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Porto | Mercado do Bolhão


NunoMourao

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sim...já sabia! na altura falava de urbanizações..agora referem um centro comercial..não entendo como será isso possível! ja existe o via catarina e o plaza..2 centros comerciais num raio de 500 metros (talvez nem tanto!) e agora 200 metros mais a baixo...outro centro comercial???:vomit1:

mas será que é esta a "formula mágica" para dar vida a um centro cada vez mais morto? não me parece... a minha mãe é que ficou chocadíssima (ela é portuense de gema!) foi ela que me contou e me mostrou a noticia à uns tempos atrás..acredito que todos os portuenses se sintam assim! eu também estou!!

margarida duarte

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No site do Arquitecto Massena, autor do Projecto do Mercado do Bolhão

"MERCADO BOLHÃO - ACTO CIDADANIA

Ex. mo Senhor Presidente da
Assembleia Municipal da Câmara Municipal do Porto
Dr. José Pedro Aguiar-Branco

Excelência,

O Coordenador e Autor do Projecto de Execução para a Reabilitação do Mercado do Bolhão, aprovado pela Câmara em Outubro de 1998, vêm recordar que este é um imóvel de Interesse Público, como tal não pode ser “demolido, alienado, expropriado, restaurado ou transformado sem expressa autorização do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico.

Num acto de cidadania manifesta com veemência, junto dos Órgãos de Soberania, o Horror que irá ser cometido na Cidade do Porto com a demolição tipológica do Mercado do Bolhão, um dos maiores símbolos e modelos da Terciarização e Comercialização, ainda patentes na nossa Cidade.

Porque a última Notícia pública, conhecida e não contestada pelos Órgãos Municipais, é a transmitida pelo Jornal de Notícias do passado dia 09/05/2007, onde refere que o Mercado do Bolhão será concessionado por um período de 50 anos e os dois concorrentes, apontam as seguintes opções programáticas:

• “O Grupo Amorim - transformando o Bolhão num centro comercial, com mercado tradicional no piso inferior, 41 milhões de euros”;

• “O Grupo TCN, TramCroNe - com o objectivo de juntar as valências de centro comercial e de habitação ao mercado tradicional, situado no piso superior, cujo valor é de 38,5 milhões de euros”.

Há um claro desrespeito, caso se observe a referida destruição tipológica, pelo Património Arquitectónico Edificado e o que ele representa na estrutura Cultural, Social e Económica da Cidade do Porto.

E, mais ainda, quando existe um Projecto Aprovado desde Outubro de 1998 por todas as Entidades, internas e externas à Câmara Municipal, Avaliado por um dos maiores Arquitectos Internacionais “Álvaro Siza Vieira” (conforme acta anexa) e submetido na Universidade de Alcalá Henares, em Madrid, aquando de Estudos Superiores sobre a Reabilitação do Património Natural e Edificado, desenvolvidos segundo o Autor e Coordenador deste Projecto e desta Exposição.

Considera, pela legitimidade que lhe é conferida através;

• Da Avaliação do Arquitecto Álvaro Siza Vieira;

• Dos Estudos Superiores na Universidade de Alcalá de Henares;

• Da elaboração do Projecto de Execução para a Reabilitação do Mercado do Bolhão, Aprovado em Outubro de 1998, cujo valor é de12,5 milhões de euros;

Propor:

A urgente implementação do Projecto de Execução Aprovado pela Câmara Municipal do Porto em 1998, para o manter vivo e reforçar o tecido Humano e Empresarial, na sua estrutura compositiva e de Jurisdição Municipal, legando aos Vindouros um dos maiores símbolos da Cidade, alegórico da Terciarização da Cidade Sec. XIX, sem comprometer o Bem Público nos próximos 50 anos.

Neste sentido requer a V.Ex.a, invocando todos os Diplomas Legais, Nacionais e Internacionais de Defesa e Salvaguarda do Património, que seja diligenciado o embargue da Concessão por 50 anos e todos os procedimentos que afectem o Património Humano e a composição funcional e estrutural do Mercado do Bolhão.

