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O corpo é um dos temas frequentes no desenho de Siza Vieira

Agostinho Santos
Éo mais internacional dos arquitectos portugueses, mas, sempre que pode, Álvaro Siza Vieira, longe dos estiradores e dos gabinetes de arquitectura, refugia-se no silêncio, apenas acompanhado de blocos de folhas A4. A partir daí, seja em Portugal, no avião ou num quarto de hotel de um qualquer país, Siza Vieira retrata ou o que lhe vai na alma ou o que a imaginação lhe proporciona e dita.
"Desenhos" é o nome da exposição que é inaugurada, no próximo mês, a 14, no Museu Municipal-Edifício do Chiado, em Coimbra, e resulta precisamente desses encontros (felizmente, muitos) que o arquitecto tem com o bloco de folhas. São quase sempre diálogos a tinta-da-china, em que prevalece o corpo humano, maioritariamente mulheres. Mulheres esguias que se penteiam, que olham para o espelho, que acariciam os filhos, que tomam chá, cenas do quotidiano de muitas mulheres deste ou de outros mundos, mas que com a magia e o rigor de Siza Vieira ganham novos fôlegos, novas vidas. Depois, parece que bailam e que querem, isso sim, sair do papel e reencarnar novas personagens.
Espaços dentro de espaços
O desenho ou os desenhos do arquitecto não se ficam por aqui. Até porque Siza Vieira também acredita na invenção do olhar e, por isso, um seu desenho tem à partida uma particularidade que incide na relação com o espaço em que está inserido.
Talvez por isso é que as suas figuras surgem num ambiente totalmente inventado que poderá englobar vários cenários, desde um espaço intimista, uma esplanada de café ou uma biblioteca. Siza Vieira também aqui tem o dom de conceber um desenho que inventa o espaço.
Nesta mostra em Coimbra, além da inclusão da figura humana, serão também integrados desenhos de cidades inventadas ou reais, algumas por onde o arquitecto tem passado e das quais - nos intervalos das reuniões - transporta para o papel o que a memória lhe retém e a emoção facilita.
Os desenhos são de temas e fases distintas, mas vê-se - porque se sente - que foram criados com prazer e alguns até por divertimento, enquanto em outros é bem visível a relação íntima, cúmplice com a arquitectura.
No catálogo que acompanhará a exposição, Nuno Higino escreve que "o potencial de invenção em Siza é portador de uma fecundidade tão excepcional que se esgota em si mesmo, sem possibilidade de reprodução futura. Cada desenho é um caso que sucedeu, uma só vez, pela primeira e última vez. Uma vez sem exemplo". E o mesmo texto afiança- -nos que "os olhos de Siza são olhos que vêem, que se aventuram no escuro. Atravessam a malha da realidade, deixam-se enredar nela e nem sempre ficam reféns".
De referir que Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira nasceu em Matosinhos, em 1933, e é um dos mais consagrados arquitectos portugueses. Licenciado pela Escola de Belas-Artes do Porto, foi influenciado, numa primeira fase da sua obra, por nomes internacionais da arquitectura como Adolf Loos e Frank Lloyd Wright.
Ao longo da carreira profissional, realizou algumas obras que são hoje consideradas emblemáticas, como o Pavilhão de Portugal da Expo'98, a igreja do Marco de Canaveses, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e, muito recentemente, o Museu para a Fundação Iberê Camargo, no Brasil. Obteve inúmeros prémios internacionais.

in jn

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