Cabral deixou aos portugueses passa pelo Estádio Nacional, em Oeiras, pelos jardins da Quinta Patino, em Cascais, pelo pavimento da Rua Augusta, em Lisboa, pela Praça do Município ou pelo Parque de Santa Catarina, no Funchal. "A arquitectura paisagista é a arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem", dizia. Com base nesta máxima e um enorme respeito pela natureza mandou o filho trabalhar para a Alemanha como jardineiro quando este, aos 16 anos, lhe manifestou o desejo de ser arquitecto paisagista. "O meu pai sempre defendeu, e ele próprio exerceu, a profissão de jardineiro como forma de podermos aprender através das nossas mãos a profissão que depois nos leva a um patamar mais intelectual e onde as mãos já só servem para riscar", conta. Hoje arquitecto paisagista e também de nome Francisco, o filho admite, com orgulho, que recebeu uma "enormíssima influência" do pai e mais tarde de Gonçalo Ribeiro Telles, com quem viria a trabalhar. "Tive a sorte de estar num meio privilegiado de saberes, com personalidades diferentes", recorda. Francisco Manuel Caldeira Cabral tinha no pai um crítico e um apoio. "Era sempre crítico em relação aos trabalhos que eu fazia, mas também era altamente elogioso em relação àquilo que estava bem feito", lembra. Viajavam muito, trocavam opiniões sobre o que observavam e partilhavam sessões de música, numa altura em que "não havia televisão". Francisco Caldeira Cabral (1908-1992) era um homem de múltiplos interesses. Dominava várias línguas e no seu percurso profissional passou pelos quatro cantos do mundo. Chegou a cantar no Teatro São Carlos, em Lisboa, fazendo parte do Movimento Renascimento Musical Portugal. O mesmo homem que se interessava por electrotecnia, ordenamento do território, botânica e micro-climatologia, dedicava-se a traduzir para português "A Paixão Segundo S. Mateus", de Bach, e o "Orfeu", de Verdi. "Era uma pessoa completamente invulgar e tinha interesses muito diversificados", afirma o seu sétimo descendente, que o recorda com saudade: "tinha uma relação afectiva extraordinária connosco". Uma das grandes vitórias do pai e talvez o seu projecto mais falado é o Estádio Nacional, que se não fosse a visão de Francisco Caldeira Cabral era hoje um amontoado de betão em cima do leito do Rio Jamor, a enfrentar constantes problemas de cheias. Inspirado nos princípios ambientalistas que apreendeu no Norte da Europa e na tradição grega, idealizou uma estrutura que pudesse aproveitar o anfiteatro natural do Vale do Jamor, construída com matéria-prima e mão-de-obra nacionais e salvaguardando a paisagem. "Em Portugal não havia cimento, não havia ferro, tinham de ser totalmente importados e é aí que o meu pai, mais uma vez com uma teoria muito ligada à natureza, tem a sorte de estar perante um país com recursos industriais muito fracos nessa altura e portanto os políticos abraçaram a sua solução porque a outra (do chamado lobby do betão) ia criar-lhes problemas de endividamento", admite. Fonte: Lusa

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