Pede Deferimento
Porto, 13 de Maio de 2007

O Coordenador Geral do Projecto de Reabilitação do Mercado do Bolhão e
Autor do Projecto de Arquitectura


JOAQUIM ORLANDO FONSECA MASSENA, arquitecto
(Mestre em Reabilitação e Recuperação do Património, Reg. na Universidade de Alcalá, sob o nº 6641, a 10/Set/1997)
Membro da OAP 3782/SRN

Nota: O teor deste documento será semelhante e enviado para as seguintes Entidades:

•Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico

•Presidente da Ordem dos Arquitectos Portugueses

•UNESCO"

http://www.joaquimmassena.com/

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  • 2 weeks later...
Grupo de arquitectos e estudantes contra projecto aprovado pela Câmara

Um grupo de estudantes de arquitectura e arquitectos do Porto está contra o projecto aprovado pela Câmara do Porto para reconversão do mercado do Bolhão, que consideram revelar "um desrespeito absoluto pelo património histórico e cultural" da cidade.

No manifesto hoje divulgado, cujo primeiro subscritor é o arquitecto Joaquim Massena, o grupo considera que o actual projecto de reconversão vai «desactivar um dos mais emblemáticos símbolos do comércio tradicional da cidade (...) para dar lugar a mais um centro comercial».

O grupo lamenta que o projecto preveja a demolição de todo o interior do edifício, deixando apenas a fachada, preenchendo o interior com placas de betão até à cobertura.

Os subscritores do manifesto defendem que qualquer reconversão daquele espaço deve manter o seu interior aberto, assim como as suas características compositiva e funcional, permanecendo o seu terraço interior como mercado de bens alimentares perecíveis.

Querem ainda que a galeria no piso superior se mantenha aberta para o terraço e exigem a manutenção da estrutura da cobertura em madeira de Riga.

Joaquim Massena, mestre em Restauro e Reabilitação do património, foi o autor do projecto de reabilitação do mercado do Bolhão aprovado em 1998 pela Câmara do Porto, então presidida por Fernando Gomes, e pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).

Este projecto foi abandonado pela Câmara de Rui Rio, que lançou novo concurso público para a reconversão do edifício.

O consórcio vencedor prevê, segundo o projecto divulgado pela TramCrone, que o edifício mantenha manter a traça original exterior, assim como a partilha da área comercial tradicional com novas lojas, cerca de metade das quais de cultura, lazer e restauração.

O projecto prevê dois pisos subterrâneos para cargas e descargas e estacionamento, com capacidade para 216 automóveis, e um piso intermédio entre os dois actuais pisos comerciais.

A restauração e o comércio tradicional vão ficar instalados no segundo piso, com entrada pela Rua Fernandes Tomás, a céu aberto, mas com cobertura amovível para os dias de maior invernia, enquanto os pisos zero e um, ambos cobertos, vão receber lojas-âncora e de conveniência.

Nos torreões do edifício vão ser criadas pequenas habitações complementares ou serviços compatíveis, designadamente para utilização pelos comerciantes.

A Câmara do Porto vai ceder o edifício em direito de superfície por 50 anos, recebendo um milhão de euros no momento da emissão da licença de construção e uma percentagem dos resultados de exploração a partir do décimo ano.


Fonte: Lusa/SOL
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Assembleia Municipal aprecia hoje novo Bolhão


Reis Pinto

A Assembleia Municipal do Porto vai analisar e votar, esta noite, o projecto de reabilitação do Mercado do Bolhão, apresentado pela empresa holandesa Tramcrone. Uma reunião que se antevê muito participada, dada a polémica que tem rodeado a intervenção que se anuncia para aquele emblemático mercado.

As dúvidas estão instaladas entre os comerciantes e os utentes do Bolhão e já surgiram movimentos cívicos que lhes dão corpo. A discussão em torno do futuro do mercado instalou-se e deve estender-se, hoje, aos deputados municipais.

O projecto vencedor da Tramcrone, que terá o direito de superfície por 50 anos, prevê a construção de um parque automóvel para 216 lugares (distribuídos por dois pisos e contemplando ainda espaços de cargas de descargas), três pisos comerciais, um dos quais, com cerca de 7300 metros quadrados, reservado ao comércio tradicional e ainda dois pisos para habitações de pequena dimensão e serviços. As obras, orçadas em 50 milhões de euros, deverão começar em meados deste ano, faltando ainda o parecer do Instituto Português do Património Arquitectónico.

Abertura em 2009

O objectivo é reabrir o Mercado do Bolhão antes do Natal de 2009. No entanto, ainda está por definir o futuro dos comerciantes do mercado, apesar de a empresa holandesa lhes garantir, durante o período de obras, um rendimento mínimo ou um local, tão próximo quanto possível do Bolhão, para poderem continuar a exercer a sua actividade.

Na próxima quinta-feira, pelas 21.30 horas, vai realizar-se, no Ateneu Comercial, um debate com a participação de diversos especialistas, entre os quais o arquitecto Joaquim Massena, autor do projecto que, há 10 anos, ganhou um concurso público para a reabilitação do mercado.

in www.jn.pt

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É a força do proxenetismo capitalista... e qual é o papel da câmara e seus vereadores no meio disto tudo ?? Este executivo é de uma hipocrisia...


Consultei o site da TCN e de facto consta lá o projecto do bolhão mas não há desenhos esclarecedores, mas mesmo não conhecendo o projecto, arrisco numa intervenção vergada à especulação sem respeitar a riqueza monumental do edifício, sem respeitar a história e as gentes que passaram e viveram arduamente o Bolhão... Sai mais um shooping por favor...


E se o Rivoli fosse adaptado a um silo-auto, ou acolhesse as actividades da Passerelle ?
Porreiro pá :icon14:

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A maioria dos projectos de reabilitação que consultei no CRUARB (já extinto) deste mercado eram demasiado humildes. Tivessem a coragem de construir uma ampla coberta envidraçada, proposta já no projecto inicial de Cassimiro Barbosa e Correia da Silva (1914) e nunca realizada, que permitiria libertar todas aqueles cobertas de lona horrorosas; tirassem aquela passadeira central miserável; e deixassem permanecer no espaço as vendedoras que sempre lá estiveram! Parecem-me exigências possíveis. e, pra mais, estratégicas para o futuro do mercado: porque começam a desaparecer as feiras e os mercados tradicionais, qualquer dia para vermos uma galinha temos de ir ao Jardim Zoológico!

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Parece que essa situação esta a ser semelhante ao que aconteceu com o Mercado da Ribeira, em Lisboa.

Durante anos estava praticamente esquecido... com algumas remodelações... e outros investimentos, continua de pé!
http://espacoribeira.pt/


Veremos se irão mesmo dar cabo desse ponto histórico do Porto...

Josué Jacinto - Mais Fácil
My web: maisfacil.com | soimprimir.com | guialojasonline.maisfacil.com

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Bolhão já é de privados

Helena Teixeira da Silva

Oprojecto que venceu o concurso para a requalificação do mercado Bolhão, no Porto, não pode ser divulgado porque "não existe". Não existindo, foi escolhido em detrimento de outro. Os comerciantes exigem, no período de obras, ser instalados no raio de 500 metros daquele mercado. A Câmara diz que já encontrou o local. Mas não diz, ainda, onde é. Embora possa ser na Rua do Bonjardim.

A Associação de Comerciantes do Porto quer salvaguardar os direitos dos comerciantes. A Associação de Comerciantes do Bolhão agradece os direitos que ganhou. O contrato de concepção, construção e exploração do Bolhão foi aprovado, anteontem à noite, na Assembleia Municipal. A maioria PSD/CDS-PP votou a favor; PS, CDU e BE contra. Nos próximos 50 anos, o Bolhão pertencerá a uma entidade privada de capitais holandeses, a TramCoNe.

Lino Ferreira, vereador do Urbanismo, bem tentou explicar o processo e o projecto - "Que não existe porque o objectivo era o de que os concorrentes apresentassem apenas um estudo prévio" -; disse que, apesar de não existir, "o projecto é o mais contido em termos de património edificado"; que o licenciamento caberá à Câmara, mas também ao Instituto de Gestão do Património Arquitectónico; que o concorrente vencedor foi aquele que maior interesse demonstrou em acautelar o futuro dos comerciantes, sugerindo até criar um gabinete de apoio e uma comissão de acompanhamento, embora, na prática, "cada caso seja um caso".

O vereador tentou explicar, satisfeito com a negociação, como o Executivo até conseguiu que a Tram- CroNe reservasse cerca de dois mil metros quadrados, no interior e no exterior, para "o afectar a actividades de animação". E mais conseguiu que disponibilizasse uma verba anual de 200 mil euros para serem geridos pela PortoLazer para actividades culturais.

No futuro, explicou o vereador, o Bolhão terá mais dois pisos, ou seja, sete. Os dois andares subterrâneos, com acesso directo ao metro, servirão para 200 lugares de aparcamento, cargas e descargas. O rés-do-chão, primeiro e segundo pisos manter-se-ão com comércio tradicional e restauração, com entrada pela Rua de Fernandes Tomás. Nos dois pisos superiores serão criadas "zonas habitacionais ou serviços compatíveis com os comerciantes".

A apresentação do projecto que promete manter o espírito e a traça original, articular o negócio tradicional e o moderno não convenceu a Oposição. O PS apresentou uma proposta, que acabou por ser rejeitada pela Maioria, que visava a suspensão da aprovação do projecto e pedia que se retomasse o projecto de recuperação do arquitecto Joaquim Massena.

O Bloco de Esquerda debruçou-se sobre a semântica para demonstrar que os termos em que o contrato está redigido permitem à empresa vencedora salvaguardar os direitos todos. Ou nenhuns.

"Estamos perante uma verdadeira comissão liquidatária da cidade", afirmou José Castro. A CDU acusa a Câmara de "ignorar todos os estudos anteriores" e de nunca ter recebido o Sindicato do Comércio.

O projecto não convenceu a Oposição nem a Associação de Comerciantes do Porto. Mas convenceu Alcino Sousa, presidente da Associação de Comerciantes do Bolhão. "Até que enfim, temos projecto", suspirou.


Link:
http://jn.sapo.pt/2008/01/23/porto/bolhao_e_privados.html

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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Bolhão, o renascer de um símbolo?


Gomes Fernandes, Arquitecto

A o título, retirado com a devida vénia da revista informativa municipal da Câmara Municipal do Porto, "Porto sempre", acrescento o ponto interrogativo, porque outro não foi o meu sentimento depois de ler, a páginas 010 a 013, tudo que aí diz e mostra sobre as intenções de futuro para este velho e carismático mercado.

Não parto do pressuposto que alguns terão, de que "esta" Câmara pretende destruir tal equipamento colectivo, mas confesso que as seis páginas da revista, incluindo as ilustrações e sobretudo os desenhos esquemáticos expostos, me deixaram, de certo modo, arrepiado. Porque entendi, que a deliberação da maioria da Câmara se deverá ter fundamentado em pouco mais, no que toca a desenhos, doutro modo a revista tê-los-ia publicado para elucidação pública.

Sei que há movimentos públicos de preocupação e personalidades várias a pronunciarem-se, sobretudo aqui no JN, o que deve pôr os cabelos em pé ao senhor presidente da Câmara, que considera este jornal a "sua oposição", e embora com a devida demarcação em relação a posições assumidas "a quente", tem de se reconhecer que a Câmara não pode tratar este assunto como o está a fazer. O Bolhão é um símbolo da cidade, inclusive para qualquer político que, se quer ser eleito, sabe que não pode passar sem "o baptismo" confirmatório das vendedeiras do mercado. Ora tal, se mais não fosse exigido, implica compromissos e é no momento das decisões que um político deve avaliar se elas estão ou não conformes com esses compromissos. O que parece não estar a acontecer, digo parece porque há falta de informação oficial e a Câmara se fecha em fornecê-la.

Fá-lo através da "Porto sempre", mas é muito pouco, nada esclarecedor e até adensa as nuvens de preocupação sobre os directamente envolvidos, comerciantes do mercado, e todos os indirectamente interessados, cidadãos do Porto e amigos do património e da cidade. Por outro lado, se o Poder Municipal não informa, a Oposição também pouco adianta, e assim tudo pode acontecer, para o bem, mas sobretudo para o mal, que muitos temem seja a completa descaracterização de um edifício de interesse municipal.

Não sou dos que defendem que a governação da cidade se deva fazer ou questionar na rua, mas daí até ao secretismo medroso e cúmplice vai uma distância enorme, e cabe ao Poder e à Oposição calibrarem e assumirem, ou contestarem, os critérios seguidos na divulgação das medidas, no justificativo das razões e na melhor interpretação do que devem ser os interesses da cidade.

No que a este equipamento diz respeito, a cidade exige mais por uma razão simples, tem direito, indiscutivelmente, a mais. Creio que são poucos os que não concordam que o Bolhão tem de ser modernizado, técnica, funcional e economicamente, mas uma coisa é fazer isto e inclusive dotá-lo de mais adequadas valências, outra coisa é "implodi-lo por dentro" e manter-lhe a "máscara envolvente", porque o corpo de fachadas corresponde a funções que não terão as mesmas vestes, se forem radicalmente opostas.

Penso que é nisto que a Câmara e os seus muitos técnicos, arquitectos, engenheiros, juristas e economistas e outros de bom senso e saber profissional deverão pensar, conhecer a raiz e a história do "doente", fazer-lhe adequado diagnóstico e preparar cuidadosamente o "bloco operatório" para a cirurgia salvadora. Ah…, sem esquecer que é normal e obrigatório nestas "cirurgias" informar a família e obter dela o acordo, ou seja, informar e ir de encontro à vontade da cidade.

Noutras latitudes político-sociais, Suíça p.ex., far-se-ia uma consulta popular, chame-se-lhe referendo ou outro nome, para saber o que querem os cidadãos. Aqui não há ainda esse hábito, mas compete à Câmara, Poder e Oposição, ouvir as vozes e entender os sinais. Será que ainda não estão todos surdos?

Veremos!


Link:
http://jn.sapo.pt/2008/01/23/porto/bolhao_o_renascer_um_simbolo.html

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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A cidade, o campo e o mercado

Manuel Correia Fernandes, Arquitecto

De entre as várias achegas, vindas a público, a propósito da projectada destruição do emblemático Mercado do Bolhão, há duas que, para além das questões mais evidentes dos valores patrimoniais que estão em jogo, chamam a atenção para questões que não podem ser esquecidas uma, tem carácter geral e aplica-se a qualquer obra e a outra é específica e tem a ver com o programa do edifício em concreto que, neste caso, é um mercado de frescos.

A primeira, ou seja, a questão mais geral, refere-se às características do terreno em que a obra vai ser implantada e a segunda prende-se com o uso do território mais vasto da cidade e da sua região e com a importância que tem, para o efeito, a existência de mercados de produtos agrícolas chamados "frescos". Neste caso, para além das questões meramente urbanísticas e/ou arquitectónicas que qualquer construção levanta, está em causa a sobrevivência e a qualidade de vida dos habitantes duma região, porque estão em causa valores mais amplos como são os recursos naturais existentes, na cidade e em seu redor, e os equilíbrios que, por isso, é necessário estabelecer em todo o território.

Sobre a questão da importância que tem a existência de mercados de frescos na cidade, não podemos deixar de pensar nas consequências nefastas que teria o desaparecimento de locais de venda desses produtos que são os tradicionais "mercados de diversos" (como se dizia, em tempos idos, quando se discutia a construção deste e de outros mercados na cidade) que sempre foram pensados como serviços essenciais à sobrevivência dos "cidadãos da cidade" e simultaneamente, dos "camponeses dos campos".

Ora, uma dessas nefastas consequências - que, aliás, já conhecemos - prende-se com a "ditadura" das grandes superfícies não só sobre os habitantes das cidades como, também, sobre os habitantes dos campos enquanto produtores agrícolas que, sendo pequenos (como são quase todos em Portugal) não podem ombrear com os grandes compradores e distribuidores face aos quais, quase sempre, cedem ou soçobram; outra das consequências, é decorrente desta, e tem a ver com a modelação do gosto por padrões que, progressivamente, vão desvalorizando os produtos locais em favor de outros, vindos de qualquer outro lugar, nem sempre tão bons nem tão baratos mas, quase sempre, mais apelativos porque mais bem "embalados".

Sabemos que, muitas vezes, é isso que pagamos primeiro - a embalagem - e, com ela, a ilusão da qualidade mas também e seguramente, depois, a dependência e a submissão aos ditames do "marketing"; outra, e não menor consequência do desaparecimento dos mercados do dia, é a mais do que certa asfixia dos pequenos e pequeníssimos produtores que vivem em volta das cidades e que lhe são essenciais, porque só nos mercados de frescos podem escoar os seus produtos.

Ora, este duplo desaparecimento - dos mercados nas cidades e dos produtores em seu redor - é um incentivo criminoso ao abandono dos campos. E se, por maldade ou incúria dos homens - como acontecerá se o Bolhão for destruído - se quebrarem os elos duma cadeia vital, os resistentes de hoje serão os desistentes de amanhã e o que é, ainda hoje, espaço natural, produtivo e saudável, será amanhã… mais cidade!

Esta política surda mas consentida chama-se "desertificação" porque expulsa os camponeses para a cidade e os cidadãos da cidade para as catacumbas das "grandes superfícies", quase sempre insaciáveis gastadores de energia e, não raro, indecorosos poluidores e predadores de recursos mas com perigosas cores a vesti-los.

Também por tudo isto, se o nosso Bolhão desaparecer é um pouco de nós todos que também desaparece! Mas isso só acontecerá se quisermos.

Link:
http://jn.sapo.pt/2008/01/25/porto/a_cidade_o_campo_mercado.html

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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Por outras palavras, vendemos aos holandeses que pagam mais, e deixa de ser responsabilidade da Camara manter e restaurar o Mercado. Aos vendedores, damo-lhe uma batina e que vão trabalhar para as caixas registradoras, ou lá para o diabo. Já agora, sabem se está à venda a Torre dos Clérigos? Conheço uns alemães interessados em fazer ali um negócio de body-jumping.

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Na próxima Quarta-Feira (30 de Janeiro) no Café Ceuta no Porto às 18:30H
O Movimento Cívico e Estudantil promove a 1ª reflexão/ tertúlia, sobre o tema:
'O que melhor serve os interesses Humanos, Patrimoniais, Artísticos e Culturais da cidade do Porto.'




Para quem não tem acompanhado a questão do Bolhão:

Em Outubro de 1998, o projecto do arquitecto Joaquim Massena ganhou um concurso público promovido pela Câmara Municipal do Porto para a reabilitação do Bolhão. O seu Projecto de Execução para a Reabilitação do Mercado do Bolhão, um imóvel de interesse público e património arquitectónico da cidade, foi distinguido pela sua qualidade, mas depois votado ao esquecimento.

Dez anos depois, Rui Rio ignorou os estudos feitos e pagos com dinheiros públicos e abriu outro concurso, desta vez, ganho pela empresa holandesa TramCorNe-Promoções e Projectos Imobiliários.

No dia 18 de Dezembro o Executivo Camarário aprovou, com os votos favoráveis da maioria PSD/CDS-PP e contra os votos do PS e da CDU, o contrato de concepção, construção e exploração, por 50 anos, da renovação do Mercado do Bolhão. Não foram permitidos representantes de outros outros partidos na Comissão de Acompanhamento, não foi divulgada a totalidade do contrato e, mais importante, a equipa vencedora é a que tem os piores projectos - mas a que melhor os negoceia.

O novo projecto implica
- a demolição da maior parte do interior do Bolhão, ficando apenas 3% destinado ao mercado;
- construção de um supermercado ocupando mais de quatro vezes a área destinada ao mercado;
- a descaracterização de um património nacional com vista à instalação de um Shopping Center.
- a exploração deste por capitais estrangeiros - holandeses - por 50 anos.

O arquitecto português Joaquim Massena, autor do projecto, já enviou uma carta ao Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, ao Presidente da Ordem dos Arquitectos Portugueses e à UNESCO com vista a impedir a realização deste autêntico crime e a execução do projecto aprovado legitimamente em 1998. O texto está muito bom e convém lê-lo.


Mais detalhes sobre o projecto de demolição e construção, podem ver aqui.
Para verem a carta do Arquitecto Português a quem estava destinada o projecto de recuperação, podem ver aqui.
Blogue que mais acompanha a questão: http://manifestobolhao.blogspot.com
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Não poderei estar presente, por isso aproveito para expor aqui os meus argumentos, e estão à vontade de os utilizarem na tertúlia como queiram, se acharem que são pertinentes.

E começo por separar duas questões: o projecto de recuperação em si, e, em segundo, a quem será entregue a tutela do Mercado.

Sobre o primeiro, consultei um texto, mas não vi nenhum desenho concreto do projecto em questão. Já há muito que se pensava em dotar o mercado de estacionamento enterrado, o que implicava, obviamente, cavar um buraco com vários metros de profundidade no centro do mercado. Ou seja, o que quer que estivesse ali no meio estava destinado a ir à vida.
E , verdade se diga, o lado interior do mercado nunca chegou a ser construído de acordo com a intensão do projecto original - que era acoplar uma mega cobertura em ferro e vidro, eventualmente tratar a superfície interna, o que nunca foi realizado. Portanto o que lá existe agora não é, na minha opinião, digno de conservação. A passagem de betão no meio é um aborto, os caixilhos não correspondem à métrica (variável) dos vãos, as infraestruturas estão à vista...

Tb não acredito que o Ippaa permita uma intervenção de desqualifique o exterior, certamente que não serão tão irresponsáveis... Mas falo sem ter visto o projecto desenhado.

Quanto à tutela, essa sim é uma questão que me preocupa, porque se a Camara perde a tutela por 50 anos perde poder de controlo e de exigência sobre esse imóvel, deixa de poder decidir o que se irá lá passar.

Penso que o que temos de fazer a Camara e o Sr. Presidente ver é o seguinte:
O que é património ali não é apenas o mercado em si, mas principalmente a forma de comércio! O poder comprar uma coisa não a um funcionário, mas ao próprio produtor directamente, regatear o preço, etc.
O valor que o Mercado tem como "mercado de frescos à moda antiga" (uma forma de comércio em vias de extinção), daqui a 50 anos, seria um completo achado!! Seria razão para qualquer turista ir ali ver como se vendiam as coisas à 100 anos. E isso aumenta a qualidade de vida na Baixa, a sua procura, é a sua força vital!
Portanto, ao perder a tutela por 50 anos, faz um bom negócio a curto prazo, e condena à morte uma coisa que pode muito bem ser uma razão para vir ao Porto daqui a 30 anos.

Insistam, por favor, nessa questão.
Obrigado

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Abriu agora há uns dias o novo shopping na Trindade, muito perto do dois outros shoppings na baixa onde o bolhão se encontra no meio. Numa entrevista ao Porto Canal o Rui Rio falava e com razão de que para se iniciar um processo de repovoamento da baixa do Porto, era necessário criar condições de permanência aos futuros residentes. Até aqui tudo bem, qualquer um de nós concorda. Aquilo que me parece mal é o facto da Câmara apenas achar que essas condições são criadas através de shoppings, de franchisings, de comércio multinacional, ... Excluindo completamente formas de atracção bastante importantes para a cultura da cidade e para a vida da mesma. O comércio tradicional é e continuará a ser (se não acabarem com ele) bastante importante para a vida no centro das cidades, pelos seus costumes, pela história, pela sua qualidade, etc. E por isso mesmo é que o mercado do Bolhão só faz sentido enquanto mercado de produtos locais. Eu não vou ao bolhão para comprar um saco de maçãs com um autocolante com a marca em cada uma. Vou lá porque sei que tal vendedor vende as maçãs que cultiva ou que provavelmente sabe a sua origem. Hoje em dia há capacidades de sobrevivência das duas versões de comercio em conjunto, é apenas necessário incentivar à compra do local (por várias razões, uma delas o factor distância entre produção e venda). Não faz sentido pensar que as pessoas virão à baixa pela existência de centros comerciais. Faz sentido pensar que o grupo de pessoas que vai à baixa, vai lá por haver outro tipo de opções que não há nos shoppings fora da cidade. Portanto para mim aqui há um grave problema de entendimento dos fluxos populacionais a nível urbano.

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  • 3 weeks later...

Obviamente ja sabia das intençoes em relacçao ao mercado do bolhao, mas so agora tive tempo p poder aprofundar a questao. É impressionante ver como pessoas que dizem estar ao dispor da populaçao e de a servir da melhor forma, agem como se esta nao existisse.. Será que soó o chamado "zé povinho" é que dá valor ao que de mais tradicional existe na cidade do Porto? A mim pessoalmente espanta me, e cada vez consigo repugnar mais ainda a forma de govrno da camara Municipal do Porto. É assim tao dificil encontrar uma soluçao que faça pervaçecer a estrutura e a ideologia de um edificio como o do mercado do bolão? Sao coisas que p alem de estupefacta me deixam verdadeiramente triste. Não há uma forma de fazer acordar esta gente? O sr Rui Rio deve ser holandes e ainda ninguem deu conta.. É inacreditavel.

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Obviamente ja sabia das intençoes em relacçao ao mercado do bolhao, mas so agora tive tempo p poder aprofundar a questao. É impressionante ver como pessoas que dizem estar ao dispor da populaçao e de a servir da melhor forma, agem como se esta nao existisse.. Será que soó o chamado "zé povinho" é que dá valor ao que de mais tradicional existe na cidade do Porto? A mim pessoalmente espanta me, e cada vez consigo repugnar mais ainda a forma de govrno da camara Municipal do Porto. É assim tao dificil encontrar uma soluçao que faça pervaçecer a estrutura e a ideologia de um edificio como o do mercado do bolão? Sao coisas que p alem de estupefacta me deixam verdadeiramente triste. Não há uma forma de fazer acordar esta gente? O sr Rui Rio deve ser holandes e ainda ninguem deu conta.. É inacreditavel.

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